O comandante do Exército do Brasil, general Francisco Albuquerque, se retratou nesta terça-feira dos termos adotados na nota sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog, durante o regime militar. A nota, publicada neste domingo, irritou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que exigiu a retratação. Lula considera que a nota tinha tom elogioso à repressão pelos militares.
De acordo com reportagem publicada nesta quarta-feira pelo jornal Folha de S. Paulo, a retratação foi praticamente ditada ao general pelo presidente, durante uma reunião na Base Aérea de Brasília. O ministro da Defesa, José Viegas, também estava no encontro. A retratação tem tom oposto ao da nota e lamenta a morte de Herzog, admitindo que a mensagem de domingo foi errada.
“Entendo que a forma pela qual esse assunto foi abordado pelo Centro de Comunicação Social do Exército não foi apropriada”, diz a retratação, assinada pelo próprio Albuquerque. Além disso, o general escreveu que a primeira nota não é “condizente com o momento histórico atual” e que o Exército “não quer ficar reavivando fatos de um passado trágico que ocorreram no Brasil”.
Fotos – A crise interna na Defesa começou depois da publicação de fotos inéditas do jornalista na cela pouco antes de morrer, em 25 de outubro de 1975. O jornal Correio Braziliense divulgou as imagens, que mostram um homem que foi identificado como o jornalista, nu em uma cela, sob custódia do Exército. No domingo, o Exército divulgou a nota polêmica, em resposta ao jornal.
O texto diz que “as medidas tomadas pelas Forças Legais foram uma legítima resposta à violência dos que recusaram o diálogo, optaram pelo radicalismo e pela ilegalidade e tomaram a iniciativa de pegar em armas e desencadear ações criminosas”. Para o presidente – ele próprio perseguido pelo regime militar -, foi um elogio aos homens que torturavam os militantes de esquerda.
Assessores de Lula avaliaram que esse trecho foi elaborado como se o país ainda estivesse sendo comandado pelos militares, o que ele considera inadmissível. Outro trecho do texto que irritou muito o presidente é o que afirma que “o movimento de 1964, fruto de clamor popular, criou, sem dúvidas, condições para a construção de um novo Brasil, em ambiente de paz e segurança”.
Reabertura – Em Brasília, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Mário Heringer (PDT-MG), vai se reunir nesta quarta com os parlamentares da comissão disposto a retomar as análises dos arquivos sobre torturas no período do regime militar. “Vamos investigar todo o material de novo. A coisa foi reacesa e não pode ficar no esquecimento”, afirmou.
A viúva do jornalista, Clarice Herzog, o reconheceu com certeza em pelo menos uma das fotografias. Apesar disso, o presidente da comissão quer comprovar a autenticidade das fotos. Herzog foi declarado suicida pelo regime militar – foi fotografado com o cinto do uniforme de preso amarrado no pescoço -, mas todos os indícios apontam para a tortura e execução do jornalista.
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