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Um ano depois – Lula faz defesa de Palocci e endossa “política do possível”

dez 25, 2003 | Geral

Em balanço, presidente diz que decisões amargas são “do governo”


Ao fazer o balanço de um ano do seu governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma defesa veemente da política econômica e do seu condutor, o ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda). Após elogiá-lo, Lula disse que a política de juros e aperto fiscal é de todo o governo. “Não tem política do Palocci, tem política de governo. A política econômica é a que nós, do governo, entendemos que era possível fazer”, disse.

Lula reconheceu que o ministro da Fazenda é o principal alvo de pressões e que “não foram poucos os momentos em que os companheiros ficavam perguntando se o companheiro Palocci não estava errando”. Segundo ele, o ministro teve a “maestria” de não “ceder a nenhuma pressão que colocasse em risco a estratégia de construir um país com base mais sólida”.

Não houve menção direta aos efeitos colaterais da política econômica, como a perspectiva de crescimento zero neste ano, o aumento do desemprego de 10,5% em janeiro para 12,9% em outubro e a queda da renda dos trabalhadores de 11,6% nos primeiros dez meses do ano -dados do IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Às vésperas de uma reforma ministerial, Lula elogiou apenas outros 4 dos seus 35 ministros: José Dirceu (Casa Civil), Celso Amorim (Relações Exteriores), Roberto Rodrigues (Agricultura) e Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento). Os três últimos, que não pertencem ao PT, foram chamados de “mascates”.

O presidente defendeu o tamanho de sua equipe: “Tem muita gente que fala que tem muito ministério. Olha o pouquinho de ministério que tem para um país deste tamanho”, disse.

O ato reuniu cerca de 500 convidados no salão nobre do Palácio do Planalto, entre congressistas, prefeitos, sindicalistas e membros dos conselhos de Desenvolvimento Econômico e Social e Segurança Alimentar. Em uma hora e meia de discurso, Lula fez uma avaliação positiva de todas as áreas do governo, citando programas de quase todas as pastas.

Deixou de mencionar, contudo, a política de ciência e tecnologia, a cargo de Roberto Amaral, cotado para deixar o cargo na reforma.

Ao elogiar Dirceu pela articulação política para aprovar as reformas, Lula chegou a dizer que não conhecia “todos os acordos que ele faz no Congresso”. Disse que foram plantadas as sementes e que a colheita começará em 2004.
Repetiu que “o tempo da incerteza passou” e que “o país está pronto para crescer”. Citou a herança do governo anterior, sem, porém, fazer críticas diretas a Fernando Henrique Cardoso.

ELOGIO AO CONGRESSO -“Quero cumprimentar os deputados e senadores pelo trabalho excepcional que fizeram. Um leigo pode não se dar conta, mas, o que o Congresso fez em sete meses para votar a reforma da Previdência Social e a reforma tributária, penso que em poucos momentos na história da instituição foi feito.”

RESULTADOS – “Recuperamos a estabilidade da economia para o país crescer, construímos a base política e parlamentar para aprovar reformas justas e necessárias, ampliamos o diálogo com a sociedade para governar com mais democracia. Criamos um modelo mais justo e abrangente para responder às demandas sociais. Fizemos do Brasil um interlocutor respeitado na diplomacia e no comércio internacional.”

HERANÇA – “O Brasil estava em profunda crise [no final de 2002]. Uma das mais graves da história republicana. Os prognósticos eram os piores possíveis. No final do ano, o país havia perdido a estabilidade econômica, uma das conquistas mais importantes de nosso povo. Muitos acreditavam, e com fortes motivos, que o Brasil não resistiria à crise.

A principal razão do desequilíbrio e da falta de confiança no país era a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto. Nos oito anos da administração passada, ela mais que duplicou, passou de 30% para 63% do PIB.”

DECISÕES AMARGAS – “O novo governo teve que exercer rígido controle das contas públicas. Tomou a drástica decisão de elevar o superávit primário para 4,25% do PIB. E foi uma medida de extremo sacrifício, que obrigou a um corte de R$ 14 bilhões no Orçamento da União. Também foi preciso exercer rigorosa política monetária, com taxas de juros restritivas à atividade econômica. As decisões amargas foram tomadas de forma consciente e soberana, com os olhos voltados para o futuro.”

