Em entrevista à Agência Carta Maior, Nancy Cardoso Pereira afirma que, para manter algum poder na estrutura política e econômica em que vivemos, o cristianismo não enfrenta o fracasso do capitalismo.
São Paulo – O fundamentalismo religioso é apenas um dos diversos fundamentalismos que têm como resultado o impedimento do fortalecimento do Estado democrático e o exercício da cidadania plena de todas as pessoas. Lançado recentemente no Brasil, o livro “Palavras… se feitas de carne – leitura feminista e críticas dos fundamentalismos”, da teóloga feminista Nancy Cardoso Pereira, aborda, além do religioso, os aspectos econômicos, políticos e geopolíticos das ações fundamentadas na tradição e suas conseqüências nas formatações de poder na sociedade contemporânea. A obra também faz a relação entre tais conseqüências e a luta feminista, travada por mulheres que brigam, por exemplo, por direitos sexuais e reprodutivos, barrados nas argumentações do fundamentalismo.
Nesta entrevista à Agência Carta Maior, Nancy Pereira fala de como o fundamentalismo está presente na espinha dorsal do império norte-americano e no próprio cristianismo ocidental, que chegou ao Brasil através dos colonizadores. A teóloga também discute a relação “incestuosa” entre o cristianismo e o modelo de civilização ocidental construído nos alicerces do capitalismo. Por último, fala da distância que ainda falta ser percorrida para que as mulheres realmente conquistem a igualdade de gênero.
“Não podemos nos contentar com estes anexos que foram criados, são coisas cosméticas. Hoje tem shopping com estratégia para o 8 de Março, que era considerado um dia de luta para as mulheres. Isso é o que eu chamo de mecanismos da economia de mercado para se apropriar das lutas, da capacidade que o capitalismo de mercado tem de transformar tudo em mercadoria”, diz Nancy.
Leia baixo os principais trechos dessa conversa.
Carta Maior – Você defende a idéia de que o fundamentalismo é um mecanismo contemporâneo, para além da postura dos grupos radicais. Onde esse mecanismo se manifesta? Nancy Pereira – Esse consenso de que o fundamentalismo está muito longe de nós, afastado do mundo ocidental, com os Estados Unidos insistindo na questão do terrorismo, numa percepção do fundamentalismo dos outros, como uma coisa a ser extirpada, não existe. O fundamentalismo é muito presente na espinha dorsal deste império norte-americano. Hoje vivemos o fundamentalismo econômico, de sustentação do mercado livre, do capital, da mão invisível que mexe nas economias. Fora do mercado não há vida. Se a gente romper com o FMI, não há saída; se aumentarmos o salário mínimo, como o movimento de mulheres quer, o país acaba. Essas são afirmações fundamentadas numa verdade que está fora de nós, metafísica, portanto. Também vivemos o fundamentalismo político na questão da democracia, que está virando um conceito fundamentalista, no sentido em que é um apanágio, que aparece e resolve as coisas. Trata-se de algo que perpassa as formatações de poder com que a gente convive. E temos o fundamentalismo religioso, que não é só radicalismo.
CM – E que estaria presente inclusive no cristianismo?
NP – Sim. O fundamentalismo é a expressão majoritária do cristianismo: sexista, autoritário, elitista e moralista. Isso tem muito a ver, historicamente, com a relação incestuosa entre o modelo de civilização ocidental e o cristianismo. Na construção das relações de poder na colonização da América Latina, o cristianismo chegou pra nós marcado com uma visão fundamentalista redentora, messiânica da conquista do novo mundo. Deu para o capitalismo e para o imperialismo ocidental esse desejo de controlar o mundo todo, uma proposta de salvação, que é como o capitalismo se entende hoje e como o império norte-americano se vê com a sua democracia. É uma relação explícita, por exemplo, no governo Bush, na formatação das políticas e na percepção da diferença. No caso do Brasil, o império que ocupa nossas terras vem com a proposta do cristianismo junto. Essa relação entre o Estado e a religião oficial nunca foi superada na história do Brasil. As respostas que as igrejas dão para o fracasso do capitalismo são conseqüências disso. São limitadas, reformistas, não emancipadoras. A teologia da libertação – que foi uma libertação da teologia, uma autocrítica do papel do cristianismo no metabolismo nos modelos de sociedade na América Latina – nunca foi consenso, sempre foi marginália na vida das igrejas. E de tudo isso ficou apenas este caráter mais caritativo, de uma Pastoral da Criança, do Idoso. Você pega o pobre, o social, e o transforma na boa vontade do cristianismo. Sem precisar enfrentar esta troca, esta sustentação estrutural que a religião cristã continua dando a uma sociedade como a nossa.
CM – Na sua opinião, a ação da igreja continua sendo omissa diante da exclusão que o mercado gera na sociedade?
NP – Eu acho que o campo do cristianismo está completamente dividido. Você tem comunidades, lideranças, agentes de pastoral de diversas igrejas com lutas antiguíssimas de preservação de direitos, por um novo modelo de sociedade. São setores do cristianismo que já desistiram deste lugar formatado pelo poder. Hoje é um campo em disputa.
CM – Há uma corrente do cristianismo que defende a volta da igreja à ação nas comunidades de base, por exemplo. Há um lado da igreja que ainda se diz vermelho.
