Indiscutivelmente, abril foi um “vermelho”, como prometeu o
líder do MST João Pedro Stedile. Foram 135 ocupações em vinte Estados,
mobilizando 33.400 famílias, além de dez marchas. Pela primeira vez desde
que foi instituído como jornada de luta, o período de 27 de março até 17 de
abril – data em que completou oito anos o massacre de Eldorado dos Carajás –
foi alardeado pela grande mídia. Para Stedile, a ampla cobertura, embora
claramente anti-MST, acabou rendendo bons frutos: “Foi positivo, porque
durante o mês inteiro a sociedade brasileira teve de discutir e refletir se
os sem-terra tinham razão em se mobilizar ou não”. Uma das ocupações de
maior repercussão, da fazenda Veracel Celulose, em Porto Seguro, Bahia,
produtora de celulose, em 6 de abril, trouxe à tona outro debate polêmico: a
inserção das terras produtivas no plano de reforma agrária. “Foi um ato
simbólico para denunciar que uma área, mesmo produzindo, pode não cumprir a
função social – e a Constituição diz que todas as grandes propriedades que
não cumprem a função social devem ser desapropriadas. A maioria dos
políticos analisa apenas aspectos econômicos e produtivos, mas isso não é
suficiente. As multinacionais estão transferindo suas fábricas poluentes de
celulose para o Brasil, e nós ficamos só com a pobreza e a poluição, e eles
levam a riqueza. Isso eles chamam de progresso.” Caros Amigos acompanhou de
perto quatro ocupações que aconteceram em abril. O resultado é um relato de
como se deu, de fato – e isso ainda está longe de aparecer na mídia – o
Abril Vermelho.
Engenho Alegria – Mariana Pires
A ocupação do engenho Alegria foi apenas uma das 31 que o MST
realizou em Pernambuco entre 27 de março e 17 de abril, durante a Jornada
Nacional de Luta pela Terra. Ao todo, 8.000 famílias foram mobilizadas no
Estado. No entanto, com as ordens judiciais de reintegração de posse, o
próximo capítulo é o despejo. Mas, para o MST, o fim da jornada não é o fim
das ocupações.
O sol mal saiu e já estão todos de pé no acampamento Agrícola,
na pequena cidade de Escada, a 55 quilômetros de Recife, na Zona da Mata Sul
de Pernambuco. São 5 horas da manhã do dia 8 de abril e a movimentação no
local é grande. Colchão para um lado, trouxas de roupa para o outro,
panelas, urso de pelúcia, móveis velhos, barracos sem lona – o dia é de
mudança para as mais de mil famílias do MST que há quatro anos resistem na
área às margens da BR-101.
Depois do café da manhã, sob uma chuva fina, homens, mulheres e
crianças se reúnem em assembléia para organizar as ações do dia. Serão
quatro ocupações: engenhos Caçuá, Conceição e Alegria, em Escada, e engenho
Brilhante, no município vizinho, Cabo de Santo Agostinho. Enquanto as
famílias entoam palavras de ordem na assembléia, o proprietário do engenho
Alegria, Frederico Bivar, irmão do deputado federal Luciano Bivar (PSL),
chega para tentar convencer a coordenação do MST a desistir da ocupação.
“Ele falou que podemos ter surpresas”, conta Jaime Amorim, da direção
estadual do MST.
Aos poucos, chegam os caminhões que farão o transporte das
famílias até cada área. De longe, uma mulher observa junto ao filho,
segurando colchões e sacolas, enquanto todos se organizam nos veículos.
– A senhora não vai?
– Vou não.
– Por quê?
– Vontade eu tenho, mas estou com medo por causa do meu menino.
– E você não quer ir?
– Eu quero, mas depende dela – responde a criança.
Se o medo ainda impede alguns de se juntar ao movimento, o
desemprego e a falta de perspectiva de vida digna no campo são suficientes
para mobilizar cada vez mais gente. Aos 27 anos, Marinete conta que chegou
ao acampamento Agrícola há dois anos, depois de deixar a fazenda onde
trabalhava com o marido por causa da exploração a que eram submetidos.
– Estamos saindo hoje determinados, sabendo que vamos construir
tudo de novo e enfrentar o que for preciso para conseguir um pedaço de terra
para plantar e dar um futuro melhor para os nossos filhos.
