Fique por dentro

Sem Terra comemoram 20 anos

jan 29, 2004 | Geral

Sem Terra Comemoram 20 anos
 
  Luta, dignidade e conquista marcam a história de resistência do maior
  movimento social da América Latina 
  O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra está em festa. São 20 anos
de luta pela Reforma Agrária e pela busca de igualdade e justiça social.
  Trabalhadores rurais de 23 estados brasileiros estão reunidos em São
Miguel do Iguaçu, no Paraná por ocasião do XII Encontro Nacional do MST, que teve
  início no dia 19 e segue até 24. O encontro está sendo realizado no
  assentamento Antônio Tavares, ex-fazenda do extinto Banco Bamerindus. Este
  período marca o aniversário do Movimento que teve sua fundação em
Cascavel, no Paraná, em 1984. Cerca de 1200 pessoas, entre militantes e
colaboradores do Movimento, vão avaliar a luta pela reforma agrária e os desafios que se
  apresentam na atual conjuntura.
 
  Na cerimônia de abertura uma celebração relembrou a dura história da luta
  pela terra de milhares de sem terra no decorrer dos 20 anos. Lideranças
  históricas do Movimento e representantes de entidades nacionais e
  internacionais reafirmaram os princípios e objetivos da luta do povo, além
  de homenagear os lutadores e organizações dos quais o MST é fruto.
 
  O evento contou com a presença de personalidades como Anita Freire, viúva
do pedagogo Paulo Freire, um dos maiores colaboradores e defensores na
  construção do MST; a lendária Elizabete Teixeira, dirigente das Ligas
  Camponesas, hoje com 79 anos e esposa do líder assassinado João Pedro
  Teixeira, representou as lutas que antecederam o Movimento; bispo D.
Orlando Dotti, da CPT; o belga Dirk Habib, representando os comitês de apoio
  internacional; Luiz Marinho, da CUT; Maurício de Andrade, da Ação
Cidadania; Luiza Kurrín, da Via Campesina Internacional; representante da Pastoral
  Luterana e UNE; Nalú Faria,  da Marcha das Mulheres e João Pedro Stédile,
da Coordenação Nacional do MST. Na ocasião todos reforçaram a solidariedade e
o apoio à  luta dos trabalhadores rurais.
 
  Durante o discurso de abertura, João Pedro Stédile, enfatizou que só se
faz Reforma Agrária por meio da luta coletiva e de massa, "a única coisa que
  pode mudar a sociedade é povo organizado.
 
  Ele mostro que, na trajetória do MST no início os trabalhadores achavam
que bastava conquistar a terra. Depois perceberam que existem outras cercas no
  caminho. "Não basta derrubar as cercas e conquistar a terra. É preciso
  derrubar as da ignorância, do capital e, de dois anos para cá, descobrimos
  que é preciso também derrubar mais uma cerca: a da tecnologia das
  multinacionais que nos impõe as sementes transgênicas. Se perdemos o
  patrimônio das sementes, de nada adiantará conquistarmos a terra e o
  capital. Aqui no Brasil, o camponês tem que lutar contra os transgênicos,
  nem que tenhamos que ir à guerra."
 
  Para finalizar, Stédile reforçou que o Encontro deve servir para
compreender o momento político atual e afirmou que MST está diante de desafios muito
  maiores, sendo preciso ajustar cada vez mais, as lutas do Movimento com a
  agenda de outros setores da sociedade.
 
  A história do assentamento onde está sendo realizado o Encontro acentua
mais a simbologia da evolução do Movimento. A área de 1098 hectares era uma
  antiga propriedade que pertencia ao dono do Banco Bamerindus e que foi
  ocupada pelo MST para evitar que a fazenda entrasse com preço
  sobrevalorizado como parte do pagamento da dívida do banco à União, quando
  este faliu em 1997.
 
  A desapropriação só veio definitivamente em 2002, quando o Banco Central
  transferiu a fazenda para o Incra, disponibilizando a terra para a Reforma
  Agrária. Idelmar Gonçalves da Silva, morador do Assentamento, comemora a
  desapropriação da fazenda. "O assentamento é uma conquista e uma
referência para quem nos apoiou, ainda mais depois de oito anos de governo Jaime
  Lerner, quando os sem terra eram liquidados".
 
  Para João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do MST, o retorno à
  região sudoeste do Paraná, tem uma carga simbólica muito forte. "Retornar
a esse local após 20 anos simboliza conquistas da luta pela terra. Para se
ter uma idéia, hoje, nos nossos quase cinco mil assentamentos nenhuma criança
  passa fome. Poder completar 20 anos aqui nos anima para a lutar por mais
  100", comemora Rodrigues.
 
