Milhares de agricultores saíram mais uma vez para as ruas pedindo a liberação de recursos para amenizar os prejuízos da seca. Manifestantes cobraram medidas do governador Germano Rigotto (PMDB). No interior, um veículo da RBS TV foi incendiado por quatro homens não identificados.
Porto Alegre – Cerca de dois mil agricultores da Via Campesina, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e da Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (Fetraf-Sul) trancaram na manhã desta terça-feira (dia 15) as ruas que dão acesso ao Palácio Piratini, em protesto contra a ausência de medidas, por parte do governo estadual, para aliviar a situação dos atingidos pela seca. Os protestos também se estenderam ao interior. Cerca de quatro mil agricultores, ligados à Via Campesina e ao MPA bloquearam a BR 386 em Sarandi. Outros 800 fizeram protesto semelhante na BR 116, na região de Pelotas. Um incidente envolveu uma equipe da RBS TV. Um veículo da emissora foi queimado por quatro homens não identificados na BR-386, nas proximidades do município de Sarandi. A equipe cobria o protesto dos agricultores quando o cinegrafista Éverton Machado teve a câmera arrancada de suas mãos e colocada dentro do carro, que acabou sendo incendiado. O cinegrafista e o repórter Leonel Lacerda não sofreram ferimentos.
Segundo os jornalistas relataram à polícia, os quatro homens não identificados responsáveis pela queima do veículo e do equipamento da equipe de reportagem da RBS dificilmente fazem parte dos movimentos de agricultores que bloquearam a BR-386. Leonel Lacerda disse à Rádio Gaúcha que a maior parte dos manifestantes eram de fato agricultores familiares, incluindo muitas pessoas idosas, o que reforçaria a tese de que os agressores não fazem parte do movimento os agricultores. O jornalista acrescentou que sempre teve um bom relacionamento com as lideranças do movimento.
Os incidentes na área provocaram a reação da Justiça Federal de Passo Fundo que concedeu um prazo de 24 horas para a completa desobstrução da BR 386. O policiamento no local foi reforçado com 40 agentes do Pelotão de Operações Especiais da Brigada Militar. Segundo o comandante regional de Polícia Ostensiva do Planalto, coronel Valdir Cerutti, os manifestantes estavam armados com foices, facões e pedaços de pau. Mais de 100 policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOE) devem se deslocar para a região para realizar a desobstrução da via, após o prazo fixado pela Justiça. Outro grupo de aproximadamente 150 agricultores bloqueou, no início da manhã, a BR 285, na entrada do município de Sananduva, deixando apenas meia-pista liberada. Eles também reivindicam recursos para amenizar as perdas com a seca.
Impasse no Palácio Piratini
Na capital, a manifestação dos agricultores foi marcada por um impasse com as autoridades do governo estadual. O protesto começou pela manhã e provocou o fechamento da entrada principal do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. Os agricultores colocaram pés de milho secos junto ao portão principal e permaneceram em frente à sede do Executivo com um caminhão de som e faixas de protesto contra a política de isenções fiscais praticada pelo governo do Estado que, para os manifestantes, tira recursos importantes para outras áreas. A principal reivindicação é a liberação de R$ 100 milhões pelo governo do Estado para combater os prejuízos causados pela estiagem que afeta cerca de 200 mil famílias. O impasse iniciou quando o chefe da Casa Civil, Alberto Oliveira, condicionou uma possível reunião ao desbloqueio da rua Duque de Caxias, em frente ao palácio. Os agricultores aceitaram participar de uma reunião, mas pediram a presença de 20 representantes, o que não foi aceito por Oliveira que admitiu apenas a entrada de 10 manifestantes. Até a metade da tarde, o impasse não havia sido superado.
Após horas de negociações, a reunião finalmente saiu com a chegada do governador Germano Rigotto (PMDB), que estava no interior. Rigotto aceitou conversar com seis representantes dos manifestantes e garantiu que anunciará em 15 dias recursos para beneficiar 200 mil famílias atingidas pela seca. Ele não falou em valores, dizendo apenas que o anúncio ocorrerá em parceria com o governo federal. Rigotto só confirmou a prorrogação de um ano do pagamento do programa troca-troca de sementes. Ao deixar a reunião, os representantes dos agricultores disseram esperar que Rigotto se comprometa com a liberação de pelo menos R$ 200 milhões, o que não está garantido. Nesta quarta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visita o RS para ver de perto os prejuízos causados pela seca. Dirigentes da Via Campesina no Estado não descartaram novos protestos durante a visita de Lula à região norte do Estado, uma das mais castigadas pela estiagem.
Medidas contra a seca
Segundo informações da Agência Brasil, Lula começa o roteiro visitando o município de Coronel Freitas, na região oeste de Santa Catarina. A seca deste ano é considerada a pior dos últimos 43 anos no Estado, já acumulando prejuízos da ordem de R$ 658 milhões na agricultura e deixando pelo menos 144 municípios em situação de emergência. A estiagem atinge cerca de 80% dos municípios do Rio Grande do Sul, 30% de Santa Catarina e 10% do Paraná. As culturas mais afetadas pela seca são as de milho, soja e feijão. À tarde, Lula segue para Erechim (RS), onde foi criado o Comitê de Gerenciamento da Estiagem, para definir prioridades no atendimento às famílias atingidas. Dos 497 municípios gaúchos, 412 já decretaram situação de emergência. Na semana passada, o governo federal anunciou um pacote de medidas emergenciais que prevê a liberação de recursos da ordem de R$ 408 milhões, sendo R$ 300 milhões neste ano.
Outras duas ações anunciadas pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, foram a antecipação dos créditos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para a safra de inverno (somando R$ 800 milhões) e a criação, em parceria com os governos estaduais, de um fundo para a concessão de auxílio a agricultores de baixa renda que não tiveram acesso ao Pronaf.. Além disso, as dívidas bancárias dos produtores atingidos pela seca serão extintas com o seguro que faz parte do contrato de financiamento da safra. No momento em que os agricultores financiaram sua lavoura, via Pronaf, também obtiveram o seguro agrícola. Um dos objetivos dessa medida é evitar que os agricultores abandonem o campo, vontade já manifestada por diversos agricultores, desesperados com a perda da safra. Nos últimos dias, a chuva começou a voltar ao Rio Grande do Sul, mas os prejuízos já estão consumados.
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