O último veículo a partir segue para o engenho Alegria,
propriedade de 520 hectares. A chuva, que antes era só uma ameaça, resolve
cair com força. É preciso parar várias vezes para ajudar os carros atolados
na estrada molhada. Do alto do caminhão, bandeiras são erguidas e palavras
de ordem entoadas.
E assim o grupo segue até chegar à porteira da propriedade. Ao
lado, a placa com a inscrição “Engenho Alegria – criação de cavalos-manga
larga marchador” destoa do cenário: até onde a vista alcança, não há sinal
de animais nem plantações. Em poucos minutos, a tristeza daquele local é
tomada pela felicidade das famílias que, com facões e enxadas, abrem
passagem para finalmente ocupar a terra, sem nenhum conflito, apesar das
notícias ameaçadoras.
– Olha só que terra boa, minha filha! Que terra boa! – exclama
dona Iracema Maria da Silva, 59 anos. – Isso aqui é o que eu quero, aqui eu
estou com todo prazer da minha vida. Espero muito futuro nessa terra. Aqui
vou plantar batata, macaxeira, tudo que eu tenho vontade, cebola, pimentão,
alface, que é o que eu gosto mesmo, que é viver junto das plantas, porque
meu amor todinho, toda vida, sempre foi pelas plantas.
A primeira ação é fincar a bandeira do MST no solo. Em volta,
todos se juntam para cantar o hino do movimento. Pela frente, muito
trabalho. Crianças e adultos, de todas as idades, limpam a terra onde vão
erguer os barracos. Aos poucos surgem várias barracas de plástico preto.
– Depois vamos organizar as atividades do acampamento. Tem que
ter gente responsável pela alimentação, pela água, pela segurança – explica
Estêvão Batista, um dos coordenadores da Zona da Mata Sul de Pernambuco.
Enquanto as famílias se organizam, o repórter da Rede Globo
grava sua matéria: “Esta manhã, milhares de famílias do MST ocuparam quatro
engenhos… corta! Errei! De novo!” E prossegue: “Esta manhã, milhares de
famílias do MST invadiram quatro engenhos…”.
Próxima ao repórter, dona Maria do Carmo de Sousa , 62 anos,
limpa a terra com a enxada.
– Antes de chegar aqui, eu vivia de ajuda. Quando não tinha,
passava fome. Eu e minha família sempre trabalhamos para os usineiros.
Agora, eles vão me pagar, pois vou precisar da terra deles, o que eu fiz
para eles, eles agora vão fazer para mim. Vir para cá só me deu alegria e
barriga cheia. Agora espero um pedaço de terra para plantar e criar minhas
galinhas.
No olho da ocupação – Patrícia Dourado
Um olhar sobre uma ocupação no Recôncavo Baiano na madrugada de
8 de abril, partindo do acampamento Recanto da Paz, com 413 hectares,
ocupado em janeiro por 250 famílias. “A área da fazenda é pequena para as
famílias, por isso vamos fazer outras ocupações até deixar todos em seus
devidos locais”, disse Dejacira Maria de Oliveira, coordenadora da
Sub-regional Recôncavo do MST.
Eram 40 minutos da madrugada quando, enfileirados, homens e
mulheres, moços e velhos, em sua maioria negros e mulatos, caminhavam rumo
ao caminhão que os levaria à terra a ser conquistada naquela noite: uma
fazenda no município de Catu, a 130 quilômetros de Salvador.
A propriedade, de 500 hectares, havia sido explorada pela
Petrobrás. Foi doada à prefeitura local para ser loteada e destinada ao
assentamento de famílias. Em janeiro, o MST descobriu que as terras estavam
sendo exploradas por uma associação que utilizava trabalho escravo. A
Delegacia Regional do Trabalho retirou a associação do local. Por isso, a
ocupação, segundo Valmir Assunção, coordenador estadual do MST: tramita no
Congresso uma lei determinando que toda terra com trabalho escravo seria
desapropriada para a reforma agrária.
Cantando o hino do movimento e sob a lua cheia que veio deixar a
noite bem clara e facilitar a ocupação, sessenta famílias de sem-terra se
preparavam para conquistar o sonhado pedaço de chão. Foram 7 quilômetros de
estrada de terra esburacada, depois uma asfaltada que também não era das
melhores. Finalmente, depois de quase duas horas, o caminhão parou. Uma voz
veio lá do fundo:
– Sem-terra, vamos! Chegamos à nossa Canaã. Ocupemos a terra que
é nossa!