  História
 
  Em 1984 um grupo de 80 representantes de organizações camponesas de 13
  estados brasileiros se reuniram em uma igreja próxima à cidade paranaense
de Cascavel entre os dias 20 e 24 de janeiro. Nessa reunião foi decidida a
  criação de um movimento nacional que reunisse os camponeses que desde o
fim dos anos 70 vinham se organizando para reivindicar o acesso à terra que
lhes havia sido tirada pelo processo de mecanização que vinha transformando a
  agricultura brasileira ao longo da última década. Esses camponeses, que já
  vinham sendo chamados de "sem terra" pela imprensa decidiram incorporar a
  expressão ao nome do movimento e assim fundaram o MST. Hoje, depois de 20
  anos o Movimento conta com cerca de 350 mil famílias assentadas e,
  aproximadamente 150 mil vivem em acampamentos. Considerando que a média da
  família brasileira é de quatro pessoas, os militantes do MST chegam quase
  dois milhões de pessoas.
 
  Geração de trabalho e renda com a Reforma Agrária
 
  "Os números mostram que a reforma agrária é uma solução para o desemprego
no Brasil", afirma   o professor da USP Ariovaldo Umbelino e doutor em
  Geografia . Para ele "o cumprimento da meta estabelecida pelo presidente
  Lula no segundo Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA) de assentar 500
mil famílias até o final de 2006 poderá gerar 2,5 milhões de empregos no
campo."
 
  A relação do custo entre a geração de emprego na indústria moderna e na
  Reforma Agrária é de um por 30. " De acordo com dados do IBGE o custo para
  se gerar um emprego numa indústria automotiva é de 50 mil dólares e o
custo para a geração de um posto de trabalho no campo é de 1500 dólares. Além
  disso, ainda segundo o IBGE, a  Reforma Agrária elevaria a renda do
  trabalhador rural que hoje vive com menos de um salário mínimo para três
  salários mínimos.
 
  Além dessas vantagens, o professor Umbelino lembra ainda que a pequena
  propriedade (até 200 ha) é responsável por mais de 70% dos suínos, aves,
  leite, ovos, cacau, banana, feijão, mandioca de toda a produção nacional.
  "As pequenas propriedades respondem por 35% da produção nacional mesmo da
  soja - que é o primeiro produto da pauta de exportação no Brasil."
Enquanto isso, dados do IBGE apontam a improdutividade das grandes propriedades
(mais de 2 mil ha). O latifúndio produz apenas 22% da carne bovina, 9% dos
ovinos, 2%dos suínos, 1% das aves, 15% do algodão, 33% da cana-de-açúcar, 22% da
  soja, 2% do café, 11%do cacau, 5%do feijão e 1% da mandioca. Umbelino
  ressalta a importância da renda gerada nas pequenas propriedades. "Do
total da renda gerada por toda a agropecuária brasileira, 56% é gerada na
pequena propriedade, 30% na média e apenas 14% na grande."
 
  No MST existem mais de 500 associações de produção, comercialização e
  serviços; 49 Cooperativas de Produção Agropecuária (CPA), com 2299
famílias associadas; 32 Cooperativas de Prestação de Serviços com 11174 sócios
  diretos; duas Cooperativas Regionais de Comercialização e três
Cooperativas de Crédito com 6521 associados.
 
  São 96 pequenas e médias agroindústrias que processam frutas, hortaliças,
  leite e derivados, grãos, café, carnes e doces, além de diversos
  artesanatos. Tais empreendimentos econômicos do MST geram emprego, renda e
  impostos beneficiando indiretamente cerca de 700 pequenos municípios do
  interior do Brasil.
 
  Educação
 
  Aliada à produção está a educação: cerca de 160 mil crianças estudam no
  Ensino Fundamental nas 1800 escolas públicas dos acampamentos e
  assentamentos. São cerca de 5 mil educadoras/es pagos pelos municípios ou
  estados que desenvolvem uma pedagogia específica para as escolas do campo.
O setor de educação atua ainda na educação infantil (de 0 a 6 anos),
contando hoje com aproximadamente 500 educadores/as. O MST desenvolve um programa
de alfabetização de aproximadamente 30 mil jovens e adultos nos assentamentos
e acampamentos. Para desenvolver todo esse trabalho o MST conta com o apoio
do Pronera (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária), do INCRA/MDA e
  do Programa Brasil Alfabetizado, do MEC. Além desses, o Movimento é
apoiado pela Unesco, pelo Unicef e por mais de 50 universidades.
 
  Atualmente existem 1500 estudantes do MST em cursos de ensino médio e
  superior. Há também a formação de técnicos em administração de
  assentamentos, cooperativas e em magistério para  colaborar com o trabalho
  desenvolvido nos assentamentos através do Instituto de Educação Josué de
  Castro, e Veranópolis (RS). 750 militantes do MST estudam em cursos
  universitários. Desses 58 cursam medicina em Cuba.
admin
admin

0 comentários