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Conflito entre sem-terra e seguranças deixa 60 feridos na Bahia

ago 26, 2004 | Geral

Um confronto entre seguranças de uma fazenda em Camaçari (BA) e integrantes do MLT (Movimento de Luta pela Terra) deixou 60 pessoas feridas –duas em estado grave–, três veículos (dois carros e uma moto) incendiados e 72 presos –todos funcionários da propriedade Monte Cristo.

O conflito aconteceu ontem à noite, quando os seguranças armados com escopetas, revólveres e facões tentaram expulsar cerca de 350 sem-terra que invadiram a fazenda e onde estão acampados há quase duas semanas.

Com 6.000 hectares, a fazenda Monte Cristo já foi invadida três vezes pelos sem-terra nos últimos nove meses. Os agricultores alegam que a propriedade é improdutiva. Por decisão da Justiça, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) não pode realizar qualquer ação de vistoria na fazenda.

Segundo o juiz federal João Batista Cássio Júnior, a propriedade contém remanescentes importantes de mata atlântica e não serve para reforma agrária. No processo, o juiz analisou documentos encaminhados pelo Centro de Recursos Ambientais da Bahia e pela ONG SOS Mata Atlântica.

O MLT admite que a fazenda tem uma área de mata atlântica, mas que está apta para ser usada para agricultura.

A PM de Camaçari (região metropolitana de Salvador) somente chegou à fazenda por volta das 21h de anteontem, duas horas após o início do conflito. Mesmo assim, todos os 72 seguranças da propriedade foram presos.

“Também encontramos dois ônibus que foram utilizados para transportar os seguranças, eletrodomésticos, roupas, celulares, alimentos e remédios que foram saqueados no acampamento”, disse a delegada Jesuína Maria Gonçalves. No acampamento, a delegada disse que foram apreendidos três revólveres calibre 38.

Nos primeiros depoimentos, ocorridos na manhã de hoje, os seguranças informaram que foram contratados pelo delegado Tadeu Caldas Viana Braga, um dos sócios da fazenda. De acordo com a delegada, Viana Braga deverá ser ouvido pela Corregedoria da PM, após o interrogatório de todos os seguranças da fazenda.

“O delegado Tadeu Viana Braga colocou um revólver na minha boca e disse que iria me matar se eu não contasse onde estavam os nossos líderes”, disse a sem-terra Francisca Ribeiro, 42.

Braga, que é lotado em Rio Real (BA), não compareceu ontem para trabalhar, segundo informações de funcionários da delegacia.

Durante o tiroteio, cerca de 15 crianças fugiram para o matagal que cerca a propriedade _depois de quase 12 horas, todas foram encontradas pelos policiais que vasculharam a área durante toda a madrugada de hoje.

Um dos feridos graves é Elinaldo Pereira dos Santos, 23, que está internado no HGE (Hospital Geral do Estado), em Salvador, atingido por tiros nas costas e golpes de facão. Já no Hospital Geral de Camaçari está internado Domingos Bispo dos Santos, 30, atingido por um tiro no peito durante o confronto. Santos seria um dos capangas que tentaram expulsar os sem-terra.

Durante a tentativa de expulsão, os sem-terra reagiram com tiros, coquetéis molotov e rojões. No final da manhã de hoje, a Prefeitura de Camaçari encaminhou para a fazenda dois ônibus para transportar os sem-terra.

“Não vamos sair de jeito nenhum. Queremos terra, paz e dignidade. Não será baixando a cabeça e deixando a fazenda que seremos respeitados”, disse Damião Muniz, 36, líder do MLT, que surgiu de uma dissidência do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

admin
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