Era Ademir dos Santos, de 28 anos, há nove meses no movimento.
Considerado o revolucionário da turma, usando uma boina com a efígie de Che
Guevara, Ademir diz que a missão do MST é difícil, mas quem tem raízes na
terra não pode morrer sem cultivá-la:
– Para mim, plantar e colher é me tornar dono do meu futuro. Um
homem só deixa de ser escravo quando tem sua própria terra.
A mesma esperança carregava Joseneide dos Santos, que antes de
procurar o movimento trabalhara como empregada doméstica em Salvador, em
troca de 100 reais por mês.
– Era de segunda a sábado e minha patroa ainda reclamava. Fui
criada na roça e fui para a cidade achando que lá encontraria meu caminho.
Há quatro meses descobri que minha vida está no campo, por isso vim para o
MST.
A madrugada estava muito fria. Passava das 2 horas quando a
primeira fogueira foi acesa.
– Hora de tomar um cafezinho para esquentar – convidou Nilda
Santos Figueiredo, de 41 anos, coordenadora da Sub-regional.
Antes de ser assentada, há quatro anos, no assentamento Nova
Panema, ela passou por dez despejos. Com orgulho, conta que ali possui uma
casa com dois quartos e sala, água de poço artesiano e 25 tarefas de terra
divididas entre o plantio do caju e a criação de três ovelhas, três cabras,
uma vaquinha e um bezerro, além de 21 pintinhos, uma galinha e um galo.
“Ocupar, resistir e produzir” continua sendo sua meta para os filhos de
outras famílias poderem ter uma vida digna.
Por volta das 4 horas e 30 já havia muitas fogueiras. As
crianças, cansadas e de olhos arregalados, observavam a movimentação dos
adultos que discutiam. Em nenhum momento elas choraram. A essa altura, um
problema: foram encontrados cinzas recentes e resto de comida – vestígios de
que possivelmente havia ali algum acampamento. Essa hipótese gerou
insegurança geral. Mas o dia não demorou a amanhecer e, como é tradição, foi
hasteada no centro do terreno uma bandeira do movimento, indicando que ali
havia uma ocupação do MST.
Porém, com a descoberta da madrugada, as discussões se
acirravam. Deviam continuar ali, mesmo havendo na terra alguns posseiros? A
primeira refeição do dia foi servida às 8 horas. Segundo os líderes, a
comida é proveniente do programa Fome Zero. No nosso caso, um mingau de
milho, que deveria sustentar os militantes até a próxima refeição, que
ninguém sabia ao certo se aconteceria. Tudo era incerto naquela manhã.
Finalmente, a decisão foi tomada: todos voltariam para o
acampamento Recanto da Paz. Primeiro, porque a fazenda ficava distante da
estrada; segundo, porque não havia água suficiente no local; e terceiro,
porque já havia posseiros, e o MST não queria conflitar com pequenos
agricultores.
– Só ocupamos para ganhar e nunca para perder! – bradou Dejacira
Maria de Oliveira.
Mais uma vez enfileiradas, as famílias se dirigiram ao caminhão
para o regresso.
No caminho, e aí já eram quase 11 e meia, o sol queimava de
rachar. Demorou mais uma hora e tanto para chegar ao Recanto da Paz. O nosso
retorno era uma surpresa, mas foi recepcionado com algazarra alegre e
festeira. As dificuldades daquelas últimas doze horas não os frustraram nem
abateram: trataram de discutir e planejar as próximas ocupações.
Sexta-feira Santa – Sofia Amaral
Quatro dias após a ocupação, o acampamento na Mian já contava
com mais de quinhentas famílias. Uma madeireira vinha utilizando parte da
área da fazenda para corte de eucalipto, mas o MST informou que as
atividades estão paralisadas. Nenhum pedido de reintegração de posse foi
feito. Na visão do movimento, pelo fato de as terras pertencerem a uma
empresa que está em dívida com o governo, devem ser destinadas imediatamente
para a reforma agrária.
