Deputados da esquerda petista anunciaram neste domingo a formação de uma frente parlamentar que promete desafiar as orientações do partido e votar contra projetos do governo considerados polêmicos.
A decisão marcou o encontro da ala minoritária da legenda nos 25 anos do PT, evento realizado em São Paulo em contraposição à festa de aniversário oficial ocorrida sábado em Recife (PT).
Quinze deputados federais, dos 91 que formam a bancada do partido, aderiram ao chamado bloco e elegeram os primeiros alvos contrários: as reformas sindical e trabalhista e o projeto de autonomia do Banco Central. Por enquanto, apenas a reforma sindical foi entregue pelo governo ao Congresso.
“Não digo que seja uma cisão, é uma forma altiva de firmar posições históricas do partido”, disse à Reuters o deputado federal Ivan Valente (SP), um dos principais articuladores da frente e um dos porta-vozes da esquerda petista na Câmara.
Uma das queixas frenquentes do grupo é que suas demandas e posições não são ouvidas pelo Executivo e pela liderança do governo na Casa. “Queremos passar a negociar em bloco, queremos ser ouvidos”, completou Valente.
Na carta que define a pauta da frente, estão, entre outros pontos, críticas ao latifúndio, ao agronegócio, às taxas de juros, ao superávit fiscal, à redução de investimentos na área social.
Outro petista descontente com os rumos do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, João Alfredo (CE) afirmou que ele e seus colegas da frente não querem sair do PT, mas fazer uma “avaliação própria” sobre projetos em votação, baseando-se “na trajetória do partido”. Alfredo acredita que com o tempo o bloco passe a abrigar também outros parlamentares de esquerda, inclusive de outros partidos.
Entre os convidados do ato estavam o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, o cientista político Emir Sader, o jurista Fábio Konder Comparato, o economista Paulo Nogueira Batista Júnior e Plínio de Arruda Sampaio– um dos fundadores do partido e visto como guru dos socialistas petistas.
LULA SEM RÉDEAS
Cada um a seu modo, todos elencaram críticas ao governo que ajudaram a eleger. “O nosso companheiro Lula está montado no poder, mas não segura as rédeas. Nós, socialistas, temos de dar ao companheiro Lula as rédeas para comandar o país”, disse Sampaio, de 75 anos (e 50 de militância na esquerda), que foi ovacionado pelo público que lotava o auditório de um clube no centro da capital.
“A luta política hoje no Brasil é a do capital versus capital”, acrescentou ele, afirmando que é preciso que movimentos de massa participem mais da vida política do país.
Ao seu lado, Stédile também alfinetou o governo, ao dizer que a “reforma agrária está a passos lentos” e que “em termos de conquistas sociais”, o governo de Lula está “aquém do governo anterior”.
Outra estrela do encontro foi a prefeita de Fortaleza Luizianne Lins, que criticou a fragmentação da esquerda do PT com a criação de diversas correntes, grupos e tendências mais radicais no partido. “A gente briga muito entre nós”, disse ela, defendendo que o partido “reafirme” este ano seu caráter socialista durante o processo de eleição da nova presidência, como forma de levar o governo Lula mais para a esquerda e para bandeiras do socialismo.
“A pior coisa que pode acontecer é o povo brasileiro achar que depois desse governo não tem jeito mesmo. Que tudo é a mesma coisa.”
0 comentários