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Milhares marcham por igualdade de direitos

mar 10, 2005 | Geral

Ato em SP reuniu milhares de pessoas de todos os Estados do país na luta por igualdade, liberdade, justiça e paz. Entre as bandeiras das feministas estão a legalização do aborto e o combate ao livre-comércio e à mercantilização do corpo da mulher. Na caminhada, ativistas também assistiram à expressão do machismo enraizado na população.

São Paulo – Todos os anos, o Dia Internacional da Mulher transforma-se numa data para homenagear mulheres que, com a força do seu trabalho, conseguiram ocupar na sociedade espaços antes exclusivos aos homens e provocaram mudanças concretas nas relações de gênero vigentes. Falar das lideranças do movimento feminista e de suas histórias significa, no entanto, retratar apenas uma parte desta luta. Neste 8 de março de 2005, foram as mulheres anônimas, que levam esta briga cotidianamente, que fizeram o país parar para refletir sobre a igualdade há tanto tempo reivindicada por elas. Manifestações contra a violência, pela paz, por um salário mínimo mais justo e contra a mercantilização do corpo aconteceram em diversas capitais do Brasil.

A maior delas, no entanto, foi em São Paulo. Cerca de 15 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, e mais de 40 mil, segundo os organizadores, marcharam por um mundo sem opressão e discriminação contra as mulheres. No centro do debate, a construção de políticas públicas com participação popular, que combatam a desigualdade entre homens e mulheres, o combate à guerra – que faz explodir as agressões que as mulheres já sofrem no seu cotidiano –, à política econômica ditada pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) aos países em desenvolvimento e ao livre-comércio. Para as feministas, o uso intensivo da mão-de-obra feminina e o estímulo à mercantilização do corpo da mulher são apenas duas manifestações desta opressão promovida pelo capitalismo (leia matéria “Mulheres farão ações contra guerra e livre-comércio”).

Do alto de um dos carros de som da manifestação em São Paulo, Fabiana, que prefere ser chamada de Nega Luz, protestou contra o machismo, o sexismo e o racismo cantando raps ao lado de outras duas jovens. Aos 23 anos, ela trabalha à tarde como voluntária em uma biblioteca comunitária em uma favela no município de Embu das Artes, na Grande São Paulo. O sustento vem das manhãs como babá. À noite, é hora de correr atrás de cursos e também de contatos para apresentações do grupo Luzidio, um núcleo de resistência feminina que encontrou na música uma forma de protestar contra a injustiça social e a violência contra a mulher. “Hoje foi um dia muito importante para nós. Nunca cantamos para tanta gente. Foi nossa primeira apresentação em uma manifestação. Viemos pra cá com um frio na barriga, mas foi um grande aprendizado”, acredita Nega Luz.

Elza Gomes de Moraes também afirma que aprendeu muito. Trabalhadora rural, desempregada há três anos, ela saiu da cidade de Campo Grande na segunda-feira para participar da marcha em São Paulo. Veio com outras 150 pessoas que lutam pela terra no Estado do Mato Grosso do Sul. Elza, que é militante da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag), deixou o marido em casa, porque a filha está prestes a dar à luz. “Vim para São Paulo porque é muito importante participarmos de manifestações como esta. Se você fica parado, não adianta. Carro parado não faz frete. Precisamos mostrar que o que os homens podem a gente também pode: trabalhar nas máquinas, plantar, colher. É por isso que estamos aqui. Para trabalhar, lutar e conseguir. É o que a gente espera. Eu tenho fé”, diz.

Trabalhadoras rurais e urbanas caminharam lado a lado nesta terça-feira. Sob um sol de 30 graus, as mulheres do movimento de luta por moradia, que na véspera enfrentaram a repressão do governo municipal de São Paulo num ato no centro da cidade, também estavam ali. “Nossa briga tem que ser todo dia. Só vamos conseguir algo quando estivermos unidas. Ontem apanhamos em nossa primeira audiência com o prefeito José Serra. Hoje estamos aqui para defender políticas públicas diferenciadas em relação à mulher. A violência doméstica, por exemplo, só vai ser combatida quando a mulher tiver autonomia, quando a titularidade da casa vier em seu nome, quando conseguir financiamento direto. Se a mulher adquire uma certa independência, ela passa a reivindicar seus direitos”, afirma Maria das Graças Xavier, coordenadora da União dos Movimentos de Moradia e da Central dos Movimentos Populares. Cerca de 5 mil mulheres do movimento de moradia, vindas de 17 Estados, engrossaram a marcha na capital paulista.

As marisqueiras, rendeiras, donas de casa e aposentadas que passaram dois dias dentro do ônibus no trajeto Maceió-São Paulo garantem que não voltarão para casa da mesma forma. Assim como a delegação de professoras do Rio de Janeiro. Aplaudidas ao passar em frente uma escola no trajeto pela Rua da Consolação, em direção à Praça da República, elas vieram reivindicar igualdade dentro da sala de aula. Cerca de 90% da categoria dos professores, que segue desvalorizada, são de mulheres. E, apesar do avanço delas em indicadores sociais como a educação, devido à ampliação do acesso, o preconceito ainda vigora também neste setor.

“A educação sexista e racista ainda impregna as práticas educativas no Brasil, que estimulam características masculinas e femininas na sala de aula e alimentam uma cultura de gênero. Essa cultura é propícia à questão da virilidade e à visão de que as mulheres valem menos. Essa desigualdade, no futuro, faz com que os salários das mulheres sejam menores e também estimula reações violentas, não só do homem contra a mulher, mas contra outros homens também”, acredita Denise Carreira, coordenadora da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Sinais dos tempos

Em sua caminhada pelo centro de São Paulo, a marcha das mulheres recebeu aplausos, chuva de papel picado, sorrisos e abraços. Mas recebeu também a expressão do machismo enraizado na população. Houve vaias e manifestações explícitas contra as bandeiras carregadas naquele ato. Um grupo de jovens, do alto de uma sacada, fez questão de exibir pôsteres e revistas pornográficas para as jovens, idosas, negras, brancas, indígenas e deficientes que passavam em frente ao edifício. A Polícia Militar também reagiu com violência contra aquelas que ocuparam uma faixa de trânsito além da permitida.

O estudante de história Everton Guedes, que participava da passeata de mãos dadas com a namorada, criticou a postura machista da maioria das homens. “Ainda há o senso comum de que as mulheres valem menos. É para lutar contra isso e para dar apoio às bandeiras feministas que estou participando da marcha. A única bandeira que não aprovo é a legalização do aborto”, conta.

Reivindicação histórica do movimento feminista (leia matéria “Católicas lançam campanha pela legalização do aborto”), a legalização e discriminação do aborto foi aprovada como diretriz do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres pela I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres realizada em julho do ano passado, em Brasília. A revisão da legislação punitiva brasileira acerca do aborto está sendo feita por uma comissão criada pelo governo federal, cujo resultado deve ser votado pelo Congresso nos próximos meses. Entre 750 mil e 1 milhão de abortos clandestinos acontecem por ano no Brasil. Em média, 250 mil mulheres são internadas pelo Sistema Único de Saúde vítimas de abortos inseguros. Delas, cerca de 10% morrem e 20% ficam com seqüelas.

O aborto inseguro é praticado principalmente por mulheres negras e pobres. Anônimas que querem ter o direito de decidir sobre seu próprio corpo e sobre seu futuro. Anônimas como as que marcharam em São Paulo por seus direitos e que, todos os dias do ano – sejam grávidas, homossexuais, mães, irmãs, matalúrgicas, sem-terra, feministas, socialistas – encaram os desafios de serem, simplesmente, mulheres.

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