DIÁLOGO – “Sem abrir mão de convicções e princípios, o governo optou pelo entendimento, em vez de impor ao Congresso a lógica da maioria contra a minoria. É uma diferença fundamental nas práticas políticas do novo Brasil.”

FOME ZERO – “O Fome Zero superou as dificuldades iniciais, consolidou-se e já está implantado em 1.227 municípios, beneficiando cerca de 5 milhões de pessoas, especialmente no Norte e Nordeste. Combinando medidas emergenciais e estruturais, os resultados têm sido imediatos.”

BOLSA-FAMÍLIA – “Quando foi lançado, no dia 30 de outubro, a meta do Bolsa-Família era alcançar 3,6 milhões de famílias até o final deste ano. Quero dizer a vocês, com muita satisfação, que daqui a quatro dias, no dia 22, vamos ultrapassar a meta estabelecida: atingiremos 3.615.596 famílias.”

MINISTROS MASCATES – “A nossa política externa, sob a coordenação do Itamaraty, tem uma participação tripartite excepcional. O Ministério da Agricultura e o do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, junto com o Celso Amorim, formam um tripé de negociadores -o mascate político, o mascate agrícola e o mascate industrial- que não tenho medo de soltar em nenhuma arena do mundo, para enfrentar qualquer adversário, porque, certamente, sairão vencedores.”

PALOCCI – “Penso que o companheiro Palocci, possivelmente a figura mais citada por todos aqueles que precisam de dinheiro do governo, teve a maestria, a competência de não permitir que, em nenhum momento desses 11 meses e meio de governo, ele pudesse ceder a qualquer pressão que colocasse em risco a estratégia de construir um país com base mais sólida, economia mais segura e sustentável e com a certeza de que nós só poderemos dar um mundo melhor à nossa família de 176 milhões de brasileiros se a gente tiver coragem de fazer o que tem de ser feito e, muitas vezes, dizer não é mais difícil que dizer sim.”

POLÍTICA DE GOVERNO -“Não foram poucos os momentos em que companheiros, mesmo os do PT no Congresso, ficavam se perguntando se o companheiro Palocci não estava errando. Quero aqui, nestes 11 meses e meio de governo, dizer na presença de todos vocês: não tem política do Palocci, não tem política do Lula, não tem política do José Dirceu. Tem política de governo. Portanto, a política econômica não é a do Palocci, não é a do Meirelles [Henrique Meirelles, presidente do Banco Central]. A política econômica é a que nós, do governo, entendemos que era possível fazer.

Se na vida pessoal é assim, na vida e no trato da coisa pública também tem que ser assim. Só poderemos prometer aquilo que pudermos cumprir, gastar aquilo que pudermos arrecadar e fazer dívidas de acordo com a possibilidade de pagamento.”

DIRCEU – “Não sei se teríamos conseguido fazer o que fizemos na nossa relação com o Congresso se a gente não tivesse a coordenação de um companheiro como o José Dirceu. Não sei todos os acordos que ele faz no Congresso, o fato concreto é que em todos os momentos difíceis o José Dirceu, o presidente [do Senado, José] Sarney, os nossos líderes, mais o João Paulo [presidente da Câmara], depois de tanta “choradeira”, me comunicam: “Olhe, foi feito o acordo, vai votar amanhã e vai passar”. E as coisas aconteceram como foi prognosticado.”

ALICERCE – “Nós temos consciência de que as mudanças de que o Brasil precisa não serão obra de um mandato, de dois mandatos ou de uma década. Quem sabe, seja obra de uma ou mais gerações. O que é importante é que o alicerce feito para essa mudança seja muito sólido, para que a casa não caia com o primeiro vento forte ou primeira chuva.”

Leia a íntegra do discurso de Lula na
http://www.folha.com.br/033511

(Wilson Silveira)

Publicado em 19.12.2003

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