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Mulheres apanham. Apaixonadas ou não

jun 26, 2003 | Geral

O drama vivido pela personagem Raquel, da novela Mulheres Apaixonadas, que apanha do marido Marcos, lançou uma luz sobre um velho problema: a violência doméstica. De janeiro a abril, só no Estado de São Paulo, a polícia registrou 257 casos por dia, ou uma agressão a cada seis minutos.

A doce e sofrida professora Raquel, personagem vivida pela atriz Helena Ranaldi na novela Mulheres Apaixonadas, da Rede Globo, levou a maior surra do marido, Marcos (Dan Stulbach), dentro da escola. Recebeu duros golpes de raquete de tênis. E não foi a primeira vez que apanhou. Na tentativa de escapar das agressões do marido, Raquel mudou até de Estado.

Não adiantou. Marcos a encontrou e voltou a espancá-la.

A história de Raquel é apenas ficção. Mas as estatísticas da Polícia Civil do Estado mostram que o drama da personagem na novela é uma triste realidade na vida de milhares de mulheres – sejam elas apaixonadas ou não.

De janeiro a abril, só no Estado de São Paulo, a polícia registrou 30.894 casos de espancamento de mulheres – média de 257 casos por dia ou uma agressão a cada seis minutos. Em 90% dos casos, os agressores são os próprios maridos, namorados ou amantes, de acordo com estimativa da delegada Márcia Buccelli Salgado, do Setor Técnico de Apoio às Delegacias de Polícia de Defesa da Mulher de São Paulo.

Esses números não consideram os registros das agressões que não deixam vestígios e nem as que resultam em ferimentos gravíssimos, que às vezes levam até à morte. Só neste ano, 12 mulheres morreram vítimas de violência doméstica. Outras 54 quase morreram.

Para psicólogos e especialistas, a personagem de Raquel foi uma criação feliz do autor Manoel Carlos porque expõe, em horário nobre, um “câncer, uma ferida crônica” que a sociedade e o Estado querem esquecer ou ignorar: a violência doméstica.

Na opinião da assistente social Graziela Acqua Viva Pavez, de 48 anos, diretora da Casa Eliane de Grammont, a mulher agredida só se dispõe a tratar do assunto ou a denunciar o parceiro à polícia quando o limite dela foi, há muito tempo, ultrapassado.

“Por medo ou vergonha, as mulheres apanham durante anos caladas. Elas chegam na delegacia deprimidas, assustadas e culpadas por estarem denunciando o homem que amam ou amaram um dia”, diz Márcia.

A delegada Márcia afirma que a violência doméstica, como a que é retratada pela novela Mulheres Apaixonadas, não tem classe social e nem nível cultural. De acordo com especialistas, em geral o comportamento agressivo é provocado por algum tipo de distúrbio como alcoolismo, dependência química (drogas), neuroses ou compulsões por jogo, sexo, internet ou trabalho.

Sapatada acabou com casamento

A publicitária Eliane, de 35 anos, sonhava desde menina casar-se de vestido branco, véu e grinalda numa igreja lotada de convidados. Há dez anos, no entanto, longe dos pais que moram no interior, decidiu fazer um teste conjugal antes de selar o compromisso.

Alugou um apartamento e foi viver com o jornalista Marcos (nome fictício), cinco anos mais velho, um homem educado, sedutor e inteligente que conhecera um ano antes numa festa. A lua-de-mel durou seis meses. Saíam para jantar fora, viajavam nos finais de semana e se divertiam com amigos.

“Depois desse período, ele se transformou. Não colaborava mais com as despesas da casa, bebia e consumia cocaína todos os dias. Eu pagava todas as contas sozinha. Um dia descobri que ele havia limpado minha caderneta de poupança”, revela.

Eliane conta que apanhava toda vez que se recusava a dar dinheiro para o namorado comprar droga. A relação conjugal chegou ao fim quando Marcos a golpeou com uma sapatada no rosto. O impacto foi tão forte que rompeu a pele da pálpebra inferior. “Ele me bateu porque eu disse que não lhe daria mais nenhum centavo.”

A dor e a vergonha eram tão grandes que, em vez de procurar ajuda ou um médico para tratar do ferimento, a publicitária se trancou no quarto. Ficou ali três dias, sem ver nem falar com ninguém. Chorou o tempo todo.

Só quando retornou ao trabalho, cinco dias depois, percebeu que o ferimento ainda estava visível. Tentou justificar que o hematoma – que ainda tomava boa parte do lado esquerdo da face – fora resultado de um escorregão no banheiro de casa.

“Ninguém acreditou. Todos os colegas já sabiam que meu namorado era agressivo. Só tomei consciência de que não podia continuar com aquela relação quando uma amiga chegou e me perguntou até quando eu ia assumir o papel de mulher de malandro. Foi uma dor insuportável.

“A relação de tapas e beijos durou quatro anos. Durante esse período, Eliane perdeu as contas das vezes que foi agredida pelo namorado. “Era tapa, soco, chute. Uma vez apanhei na mesa de um bar. Na frente de uma amiga. Foi a maior humilhação da minha vida.” A publicitária nunca foi à delegacia para denunciar as agressões ou o furto do dinheiro.

Fonte: Jornal da Tarde – Publicado em 16.06.2003.

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