Sem terra começam greve de fome no RS a partir desta quarta (12), para pressionar o governo a acelerar reforma agrária e para buscar uma solução pacífica para a ocupação de uma fazenda no interior do Estado. MST diz que “nunca se fez tão pouco pela reforma agrária” como agora.
Porto Alegre – O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) promove, a partir desta quarta-feira (12), uma greve de fome no Rio Grande do Sul para pressionar o governo federal a acelerar o processo de reforma agrária. O anúncio foi feito segunda-feira (10) por Mario Lill, da coordenação estadual do MST no RS, durante entrevista coletiva em que foram feitas fortes críticas ao governo Lula. Segundo Lill, desde o surgimento do MST, os sem terra estão passando pelo período mais difícil da reforma agrária. “No pós-ditadura nunca tivemos uma situação onde tão pouco se fez pela reforma agrária quanto nesse período”, acrescentou.
O líder do MST disse ainda que o movimento está frustrado com as 53 famílias assentadas no Estado nos últimos 16 meses, criticando também a atuação do governo Germano Rigotto (PMDB). “O governo Olívio Dutra, mesmo sendo estadual, assentou mil famílias no primeiro ano”, lembrou Lill, que deve ser um dos participantes da greve de fome, que pode ganhar a adesão de integrantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).
Resposta do Incra
O superintendente interino do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no RS, Roberto Kiel, rechaçou as críticas qualificando a declarações do MST como “bastante vazia”. Segundo Kiel, o governo Lula está fazendo o possível para acelerar o processo de assentamentos e o Incra está comprometido em fazer reforma agrária. “Não dá para comparar, por exemplo, com governos que simplesmente deixaram de fazer vistorias no Rio Grande do Sul”, acrescentou, numa referência ao que ocorreu no Estado durante o governo Fernando Henrique Cardoso.
Durante a entrevista coletiva que anunciou a greve de fome, a direção da Via Campesina divulgou nota apoiando a iniciativa e criticando a “omissão dos governos federal e estadual”. A nota assinala que, no RS, estão acampadas atualmente cerca de 2.500 famílias, algumas delas há 4 anos, criticando o baixo número de assentamentos realizados em 2003 no Estado (53 famílias). “Da nossa partem nunca negociamos tanto como agora e por parte dos Governos, nunca se avançou tão pouco como neste último período. Tanto que a única alternativa que os Governos propõem é o uso da força policial para despejar as famílias, ao invés de agilizarem o processo de reforma agrária”, protesta a Via Campesina.
Situação tensa em Coqueiros do Sul
A greve de fome também tem por objetivo buscar uma solução pacífica para a ocupação da Fazenda Guerra, em Coqueiros do Sul, área ocupada desde o dia 2 de abril, durante a jornada nacional de lutas do MST. A Justiça gaúcha concedeu prazo até quinta-feira (13), para que a área seja desocupada. A Brigada Militar já está na região, montou barreiras nas estradas de acesso à fazenda e prepara-se para executar a ação de reintegração de posse. Os colonos acampados na fazenda estão preparando-se para resistir à ação da polícia. Construíram barricadas, trincheiras e cercas com taquaras pontiagudas em torno da área. Nesta terça-feira, os sem terra negaram-se a assinar uma notificação do Conselho Tutelar recomendando que as crianças que estão no local sejam protegidas caso a polícia use a força para desocupar a fazenda.
Diante desse clima de tensão, o deputado estadual Frei Sérgio Görgen (PT-RS), acompanhado de dirigentes do MST e da Via Campesina, reuniu-se na tarde desta quinta com o governador Germano Rigotto para informá-lo sobre a situação na área e solicitar que o Executivo evite qualquer forma de violência na desocupação da fazenda, procurando construir uma alternativa que leve ao assentamento das 900 famílias acampadas. O MST diz que só aceita sair da área se o Incra levar essas famílias para um novo assentamento, rejeitando uma proposta do instituto para se transferir temporariamente para uma área de 170 hectares, próxima ao município de Pelotas.
Na tarde desta terça, as lideranças dos cerca de 1,5 mil colonos que estão na fazenda consideraram a proposta do Incra uma afronta e reafirmaram que não sairão da área enquanto não receberem uma proposta concreta de assentamento. O MST estaria disposto a aceitar o anúncio de um assentamento para, pelo menos, 300 famílias, como forma de evitar um confronto com a polícia na desocupação da propriedade. As famílias que ocuparam a fazenda Guerra são as mesmas que, ano passado, desocuparam a fazendo Bom Retiro. Elas protestam que, quando da desocupação, receberam uma série de promessas que até hoje não foram cumpridas.
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