NP – É este grupo que desistiu de estar no poder e que quer reinventá-lo. Mas há uma questão a ser colocada. Da mesma maneira que o capital está respondendo à organização dos movimentos populares reformulando suas formas de alienação, também o cristianismo, de certa forma, tolerou uma certa teologia da libertação, mas aprimorou seus mecanismos de pertença ao poder. Essa religiosidade de consumo, pentecostal, carismática, que é crente, é católica, que vende prosperidade, é uma maneira de reajustar o cristianismo para que ele continue funcionando no rastro do capitalismo de mercado. A teoria da libertação levava mais para um enfrentamento. Mas na última década há um desmanche da igreja mais popular e você tem a formatação do religioso no campo dos meios de comunicação. Este é um ajuste dos cristãos para continuar recebendo alguma coisa na estrutura política e econômica em que vivemos. Vão alguns anéis, mas mantêm-se os dedos.
CM – Mas a igreja, de certa forma, perdeu espaço nas decisões políticas mundiais.
NP – Perdeu porque agora o capital não precisa mais da religião. Como o dizia Marx, a religião não era só o ópio do povo, mas também uma estratégia do capitalismo. Agora o mercado é a religião. Já não são as religiões tradicionais que controlam a circulação e a manutenção dos bens simbólicos de consumo, de manutenção de propriedade. Mas, nessas trocas, o cristianismo de plantão ficou com um prêmio de consolação, que é a guarda dos valores morais. E é neste fundamentalismo religioso que a situação fica mais complicada para as mulheres. Parece que a igreja opera somente no campo da sexualidade – regulando a questão do aborto, a camisinha, o planejamento familiar –, mas, na verdade, ao fazer isso, ela cumpre seu papel dentro da estrutura funcional do modelo de sociedade. Este modelo econômico rearticulou a questão da produção com a da reprodução da vida humana. Ele precisa dessa panela de pressão em cima dos corpos reprodutivos para satisfazer as necessidades do modo de produção do capital, garantindo circulação e consumo.
CM – Mas a questão do controle reprodutivo tem conseqüências complicadas para as mulheres independente do aspecto econômico, principalmente onde a religião tem força, como nos países da América Latina. Não tem?
NP – Nessas horas temos que olhar os números. Se existem realmente três milhões de abortos no Brasil, são três milhões de mulheres – e mais as suas amigas, que ajudam a tomar a decisão – que, mesmo o aborto sendo crime diante do Estado brasileiro e pecado diante do poder do cristianismo, vão lá e fazem um aborto, como desobediência civil e aos parâmetros oficiais de fé. São conflitos como este que grupos feministas como o das Católicas Pelo Direito de Decidir procuram enfrentar e trazer para dentro da igreja.
CM – Vem daí a luta das feministas por um Estado laico?
NP – Justamente. A briga das mulheres dentro da igreja são daquelas que querem continuar sendo cristãs. Eu quero. Então estou pronta para fazer o enfrentamento que for necessário para continuar nesta tradição. Mas ela não pode se colocar num lugar especial da sociedade e interferir em debates que esta sociedade tem que fazer. A igreja cristã pode ser um participante a mais, dar sua opinião. Agora não se aproveitar desta relação incestuosa, que tem um passado tão grande, para continuar inviabilizando a discussão e descaracterizando o debate – “não tem debate a ser feito porque nós defendemos a vida”. Neste sentido, a luta por um Estado laico é uma urgência. Por exemplo, quando a ONU faz uma discussão sobre população, o Vaticano está presente como Estado. Mas as outras igrejas não têm representantes como Estado – e não têm que ter. Isso demonstra em nível internacional a distorção do papel que o cristianismo oficial tem nessas relações.
CM – O Brasil evoluiu de alguma forma no sentido da igualdade de gênero?
NP – Você tem algumas coisas cosméticas. Hoje há, por exemplo, grupos de estudo de gênero nas universidades. Mas são mulheres pressionadas a se contentarem com os anexos que são criados, porque a forma de produzir conhecimento em nível epistemológico não foi alterada. A gente ouve falar mais sobre violência doméstica, tem mais instrumentos, mas ainda não conseguimos tocar nos mecanismos que produzem essa violência, como o familismo religioso. Essa visão da sagrada família que o cristianismo criou, uma família que não existe, é a expressão do fundamentalismo. Essa é uma das coisas que inviabilizam uma ação mais efetiva para desmantelar os mecanismos da violência doméstica. Hoje temos mais mulheres no mercado de trabalho, mas quem disse que o que as feministas queriam eram mais mulheres sendo oprimidas, recebendo salário mínimo? Quando chega o 8 de Março, vêm os exemplos. Esta aqui é empresária de tal firma, esta aqui é diretora de tal lugar, tem uma ministra… Você pensa em casos exemplares, mas são anexos. Não há participação das mulheres. E nisso há um consenso publicitário. Tem shopping com estratégia para 8 de Março. Isso é o que chamo de mecanismos da economia de mercado de se apropriar das lutas. Daí a importância da indignação, de pensar articulado. Parte do movimento de mulheres foi cooptada pela discussão de políticas públicas e abandonou a discussão de modelo de sociedade.
CM – Então esta é uma mudança que passa pela mentalidade das próprias mulheres?
NP – Sim. Eu não vou fazer a discussão do machismo se não consigo fazer a da opressão social econômica. Se você desiste de pensar o conjunto das ações, você perde a radicalidade tão necessária nos dias de hoje. E abre espaço para o fundamentalismo econômico e religioso operarem, nos imobilizando.
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