O controle sobre as reservas globais de petróleo, biodiversidade e água está no cerne das ações militares dos EUA, afirmam Gilberto Achcar e Ana Esther Ceceña durante palestras no Encontro Internacional pela Paz e Contra a Guerra.
Verena Glass
Porto Alegre – Para entender melhor a lógica do projeto de construção de uma hegemonia global norte-americana, baseada na consolidação do domínio militar e econômico dos EUA sobre o resto do mundo, é preciso analisar a relação entre o governo norte-americano e o grande capital na história recente do país. Ao participar de uma discussão sobre “A Nova Hegemonia Imperial”, em Porto Alegre, o economista libanês Gilbert Achcar, professor da Universidade de Paris VIII, disse que o governo norte-americano, grande financiador de seus aliados políticos do setor privado até início dos anos 80, nas últimas décadas se viu mergulhado cada vez mais em uma crise econômica que acabou gerando uma inversão desta relação. De financiador a financiado, foi substituindo paulatinamente as políticas de desarmamento e de consolidação da seguridade e do bem-estar social mundiais, propostas pelo presidente Franklin Roosewelt ao final da Segunda Guerra Mundial, por uma política de “seguridade militar” capaz não só de combater os comunistas durante a Guerra Fria como garantir a segurança e a expansão do capital americano por meio da imposição do modelo neoliberal à economia mundial e da consolidação do país enquanto superpotência militar.
A necessidade de garantir o acesso aos recursos estratégicos, principalmente o petróleo, maior fonte de energia da indústria dos EUA, foi um dos principais alicerces do projeto de domínio norte-americano sobre os reservatórios mundiais, iniciado em 1991 com a Guerra do Golfo e consolidado agora com a invasão do Afeganistão e do Iraque. Mas não é apenas o petróleo que está na mira dos EUA, afirma Ana Esther Ceceña, cientista política da Universidade Autônoma do México (UNAM). A expansão do poderio militar norte-americano, apoiado na instalação de suas bases militares no mundo todo, tem visado, além dos reservatórios petrolíferos na Ásia e Oriente Médio, áreas ricas em minérios essenciais para a indústria, biodiversidade e água na África e América Centrais e na Amazônia. “O aparato da inteligência americana hoje não se restringe à esfera meramente política, mas cada vez mais mapeia o mundo conforme suas riquezas naturais. Se analisarmos as localizações da maior concentração de bases militares, isso fica claro. Esse aparato todo é posteriormente adaptado – ou não – e repassado para a iniciativa privada. Isso justifica, por exemplo, o astronômico orçamento militar americano. O retorno à iniciativa privada é garantido”.
Segundo Ceceña, a interconexão das ações militares norte-americanas é bastante visível na América Latina, onde as ofensivas como o apoio ao golpe contra o presidente Hugo Chávez na Venezuela, o Plano Colômbia e a disputa pela Base de Alcântara, no Brasil, além do projeto de implantação do Plano Puebla-Panamá, na América Central, correm paralelamente às ações militares na Ásia. “Para os americanos, seria estratégico dominar as reservas de petróleo das Américas, como os do Golfo do México e principalmente da Venezuela. É estratégico como arma para pressionar os árabes”, diz Ceceña.
Resistência civil é fundamental
A “ofensiva preventiva” americana da chamada guerra ao terror, criada para justificar as violações do Direito Internacional e das liberdades civis e fortalecer seu aparato repressivo interna e externamente, veio em apoio às já conhecidas táticas intervencionistas, como a guerra ao narcotráfico, ou econômicas, como os mecanismos de imposição de políticas do FMI e da OMC, avalia Ceceña. Mas a resistência popular e civil, como a que vem desafiando os americanos no Iraque, ou mais além, que se manifestam contra os organismos multilaterais como G8, OMC, FMI e Banco Mundial, dificilmente pode ser criminalizada e atacada militarmente. “O que aconteceu na Bolívia, por exemplo, quando os movimentos sociais se rebelaram contra a privatização da água e, mais recentemente, contra a exportação do gás natural, chegando a derrubar o presidente aliado dos EUA, não pode ser taxado de ação terrorista. Essa resistência civil é um obstáculo ainda intransponível para os EUA”, afirma Ceceña.
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