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Denúncias e pesquisa sinalizam semana dura para o governo

jun 9, 2005 | Geral

Revistas Veja e Época publicam novas denúncias envolvendo o presidente nacional do PTB, deputado Roberto Jéferson. Pesquisa Datafolha diz que, se eleições fossem hoje, Lula teria que disputar o segundo turno com um candidato tucano. E articulação política segue com problemas.

A semana promete ser dura para o governo, com o surgimento de mais combustível para alimentar o debate em torno da criação da CPI dos Correios, que a oposição pretende estender para outros órgãos da administração pública. A revista Época faz uma nova denúncia contra o deputado federal Roberto Jéferson (PTB/RJ). Em matéria de capa, intitulada “O laranja de Roberto Jéferson”, a revista diz que o deputado é dono de duas rádios no Rio de Janeiro que estão no nome do sorveteiro Durval da Silva Monteiro. Ainda segundo Época, Monteiro é ex-motorista, ex-segurança e ex-funcionário do gabinete de Jéferson, e hoje é dono de uma sorveteria de beira da estrada em Cabo Frio, no litoral norte do Rio. Além disso, seria sócio de duas outras emissoras de rádio no interior do estado. A reportagem afirma que ele nunca recebeu um centavo dos lucros das emissoras e que seu padrão de vida está longe de ser o de um proprietário de uma rádio.

A revista Veja publica, por sua vez, uma gravação que teria sido realizada com o ex-presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), Lídio Duarte. O IRB é uma sociedade de economia mista controlada pela União. A voz que aparece na gravação diz que os indicados pelo PTB para assumir cargos em órgãos do governo federal têm de recolher uma mesada de R$ 400 mil para o caixa do partido. Segundo a Veja, na gravação, Duarte relatou pressões que teria sofrido do corretor de seguros Henrique Brandão em nome do presidente do PTB, o deputado Roberto Jéferson. Em depoimento à Polícia Federal, na quinta-feira, Lídio Duarte negou a existência de qualquer esquema envolvendo “mesadas” para o PTB.

Pesquisas preocupantes

Outra notícia incômoda para o governo Lula é a pesquisa do Instituto Datafolha, publicada na edição de domingo do jornal Folha de São Paulo. Segundo o levantamento, se as eleições presidenciais ocorressem hoje, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria que enfrentar um segundo turno com um candidato tucano: José Serra, Fernando Henrique Cardoso ou Geraldo Alckmin. É a primeira pesquisa que aponta essa tendência. Nas anteriores, ou Lula ganhava dos outros candidatos ainda no primeiro turno ou a possibilidade do segundo turno se resumia a um enfrentamento com Serra. O percentual de intenção de voto de Lula caiu de quatro a seis pontos, dependendo do cenário, em relação a dezembro de 2004. O quadro mais apertado aparece, segundo o Datafolha, em uma disputa com Serra. Lula teria 36% contra 26% do atual prefeito de São Paulo, com uma margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Neste cenário, Anthony Garotinho (PMDB) aparece em terceiro lugar, com 10%, seguido por César Maia (PFL), com 5%; Heloísa Helena (PSOL) com 3%; e Roberto Mangabeira Unger, com 1%. Outros 12% disseram que votariam em branco ou nulo e 7% afirmaram que ainda estão indecisos. O Datafolha entrevistou 2.532 pessoas, entre os dias 31 de maio e 1° de junho, em 151 municípios de todas as unidades da Federação. Essa é a segunda pesquisa da semana que fez soar o sinal de alerta no Palácio do Planalto. Na terça-feira, uma pesquisa encomendada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) apontou queda na avaliação positiva do governo (41,9% em abril, 39,8% em maio) e do desempenho pessoal do presidente Lula (60,1% em abril, 57,4% em maio). Desde a posse de Lula, a avaliação positiva do governo já caiu quase 17 pontos percentuais.

Tentativa de construir uma agenda positiva

É neste cenário que o presidente Lula tentará iniciar a semana caminhando na direção de uma “agenda positiva” para o governo, expressão repetida por diversas lideranças do Executivo e do PT nos últimos dias. A habitação deve ser um dos carros-chefe dessa tentativa. Lula passou o sábado em seu apartamento em São Bernardo do Campo. Pela manhã, participou em Diadema, no ABC paulista, da entrega de cartões do programa Bolsa Família, de certificados de propriedade de terrenos por meio do Programa de Subsídio à Habitação de Interesse Social com Financiamento (PSH) e de apartamentos construídos pelo Programa de Arrendamento Residencial (PAR), da Caixa Econômica Federal. Nesta segunda, Lula participa, pela manhã, em São Paulo, da cerimônia de lançamento do Sistema Financeiro Inclusivo Caixa “Viver em Comum-Unidade”, no Sesc de Interlagos.

Em Diadema, Lula fez uma defesa dos avanços sociais já atingidos em seu governo, fazendo uma comparação com números do governo Fernando Henrique Cardoso. Afirmou que, em dois anos, foram investidos 12,8 bilhões de reais em programas habitacionais voltados para as camadas mais pobres da população, beneficiando cerca de 885 mil famílias. Destacou ainda os 7 bilhões de reais investidos no programa Bolsa Família e outros 3 bilhões decorrentes do Estatuto do Idoso. Lula também falou sobre a geração de empregos: “No governo anterior, foram criados em média, por mês, oito mil empregos. Este ano, nos últimos 12 meses, em vez de oito, nós criamos 127 mil empregos por mês. Nos dois anos, criamos, em média, 91 mil empregos por mês”. No entanto, esses avanços estão sendo obscurecidos pela crise política que afeta o governo, agravada pelas recentes denúncias de corrupção nos Correios.

Para tentar reverter esse quadro, Lula deve promover uma reunião com lideranças dos partidos aliados para ouvir suas reclamações e discutir a crise da articulação política do governo no Congresso Nacional. Inicialmente, esse encontro, previsto para ocorrer na residência do senador Aloizio Mercadante (PT-SP), deveria reunir apenas a bancada do PT no Senado. Os partidos aliados reclamaram e a lista de convidados foi ampliada. Na noite de sexta, Lula jantou com um grupo de 25 deputados petistas que integram a coordenação da bancada na Câmara. E reclamou do comportamento do partido que estaria fazendo o jogo da oposição no caso da tentativa de instalação da CPI dos Correios. Os deputados que fazem parte da coordenação da bancada e que assinaram o pedido da CPI não foram convidados para o encontro. Durante a semana, um deles, o deputado João Alfredo (PT-CE), pediu afastamento da coordenação em função das reações das lideranças do partido contra os parlamentares petistas que apoiaram o pedido de instalação da CPI. O clima dentro da bancada é tenso e a semana pode trazer novos atritos com potencial de produzir novas dissidências.

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