Os paraolímpicos do Brasil chegarão a Pequim, daqui a quatro anos, muito mais confiantes do que chegaram há duas semanas a Atenas para os Jogos Paraolímpicos. Se em Sydney a conta, embora boa, foi curta – 22 medalhas, seis de ouro, 10 de prata e 6 de bronze – em Atenas o resultado foi surpreendente. Foram 33 medalhas (a última, de ouro, foi conquistada nesta terça-feira pelos rapazes do futebol de 5 para cegos contra a Argentina), sendo 14 de ouro, 12 de prata e 7 de bronze. Ficou em décimo-quarto na classificação geral, atrás apenas de Canadá e EUA nas Américas.
Levará na bagagem, também, o maior fenômeno do paraolimpismo brasileiro, o nadador potiguar Clodoaldo Francisco da Silva. Ele ganhou seis medalhas de ouro (sendo 5 em provas individuais e uma no revezamento 4×50 medley) e uma de prata no revezamento 4×50 livre.
Mais: “Clodoágua” bateu cinco recordes mundiais e seis paraolímpicos. O bom desempenho, no entanto, não é garantia de boa vida até Pequim. Assim que a chama paraolímpica se apagou, na noite desta terça, no Estádio de Atenas, a verdadeira maratona dos atletas paraolímpicos começou. Os contratos de patrocínio e as ajudas de custo para a equipe e para os medalhistas terminaram junto com os Jogos e o futuro é incerto.
Além do que, no começo do ano que vem, há eleições para a presidência do Comitê Paraolímpico e muita coisa pode mudar. Vital Severino Neto, o atual presidente, lutará pela reeleição e levará como grande cacife o feixe de medalhas de Atenas. A reeleição, porém, não está ganha. A oposição trabalha nos bastidores e o colégio é pequeno: apenas 4 votos de associações com credenciamento internacional. Vital evita falar de política.
“Agora, quero é celebrar o resultado. Depois, falaremos sobre sucessão. Nosso objetivo era, no mínimo, igualar Sydney. Fizemos mais, muito mais. Ganhamos 50% mais ouro. Só temos motivo para felicidade”, disse Vital. Segundo ele, com a exposição dos Jogos de Atenas na mídia, com competições transmitidas ao vivo pela tevê, paradigmas foram quebrados e novos patrocinadores poderão chegar.
“Hoje, os deficientes do Brasil são sinônimos de eficiência. Acabou, felizmente, aquele período negro. Algumas empresas evitavam ligar a sua imagem aos paraolímpicos”, explicou o presidente do CPD, que nesta Paraolimpíada teve como patrocinadores principais as Loterias da Caixa e o cartão Visa.
O desempenho técnico dos brasileiros nas Paraolimpíadas foi, realmente, notável. Mas o caminho ainda é longo. Exceção feita ao ouro do futebol de 5 para cegos e futebol de 7, as demais medalhas foram conquistadas pela natação, atletismo e judô, ou seja: as mesmas que venceram em Sydney.
Será preciso um trabalho forte na base para abrir o leque. “Isso só conseguiremos com mais recursos e estímulo não apenas do governo, mas da iniciativa privada, também”, disse Vital. Os paraolímpicos chegam ao Brasil nesta sexta-feira e esperam, ao contrário da indiferença nas outras chegadas, uma recepção de heróis.
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