O projeto de assentamento de Aquidaban, em Manacapuru (AM), localizado na comunidade de Tuiué, está testando uma experiência pioneira na produção de energia na Amazônia: a transformação da casca do cupuaçu em combustível.
As 187 famílias de agricultores do assentamento foram escolhidas como beneficiárias do projeto Gaseificação da Amazônia (Gaseifamaz), coordenado pelo Centro Nacional de Referência em Biomassa (Cenbio) da Universidade de São Paulo (USP). O projeto é executado em parceria com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). O sistema já está funcionando e deverá ser inaugurado no início de setembro, após a definição do modelo de distribuição de energia. A Companhia Energética do Amazonas (Ceam), a Eletronorte e a Eletrobrás também deverão ser parceiras dessa experiência.
“O importante é a gente ter um cenário real da adaptação desse sistema na região Norte, onde o potencial eólico (dos ventos) é baixo e a outra opção de energia alternativa disponível, a fotovoltaica (solar), tem limitações de potência”, explicou o pesquisador do Cenbio responsável pelo projeto, Osvaldo Martins. Segundo Walder Moraes Jr, engenheiro civil da Eletrobrás, em outros países, como na Índia, essa experiência tem se mostrado viável. “Mas por enquanto seria precoce afirmar agora se dará certo na Amazônica. Esse é o teste”, ponderou.
Como o sistema funciona
O princípio de transformação da casca do cupuaçu em combustível, segundo Martins, é bastante simples. A casca, com umidade máxima de 6%, é queimada dentro do gaseificador sem oxigênio. A combustão incompleta produz, no lugar da fumaça, um gás de síntese, que tem poder calorífico em torno de ¼ do gás natural. Esse gás é jogado na entrada de ar do motor a diesel e reduz em até 80% o consumo desse combustível. Ocorre, portanto, a substituição do diesel por casca de cupuaçu. “Se o motor consumia 5 litros de diesel por hora, passará a usar apenas 1 litro”, exemplificou o pesquisador do Cenbio.
O projeto Gaseifamaz tem um custo total de R$ 980 mil, financiados pelos fundos setoriais de energia e com previsão de dois anos de duração. O equipamento foi trazido da Índia e montado e testado nos laboratórios do IPT, em São Paulo, antes de viajar para Manacapuru. “Ele ficou em testes durante oito meses e já foram feitas algumas modificações. Nós trocamos equipamentos acessórios, como bombas, por similares nacionais, para facilitar a manutenção”, explica Martins.
De acordo com os técnicos do projeto, o Gaseifamaz está ligado a um projeto de agroindústria de beneficiamento do cupuaçu. O Cenbio entrará com a verba para construção do galpão de beneficiamento e o Incra, com os equipamentos e a capacitação técnica. “Nós vamos tirar a polpa e beneficiar o caroço, além de fazer outros produtos, como licor, geléia, doces e cupulate. A agroindústria estará pronta em dezembro”, garantiu o coordenador de assessoria técnica do Incra no estado, Dadid Ribeiro Gonçalves.
Sem o gaseificador, a agroindústria iria continuar a ser apenas um sonho remoto. “Com o motor a diesel, a gente não ia poder pagar o custeio da energia”, explica o agricultor Antônio Monteiro. Na última safra, os produtores de Aquidaban deixaram de vender 70 toneladas de caroços de cupuaçu, a R$ 0,70 o quilo, porque o produto foi secado incorretamente, e por isso, perderam o valor comercial.
“Hoje, nós estamos cortando a fruta na tesoura e temos muita dificuldade para fazer esse beneficiamento”, disse o presidente da Associação de Produtores do Projeto de Assentamento de Aquidaban, Fernando Carlos Ribeiro. “Ninguém pode guardar a produção e aí temos que vender o cupuaçu pelo preço que o atravessador oferece”, revela o agricultor Alcimar Maciel. A mulher dele, Suzana Maciel, sonha com dias melhores. “A gente espera que a agroindústria traga emprego para nós e nossos filhos”.
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