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Encontro no Líbano reúne 300 ativistas; na mira, EUA e Israel

set 23, 2004 | Geral

Mais de 300 ativistas antiguerra se reuniram no último fim-de-semana, no Líbano, para retomar as discussões sobre a construção da Coalizão Global Contra a Guerra e o Neoliberalismo, articulada no último Fórum Social Mundial, na Índia.

São Paulo – Um dos destaques do Fórum Social Mundial (FSM) deste ano, a Coalizão Global Antiguerra, constituída por diversas organizações e movimentos sociais do mundo, se propôs, no final do FSM, a algo bastante ousado: ser uma nova super-potência mundial de oposição ao militarismo, ao neoliberalismo e ao imperialismo dos EUA e de seus aliados, em especial o Estado de Israel sob Ariel Sharon. Oito meses depois, mais de 300 ativistas de 46 países – a lista inclui desde Brasil, Peru, El Salvador, Haiti e Costa Rica a Ilhas Figi, Timor Leste, Austrália, Grécia e Chipre, passando por grande parte dos países árabes e europeus – se reuniram em Beirute, no Líbano, para reavaliar a conjuntura nos principais centros de conflito no Oriente Médio, na perspectiva de reorientar as ações da Coalizão.

Desde os debates do FSM em Mumbai, na Índia, os pontos altos do movimento global antiguerra se restringiram a atos de protesto, tanto no dia 20 de março, data de aniversário da invasão americana do Iraque (menor do que os do dia 15 fevereiro de 2003, que antecedeu a guerra), quanto as mobilizações em Nova York durante a convenção do Prtido Republicano no mês passado. E a situação geral, segundo avaliação do economista Walden Bello, diretor da ONG filipina Focus on the Global South e mentor do encontro de Beirute, está se degradando.

“Estamos reunidos aqui em Beirute num momento bastante crítico”, afirmou Bello em sua fala de abertura do evento. “No Iraque, os EUA estão indo cada vez mais fundo em sua política estilo Vietnã. Na Palestina, o muro Sionista (construído por Israel para separar os territórios palestino e israelense) está avançando numa velocidade de um quilômetro por dia. Há exatamente um ano, em setembro de 2003, muitos de nós comemorarem, em Cancún, México, o colapso da V Cúpula Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). Hoje, esta representante máxima da globalização neoliberal está de volta nos trilhos com a adoção do Documento de Genebra, desenhado para acelerar o desarmamento econômico dos países em desenvolvimento. Há alguns meses, vimos manifestações de repúdio a George W. Bush e suas políticas pró-guerra com mais de 500 mil pessoas marchando em Nova York. No entanto, pesquisas mostram que Bush está 10 ponto na frente de [seu adversário democrata] John Kerry”.

Não por acaso, o nome ou título do encontro de Beirute foi algo como “O que fazer agora para os movimentos antiguerra e antiglobalização?” (“Where Next for the Global Anti-War and Anti-Globalization Movements?”).

Radicalização

O que fazer agora? Como lidar com o que ocorre no Iraque? O que dizer da resistência no país? Radicalizar?

Alguns meios de comunicação regionais que cobriram o evento, como o Haaretz israelense, o Islam On Line (IOL) do Qatar e até o Indymedia de Beirute, destacaram a presença do grupo fundamentalista islâmico Hezbollah como um dos anfitriões do encontro. “Um exemplo de resistência organizada, focada e de sucesso”, diz o IOL do grupo militar. “Resistência que inspirou o mundo”, afirma o documento final do encontro, ao expressar sua solidariedade com a ação do movimento no sul do Líbano.

Mas o Haaretz questiona: “O Hezbollah não é conhecido como um movimento antiguerra ou antiglobalização e nunca patrocinou um evento desses”; no que o Indymedia de Beirute concorda. “Eles não participaram de nenhuma mobilização ligada à guerra antes da queda de Bagdá. Eles não confrontam políticas governamentais liberalizantes e privatizantes no Líbano, mesmo tendo forte influência sobre estas políticas”, afirma.

A inclusão de grupos como o Hezbollah no debate global anti-guerra teria a ver, no caso, tanto com as experiências de resistência no Líbano quanto com as perspectivas da luta de israelenses e palestinos – muito porque foi em função das ações e da resistência da organização que, em maio de 2000, Israel terminou definitivamente uma ocupação de 22 anos no país. A afirmação do documento final da reunião de que o encontro “apóia o direito dos povos do Iraque e da Palestina de resistir à ocupação”, e a anterior declaração de Bello de que o objetivo primordial dos movimentos é “derrotar os EUA no Iraque e Israel na Palestina”, é uma sinalização.

Palestrante na abertura do encontro, Ali Fayyad, representante do Hezbollah, afirmou que o “Islamismo da Libertação” é diferente de terrorismo, como exemplificariam os casos do Líbano e da Palestina. “O Líbano inviabilizou o projeto [do presidente americano] Ronald Reagan para o Oriente Médio nos anos 80”, disse Fayyad, que também afirmou ser o Islã “uma religião que respeita a comunicação e o diálogo e busca a paz mundial, diferentemente de como é caracterizado pela propaganda americana”. Bello amarra: “Todas as formas autorizadas de resistência devem ser reunidas debaixo do mesmo guarda-chuva, independente do credo”

Mas uma afirmação do líder da delegação iraquiana, Abdel-Amir al-Rukaby, supostamente cabeça de uma coalizão alternativa sugerida pelos iraquianos para governar interinamente o país à época do debate sobre o poder no Iraque, gerou desconforto entre os participantes. Segundo o jornal The Daily Star, Rukaby teria pedido a aprovação de uma moção que daria à resistência iraquiana o direito de defender o seu país de qualquer força de ocupação, de todas as formas.

“A guerra no Iraque é uma guerra tão desnecessária, tão ilegal. Mas Gandhi costumava dizer que três quartos dos problemas do mundo seriam resolvidos se a gente conseguisse se colocar nos tamancos do adversário. Os iraquianos tem sim o direito de se defender. No entanto, enquanto tomar reféns e prisioneiros de guerra está bem, matar e decapitar inocentes não está”, afirmou o indiano Ramu Ramadas.

Propostas

Entre as propostas apresentadas no evento, destacam-se a demanda palestina para que se crie um movimento global contra o Apartheid israelense e um tribunal internacional contra Areiel Sharon. Já os iraquianos pedem uma conferência de intelectuais e ativista no próprio país e um comitê de advogados para defender mulheres e crianças presas pelos EUA.

Já o documento final se ateve mais às generalidades. Além de reafirmar o apoio aos movimentos de resistência dos dois países e exigir a sua desocupação pelas forças americanas/coalizão e israelenses, exige ainda que os refugiados palestinos possam voltar aos seus territórios, tendo garantidos seus direitos econômicos, políticos e sociais, o desmantelamento do “Muro Sionista” (ou Muro do Apartheid), a libertação dos prisioneiros políticos iraquianos e palestinos, além de denunciar “o caráter racista e colonialista do sionismo, a ideologia do Estado Israelense”.

Segundo o jornal local The Daily Star, Walden Bello comemorou, acima de tudo, a aproximação dos movimentos anti-guerra ocidentais com os grupos árabes. “A maior conquista desta conferência foi a forma com que fomos capazes de trazer o movimento pacifista e de solidariedade global para uma associação e um diálogo mais próximos com seus pares do mundo árabe e mussulmano. Especialmente num momento em que os EUA ataca o Islã com o objetivo de atender objetivos de sua política externa”.

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