O desempenho abaixo do previsto no crédito e os juros mais baixos não impediram o Bradesco de ter nos primeiros nove meses deste ano um lucro de 2 bilhões de reais, a maior cifra registrada para o período em sua história.
No terceiro trimestre, o maior banco privado do país lucrou 752,3 milhões de reais, 33 por cento mais que os 564 milhões de reais ganhos entre julho e setembro de 2003.
Para o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, o resultado tem diversas explicações, mas o desempenho do banco está relacionado ao bom momento vivido pela economia.
“Acho que o Brasil está muito bem, estamos em um estágio de crescimento importante, acima das expectativas”, disse Cypriano, que enumerou uma série de resultados recorde alcançados por empresas.
As mesmas empresas, porém, que demandaram tão poucos empréstimos entre julho e setembro e comprometeram a previsão de crescimento da carteira total de crédito até o fim do ano. De 25 ou 26 por cento, Cypriano passou a esperar algo entre 20 e 22 por cento para o crescimento do crédito do Bradesco em 2004.
“Chegamos a projetar esse crescimmnto do crédito (de 25 por cento) se o PIB crescesse 3 por cento, e está crescendo mais que isso. Mas as empresas encontraram outras maneiras de tomar dinheiro”, disse Cypriano.
“Claro que é importante ter investimentos para que esse crescimento seja sutentado”, completou o presidente do Bradesco, que espera uma retomada da demanda por crédito pelas empresas grandes assim que a Parceria Público-Privada acontecer.
O executivo manteve a projeção de expansão da carteira do banco em 2005, de 20 por cento. Nos primeiros nove meses deste ano, a carteira alcançou 60 bilhões de reais, com crescimento de 13,6 por cento e, entre julho e setembro, 2,7 por cento. Bem abaixo dos cerca de 5 por cento estimados para o setor por alguns analistas.
O segmento de empréstimo corporativo, principal responsável por esse desempenho aquém do esperado, teve um encolhimento de 3 por cento nos primeiros nove meses do ano. E a diminuição foi concentrada no terceiro trimestre, com a ajuda da desvalorização de 8,4 por cento do dólar.
“Até o primeiro semestre de 2004, tínhamos elevação do (saldo da carteira destinada a) grandes empresas de 6,8 por cento”, disse Cypriano.
OUTRO LADO DA MOEDA
Mas a face boa do crescimento econômico também se manifestou nos números do Bradesco. Na carteira de crédito, a parcela destinada a pessoa física cresceu 19,5 por cento entre janeiro e setembro, e a voltada a pequenas e médias empresas, 23,5 por cento.
A carteira de crédito consignado –com desconto em folha de pagamento– deslanchou e atingiu 1 bilhão de reais, segundo Cypriano. Ele destacou também a recuperação de créditos, 104 milhões de reais a mais que no trimestre anterior, e a despesa com provisões para créditos de liquidação duvidosa, que saíram de 2 bilhões, nos primeiros nove meses do ano passado, para 1,5 bilhão de reais, no mesmo período deste ano.
Os ganhos de Tesouraria também voltaram a acontecer no terceiro trimestre. Somente com a recuperação de títulos, segundo o vice-presidente do Bradesco Milton Vargas, houve uma variação positiva de 380 milhões de reais.
Esses e alguns outros fatores contribuíram para um crescimento de 223 milhões de reais da margem financeira do banco, no trimestre.
“Na realidade, na parte da receita não tem crescimento relevante. O que tem é uma queda muito grande na parte de custos. Eles conseguiram tomar recursos de uma forma muito barata”, disse a analista Catarina Pedrosa, da Banif Securities.
Além disso, a receita com a prestação de serviços cresceu 5,8 por cento, ou 80 milhões, e as despesas administrativas mantiveram-se sob controle.
“Na parte de tarifas, com excessão de cartão de crédito, que ficou estável, todos os outros itens cresceram. É onde os bancos hoje procuram aumentar seus ganhos”, disse a analista.
Segundo Vargas, do Bradesco, o resultado não sofreu impacto devido à reversão de impostos.
“O banco reconheceu um crédito tributário, mas anulou ele completamente com a amortização extraordinária do ágio do BEM (Bando do Estado do Maranhão)”, explicou.
Segundo Catarina, o banco pode ter tido um efeito tributário favorável devido à valorização cambial, mas pagou mais imposto assim mesmo porque seu resultado operacional cresceu substancialmente.
O resultado foi bem recebido no mercado. Às 15h26, as ações do Bradesco registravam a maior alta do dentre os 55 papéis que compõem o Ibovespa, com ganho de 3,05 por cento, para 177,25 reais.
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