Fique por dentro

Para Dirceu só crescimento reduz dependência ao capital

maio 19, 2005 | Geral

O ministro da Casa Civil, José Dirceu, afirmou nesta sexta (13) à noite, na abertura do Seminário Nacional em comemoração aos 25 anos do PT, que só o crescimento – com base na indústria nacional e na distribuição de riquezas – é capaz de reduzir a dependência do Brasil ao capital financeiro. O encontro também debateu os impasses criados com a chegada do PT ao governo federal, a reconstrução do Estado brasileiro e a consolidação do processo de desenvolvimento iniciado nos últimos dois anos.

Além de Dirceu, participaram do debate o deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP) e o cientista político Juarez Guimarães. Eles discutiram durante duas horas, diante de um auditório lotado, as perspectivas do projeto nacional petista após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No início do seminário, o presidente nacional do PT, José Genoino, classificou o encontro de importante momento histórico, pois mostrava a capacidade de o partido debater suas questões com total transparência. “Essa vitalidade, esse rigor, essa defesa radical da democracia só existe no PT, que tem no seu DNA a pluralidade e o debate”, disse.

As discussões giraram em torno dos avanços sociais, políticos e econômicos promovidos pelo atual governo, em contraposição às dificuldades encontradas por Lula e sua equipe para resolver problemas herdados de administrações anteriores, entre eles as amarras do orçamento por conta da dívida e a manutenção das taxas de juros em patamares elevados.

Para o cientista político Juarez Guimarães, isso reflete um “antagonismo” e pode ser “fatal” ao governo Lula. Ele entende que a oposição neoliberal se fortaleceu após as eleições de 2004 e vem ganhando muito espaço. “Eles alcançaram um grau de presença pública e uma capacidade de articulação que levam à disputa de agenda com o governo”, afirmou, defendendo, por parte da esquerda, um processo de transição com atos e símbolos que superem o paradigma liberal. “E só o PT pode liderar esse processo. A ética na política é fundamental para nós”, disse.

Guimarães também criticou o excesso de divergências dentro do partido. “O governo não tem mais espaço para exaurir suas energias em conflitos internos. Faço aqui um apelo forte pela unidade dos petistas”, concluiu.

Origem

Na seqüência, o deputado João Paulo Cunha afirmou que o projeto nacional do PT, que já existia no seu nascimento, precisa ser atualizado, em razão das mudanças ocorridas nos últimos 25 anos, e que a definição da política econômica tem de partir dos interesses internos, não externos. “Precisamos considerar a situação do mundo, do capitalismo, da tecnologia e de como pegamos o país, endividado e desestruturado. Mas a política fiscal nem sempre precisa ser levada ao pé da letra”, ponderou.

Para João Paulo, é possível adotar outros instrumentos. “Hoje é mais importante cuidar da política do que da economia. Precisamos corrigir o comportamento político para mudar os parâmetros econômicos”, disse, ressaltando que, para ele, o governo Lula caminha nessa direção. “Temos de lembrar que muita coisa já vem sendo feita, como investimentos em infra-estrutura, na educação e outras ações que estão criando as bases de um desenvolvimento próprio”.

Realidade

O ministro José Dirceu lembrou que, para fazer todas as mudanças que o governo Lula deseja seria necessário um amplo apoio social, o que, na avaliação dele, ainda não existe. “O grande problema é a realidade, a vida, que costuma ser mais forte do que nossas teorias”.

Para Dirceu, o momento atual é uma síntese da História do Brasil. “Tivemos a modernização conservadora, até os anos 70, e depois a política do Estado mínimo do neoliberalismo. Além disso, o hiato da ditadura (1964-85) nos custou muito”, explicou, para destacar que coube ao PT a tarefa de reorganizar o Estado brasileiro, articular políticas industriais, criar programas sociais e interagir com a América do Sul. Tais ações, segundo o ministro, são fundamentais para um projeto nacional de desenvolvimento.

“Estamos financiando vários setores da indústria e reconstruindo o aparelho produtivo. Acabamos com as privatizações, o que não é pouco, desdolarizamos a economia e reorganizamos o setor elétrico. Só por isso, já fizemos muito, porque sem energia elétrica o crescimento não seria possível”.

Depois de elencar diversos avanços do governo, Dirceu perguntou: “Aonde é que a porca torce o rabo? É na economia. Aliás, era, porque estamos melhorando isso também. Agora, a questão do superávit e dos juros depende da correlação de forças. E não há correlação de forças, hoje, que permita mudanças abruptas. Nós somos um partido popular, uma força política social, não a expressão do poder econômico”, afirmou.

O ministro ressaltou, porém, que as várias ações do governo já mudaram de alguma maneira essa correlação. “Criamos condições para reduzir as pressões da dívida interna e o risco Brasil. A política fiscal é determinada pela herança que você recebe. E só é possível reverter isso reduzindo a dívida pública e fazendo o Brasil crescer”.

Quanto aos que vêem uma acomodação do governo em relação ao capital financeiro, Dirceu destacou: “É cedo demais para avaliar que houve rendição do governo ou do PT”. Mais tarde, concluiu: “Os sinais do que estamos fazendo são totalmente ao contrário do que falam (os críticos). Acho que falta maturidade política para entender isso. Mas aí já é filosofia…”.

admin
admin

0 comentários