Em um processo eleitoral marcado por constantes reviravoltas e denúncias de fraudes, os resultados preliminares da eleição presidencial de domingo (15) apontam que os equatorianos optaram pelos candidatos extremistas no primeiro turno. O discurso do mega-empresário Álvaro Noboa (PRIAN), a favor de um neoliberalismo radical e totalmente contra os regimes cubano e venezuelano, alavancou o candidato ao primeiro lugar na apuração prévia, com 26,77% dos votos válidos (de um total de 63% dos votos apurados até o final da noite). Na outra ponta, o esquerdista Rafael Correa (Alianza Pais) chega ao segundo turno, com 22,45% até o momento, com propostas como a retirada da base norte-americana de Manta (norte do Equador), a nacionalização do petróleo e a convocação da Assembléia Constituinte. O segundo turno será no dia 26 de novembro.
O resultado já é interpretado como uma reação à crise da democracia representativa equatoriana provocada pela queda dos últimos três presidentes eleitos pelo voto direto e pela perda de confiança nos partidos e políticos tradicionais. “O resultado da eleição mostra a queda dos grandes partidos que estiveram no poder nas últimas duas décadas para dar lugar a pequenos grupos e partidos articulados em torno a novas lideranças”, explica o analista político e professor da Flacso Equador, Simon Pachano.
O analista aponta que nenhum dos candidatos presidenciais dos maiores partidos do Equador foi para o segundo turno. Leon Roldós, da tradicional agrupação social-democrata Red-Id, é o principal derrotado da eleição ao atingir 15,83%. Outro grande partido que ficou de fora do segundo turno, foi o PSC (social cristão), com a candidata Cintia Viteri, que alcança até o momento 10,20% dos votos.
Outro indicador da crise política foi a ascensão da proposta da Assembléia Constituinte, com a finalidade principal de modificar o sistema político. Dos treze candidatos a presidência, 5 deles defenderam a nova Constituição, entre eles o candidato Luis Macas, da organização política indígena Pachakutik. A proposta da constituinte é originária da década de 90 dos movimentos indígenas. Porém, o próprio Macas não conseguiu avançar com esta proposta e com sua candidatura e até o momento registra uma votação de 2,09%.
O representante indígena também sentiu a reação dos eleitores equatorianos contra a política tradicional e as alianças do passado ao registrar baixa votação, devido em grande parte, à participação de Pachakutik no governo de Lucio Gutierrez (deposto pelo Congresso por corrupção no início do ano passado). “Reconhecemos que foi um erro ter apoiado o presidente anterior e, por isso, decidimos não apoiar nenhuma das alternativas fora do movimento indígena”, explica Ricardo Ulcuango, deputado e coordenador da campanha de Macas em Quito. O dirigente explica que, independente do resultado atual, o lançamento de uma candidatura própria foi importante para avançar na unificação do movimento político em torno às organizações indígenas.
Por outro lado, Rafael Correa foi o candidato que mais cresceu ao defender radicalmente a proposta da Assembléia Constituinte com um tom contundente contra a “partidocracia”. O ato mais simbólico foi a decisão de não lançar candidatos a deputados nacionais de sua frente eleitoral. “Acredito no Correa porque ele defende a Constituinte e pretende acabar com os altos salários dos deputados corruptos”, diz Jose Mendez, de 19 anos, eleitor do pequeno município de Cayambe, que fica nos arredores de Quito. O partidário de Correa, que trabalhou na eleição como o único fiscal de Alianza Pais em uma escola rural, sintetiza o discurso de seu candidato que conseguiu grande ressonância entre os jovens.
Denúncias de fraudes
Para abalar ainda mais o frágil sistema político equatoriano, o final da campanha presidencial e o início da contagem dos votos foram marcados por denúncias de fraudes, provenientes da Alianza Pais, de Rafael Correa, e do candidato derrotado Leon Roldós. A ascensão meteórica de Alvaro Noboa levantou uma série de suspeitas de que o processo eleitoral foi fraudado para beneficiá-lo nos últimos dias. “Perdemos votos de forma incrível. Nossas pesquisas de boca de urna apontaram diferenças de até 10% em alguns lugares”, afirmou Rafael Correa ao conhecer os primeiros resultados da apuração.
O dirigente de Pachakutik, Ricardo Ulcuango também denunciava as fraudes que estavam se configurando nas vésperas da eleição. “Estão substituindo na última hora os funcionários do Tribunal Eleitoral em diversos locais de votação, sobretudo nos lugares onde devemos ter maior votação”, disse.
Outra denúncia na reta final da campanha referiu-se ao excesso nos gastos de campanha de Alvaro Noboa. “O tribunal eleitoral e a missão de observadores internacionais não fizeram nada para obrigar a abertura das contas de campanha de Noboa que claramente excedeu os gastos permitidos pela legislação”, reclama Eduardo Delgado, da ONG Acuerdo Nacional Constituyente. No dia anterior à votação, a reunião dos observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) foi marcada pelas críticas à atuação de seu coordenador, Rafael Bielsa. A Alianza Pais pedia sua renúncia por ter atuado de forma parcial e por expressar a seus assessores incômodo com a vitória de Correa.
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