Para ativistas, há avanços, mas não acordo sobre futuro do evento
Depois de cinco edições do Fórum Social Mundial para lutar contra a hegemonia do Fórum Econômico que se realiza anualmente em Davos, o que conseguiram os dezenas de milhares de participantes que todo ano se reúnem sob o lema “Um outro mundo é possível”?
Talvez o momento em que o poder do fórum foi mais patente tenha sido em 15 de fevereiro de 2003.
Naquele dia, as centenas de organizações que formam esse “espaço democrático de idéias” convocaram uma manifestação mundial contra a guerra, mobilizando 10 milhões de pessoas em quatro continentes. Três semanas depois começou a guerra. Mas os participantes acreditam que com aquela convocação foi depositada uma boa semente.
Nesta quinta edição do fórum, fala-se em perspectivas comerciais justas entre o Norte e o Sul, há uma discussão sobre utopia e política na qual intervém o prêmio Nobel José Saramago, outra sobre software livre, um seminário sobre a mística da paz, um diálogo sobre a diversidade indígena, e assim até 2 mil atividades, incluindo obras de teatro, filmes e exposições espalhadas por 203 salas. O que sairá de tudo isso? O que saiu até agora?
Em outubro passado, o próprio presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que o fórum deveria concentrar muito bem seus objetivos, escolher dois ou três temas principais e lutar por eles, porque se não corre o risco de se transformar numa feira de idéias onde cada um compra e vende o que quer, sem se comprometer com nada.
“O poder quer fazê-lo ver que você está só e em silêncio. Isso já foi rompido”, indica María Rosa, militante da Iniciativa per Catalunya. “Até começar o fórum, só se falava em pensamento único”, acrescenta Miguel González, coordenador da ONG Alboan, do País Basco. “E se conseguiu que Davos introduzisse em sua agenda a redução da pobreza.”
“Também se conseguiu que muita gente do mundo todo compartilhasse suas experiências”, salienta um membro de uma ONG de Astúrias. “Agora voltarei com a mochila cheia de idéias e lá as transmitirei.”
Algo mais? “Os resultados não são medidos só por um ato ou fato concreto, mas fazem parte de um processo que vai se fortalecendo”, salienta Cristina Manzanedo, da organização Entre Culturas. “Ao nos conhecermos e compartilhar experiências, a esperança cresce e se fortalece”, indica Inmaculada Cabello, integrante do grupo Córdoba Solidaria.
Então não há um avanço concreto, como pede Lula? “Sim, há”, afirma Ana Maria Guirao, da Cáritas. “O Acordo de Livre Comércio das Américas ia entrar em vigor em 2005. E não entrou graças à oposição que o fórum demonstrou.”
“Também é um avanço que mil organizações de todo o mundo tenham entrado em acordo para nos mobilizarmos quando se reúne o grupo dos países mais ricos e tentar introduzir em sua agenda o cancelamento da dívida, a mudança das regras do comércio internacional e duplicar a ajuda ao desenvolvimento”, salienta Miguel González.
Em Porto Alegre, existem duas correntes: os que pensam como Lula e acreditam que é preciso se concentrar em duas ou três questões concretas e aqueles que pretendem continuar promovendo a diversidade do fórum.
O brasileiro Carlos Guimarães, da associação Cic-Bata, defende a diversidade: “Em maio de 68 lutava-se contra um Estado opressor. E havia um modelo alternativo, o dos países socialistas. Agora se luta contra um modelo que se diz hegemônico e lutamos contra ele fomentando a diversidade. Se as pessoas esperavam que depois de alguns anos o Fórum Social dissesse: ‘Este é nosso modelo contra o de Davos’, estaríamos substituindo um modelo hegemônico por outro. Não se trata disso. Se fosse gerada uma agenda social diferente, o fórum perderia sua identidade.”
Cai a noite. E a música continua tocando nos 4 quilômetros de tendas de campanha que ocupam o território do fórum. Improvisam-se rodas de músicos que tocam ao ritmo do samba. Circulam carros policiais, embebidos pela alegria das pessoas que dançam. Aqui e ali, jovens sublinham com esferográfica, na selva das 2 mil atividades do programa oficial, os debates e as palestras de que participarão no dia seguinte.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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