Brasília – A comissão de Relações Exteriores da
Câmara dos Deputados aprovou, no final do ano passado, substitutivo do
projeto que propõe a realização de uma consulta popular para decidir se o
Brasil deve entrar na Área de Livre Comércio das Américas [Alca]. O projeto
de Decreto Legislativo [852/01] inicial é do deputado Henrique Fontana
[PT-RS] e deverá seguir para a Comissão de Constituição e Justiça [CCJ] e,
depois, para votação em plenário. A proposta determina que o Congresso terá
120 dias para convocar a consulta. O prazo seria contado a partir da
entrega, pelo presidente da República, do texto do acordo a ser assinado na
Alca. A decisão do Legislativo ficaria vinculada ao resultado da consulta.
O projeto define a consulta popular como um plebiscito, mas
essa versão é contestada. ‘Na verdade, trata-se de um referendo porque não
interfere no processo de negociação da Alca’, afirma Dermerson Dias, diretor
Fenajufe, que compõe a Campanha Nacional contra a Alca. Os críticos do
projeto dizem que o texto aprovado não reflete a lógica negociadora de
acordos comerciais. Para eles, uma consulta popular realizada depois da
negociação prejudicaria o alcance do debate sobre os impactos do acordo na
vida da população. “O problema é que no processo de negociação você assume
uma série de compromissos e fica difícil reverter isso depois. Vários
agentes sociais e políticos passam a ficar comprometidos com o sucesso da
negociação”, analisa Dias.
Segundo ele, um plebiscito sobre a Alca, convocado em outubro
como defende a campanha, poderia democratizar o debate sobre o assunto. ‘A
sociedade precisa tomar conhecimento do que é negociado. Na momento, ninguém
acompanha nada e o governo tem divulgado todo o conteúdo dessas negociações
‘, avalia.
Participação
Já para o deputado Henrique Fontana [PT-SP], o projeto
aprovado facilita o trabalho da diplomacia brasileira. ‘Em uma negociação
assimétrica como a da Alca, é um argumento a mais para barrar uma tentativa
de imposição de regra desigual’, considera Fontana. O parlamentar é
contrário à saída do Brasil das negociações do acordo. ‘A proposta de Alca
do governo estadunidense não nos interessa, mas o Brasil deve participar
desse jogo. Se nos afastássemos, deixaríamos o campo aberto’, opina.
Para Fontana, o Brasil deve construir alianças contra
determinadas políticas que os Estados Unidos querem impor à humanidade. Um
exemplo disso seria o resultado da reunião ministerial de Miami, em novembro
do ano passado. ‘Garantimos uma outra inflexão à Alca e conseguimos colocar
na mesa que as negociações têm de ser em duas mãos’, afirma o parlamentar.
Perguntado das razões pelas quais os chamados temas sensíveis ao governo
brasileiro, como investimentos e compras governamentais, continuam na
negociação da Alca mínima, Fontana respondeu: ‘Minha convicção é que o
governo Lula não assinará acordo que atente contra a soberania nacional’.
Publicado em 12.01.2004
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