Depois de dois meses de trancos e barrancos, a preparação da campanha do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin à Presidência da República começou a se organizar nesta terça-feira (30), quando representantes do PSDB e do PFL fizeram a primeira reunião do conselho político da coligação. O objetivo era passar a limpo os conflitos internos e transmitir o recado de que, a partir de agora, quem quiser colaborar deve criticar para dentro e não publicamente, por intermédio da imprensa.
A ordem é evitar notícias negativas, como as que predominaram nas últimas semanas. Com tucanos atacando tucanos e pefelistas e pefelistas atacando pefelistas e tucanos. Ou seja, um desentendimento completo na coligação. Cientes de que as forças devem ser canalizadas para enfrentar o adversário comum, eles consideraram as rusgas passadas assunto encerrado.
Inclusive a grave acusação feita pelo presidente da Comissão de Finanças e Orçamento da Assembléia Legislativa de São Paulo, José Caldini Crespo, do PFL. Em entrevista à CARTA MAIOR (leia: PFL denuncia: “Houve corrupção no governo Alckmin), ele afirmou que houve corrupção no governo Alckmin, pois nada menos do que 973 contratos firmados desde o início da administração tucana teriam irregularidades como superfaturamento, licitações dirigidas e reajustes ilegais.
Questionado sobre o assunto logo após a reunião do conselho político de sua campanha, o ex-governador considerou o caso sem importância. “Se tem alguma coisa errada, deve apurar. Não existe nada disso”, desconversou. É justamente isso que o deputado do PFL quer, mas a bancada tucana na Assembléia, ao contrário do que o partido prega no Congresso Nacional, não deixa que seja aberta uma investigação.
Para os tucanos, o ataque de Crespo tem um componente regional. Ele disputa o eleitorado da região de Sorocaba, no interior de São Paulo, com o ex-prefeito da cidade Renato Amary, do PSDB. Os dois são adversários políticos e já se enfrentaram em duas eleições municipais vencidas pelo tucano.
Mesmo com o armistício interno, problemas locais desse tipo continuam atrapalhando a harmonia da coligação PSDB-PFL. Alckmin deveria participar de um seminário sobre educação promovido pelo Instituto Teotônio Vilela, do PSDB, nesta quinta-feira (1º), em Goiânia. O encontro foi providencialmente adiado para 20 de junho. O pré-candidato tucano havia sido informado de que não deveria aparecer no estado antes do dia 10 de junho, pois os dois partidos andam se bicando no estado.
O mesmo acontece no Piauí, terra de um dos coordenadores da campanha, o senador Heráclito Fortes, do PFL. Lá, o ex-prefeito de Terezina Firmino Soares da Silveira Filho, do PSDB, quer escolher o candidato ao senado do PFL que fará parte da coligação local. Fortes não aceita a imposição. Também existem conflitos no Maranhão, onde os tucanos locais são inimigos do clã Sarney, no Distrito Federal, no Rio de Janeiro, na Bahia, no Amazonas e em Sergipe, pelo menos.
Alckmin assegura que a maior parte desses problemas já está resolvida, mas admite que algumas divergências regionais são insolúveis. “Tudo que pudermos fazer para reproduzir a aliança nacional vamos fazer. Mas, cada estado tem a sua singularidade”, ponderou. Singularidades que o presidente do PSDB, Tasso Jereissati, traduz como interesses difíceis de serem compatibilizados nos 27 estados da Federação.
E que acabam resultando em fogo amigo, como o do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, que enxerga na candidatura do tucano Eduardo Paes ao governo do Rio um empecilho ao surgimento de uma terceira via entre os senadores Sergio Cabral (PMDB) e Marcelo Crivela (PRB), seus adversários políticos no estado. O prefeito do PFL tem feito severas críticas ao amadorismo da campanha de Alckmin no boletim diário que distribui pela internet.
Tasso, que não reuniu a comissão executiva do PSDB uma única vez desde que foi eleito para comandar o partido, vestiu a carapuça e distribuiu desaforo entre o pai e o filho Rodrigo Maia, líder do PFL na Câmara dos Deputados. Após a reunião do conselho político, da qual participou Rodrigo Maia, os dois deram o assunto por encerrado. E Alckmin elaborou uma frase de efeito para mostrar que sabe conviver com as críticas: “Não tenho nenhum problema com críticas. Aprendi com meu pai uma frase de Santo Agostinho que diz: Prefiro os que me criticam porque me corrigem aos que me bajulam e me corrompem”.
Ao menos o rumo da campanha ele tem procurado corrigir. Depois de perceber que perdeu tempo dando prioridade às visitas ao Nordeste antes de consolidar o eleitorado das Regiões Sul e Sudeste, o candidato tucano se rendeu à opinião do líder do PSDB na Câmara, Jutahy Junior (BA), que defendia a inversão das prioridades e a aproximação com setores que estão insatisfeitos com o governo Lula, como o dos produtores rurais. A partir de agora a agenda do tucano deverá dar prioridade às cidades com emissoras locais de TV, que poderão ampliar seu espaço no noticiário.
Alckmin está realmente precisando bater seu bumbo em outras freguesias. Os jornalistas da mídia nacional já estão ficando saturados com as mesmas bordoadas no governo Lula. “Não podemos continuar nessa mesmice. Um governo autoritário, que utiliza a máquina pública de maneira jamais vista. Um governo que mal termina pode ser um pesadelo do próximo mandato. O único projeto do PT é o projeto de poder” etc, repete o candidato tucano, mesmo quando não é provocado.
O ex-governador de São Paulo continua um saco fechado, que ninguém sabe o que tem dentro. Com um jeito seco, que inibe gestos de simpatia de quem está ao seu redor. Um desprezo pelos salamaleques da política e uma imensa confiança no desempenho na TV como trunfo na campanha. Sua aparição nos programas regionais do PSDB nesta segunda-feira (29) pode ser considerada um teste da tese que ele defende, segundo a qual as eleições são definidas nos programas do horário eleitoral gratuito.
A próxima rodada de pesquisas informais dos partidos será um termômetro fundamental para a consolidação dos palanques estaduais. O tucano precisa reagir na popularidade junto ao eleitorado para ganhar a confiança dos correligionários e líderes regionais indecisos. Se não melhorar, brigas internas como a do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) com o governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), que se insultaram com os adjetivos “cara de burro” e “senhor de engenho”, serão só um aperitivo.
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