Quinta-feira, 8 de abril de 2004, 11 horas da noite. A rua está
escura e deserta. O observador mais atento, no entanto, notará uma porta de
metal entreaberta, da qual sai um filete de luz. É o Centro de Formação do
MST, localizado no Brás, em São Paulo. Lá dentro, mais de uma centena de
pessoas. Crianças brincam com cadeiras de plástico. Jovens conversam em
rodinhas. Alguns cochilam. Há uma certa ansiedade no ar.
Logo estamos dentro de um velho ônibus de turismo, que roda
macio pela noite de São Paulo. Para onde vamos? Converso com alguns
adolescentes, meus vizinhos de banco, e nenhum deles tem a menor idéia de
nosso destino. Pergunto se ficarão acampados: não, estão lá só para “dar uma
força”. Dormimos.
Entre paradas, ônibus quebrados, desvios de rota, demoramos
quase cinco horas para chegar ao local da ocupação, que fica a pouco menos
de uma hora de São Paulo. É madrugada, faz um frio do cão e uma neblina
densa. Alguém pega um microfone:
– Pátria livre!
– Venceremos! – responde o coro.
Somos informados de que estamos no município de Pirapora do Bom
Jesus, e que aquela é a fazenda Mian, propriedade da família Matarazzo.
Cantamos hinos. Palavras de ordem. Até Luís Gonzaga. Depois, mãos à obra.
Enquanto isso, o setor de alimentação vai aprontar o café.
Entre o local em que estão parados os ônibus e onde será montado
o acampamento, junto à sede da fazenda, é uma subida de 100 metros. Como a
casa fica no alto de um morro, a vista é belíssima. Tanto a sede quanto as
outras casas, menores, estão completamente abandonadas. Uma piscina vazia e
suja logo vira o “ playground ” das crianças. As coisas começam a ser
descarregadas.
Por volta das 8 horas e 30, alguém avisa que o café está pronto,
lá embaixo. E é café mesmo – nada mais. Converso com os “sem-terrinha”, que
adoram minha máquina fotográfica e falam de sua vida no Movimento. Ana
Carolina, a Carol, de 9 anos, conta que estava acampada no Dom Pedro
Casaldáliga, que já sabe ler e escrever muito bem, e que uma vez se perdeu
da mãe em uma ocupação. Logo, todos começam a contar episódios do tipo.
– Tá vendo aquela ali? – pergunta Carol, apontando para uma
menina de uns 7 anos. – Ela se perde da mãe sempre! Uma vez se perdeu em uma
marcha! Mas depois achou…
A casa, antes com cara de mansão mal-assombrada, começa a ganhar
vida com as vassouras implacáveis das mulheres, somadas aos enormes sacos de
mantimentos, móveis e as crianças correndo. Sento, cansada do sol que já
castiga, e começo a conversar com duas mulheres. A primeira delas é Josefa
Lourenço, que está no Movimento há dois anos. Paraibana, veio para São Paulo
há três, e nada de emprego.
– Meu marido é doido pra pegar uma terra. Ele gosta de trabalhar
muito… mas, em São Paulo, de que jeito?
Já Sílvia Nunes, um ano de MST ao lado do marido, não está tão
animada.
– Eu não gosto muito, eu gostava mais de morar em uma casa –
lamenta.
Foi o bastante para chamar a atenção de outras mulheres, que
logo vêm dar ânimo a ela.
– Quando comecei – conta uma delas –, eu também tinha medo.
Parece que a trabalheira não vai acabar nunca, né? Mas você vai ver como é
bom quando a gente consegue. Eu estou assentada faz mais de um ano, e foi
tão bom pra mim, que hoje estou aqui para ajudar os outros a conseguirem o
mesmo.
A fazenda Mian, localizada no município de Pirapora do Bom
Jesus, na divisa com Cajamar e Jundiaí, a pouco mais de 50 quilômetros da
capital paulista, tem, segundo dados do MST, cerca de 955 hectares. É
propriedade das Indústrias Reunidas Matarazzo – empresa que, segundo dados
do BNDES, deve 40 milhões de dólares aos cofres públicos.
Por volta das 2 da tarde sai o almoço, digno da Sexta-Feira
Santa: bacalhau ensopado com batatas. Ninguém sabe dizer com precisão quem
proporcionou almoço tão sofisticado (“deve ter sido a Igreja”), mas também é
difícil encontrar alguém interessado em responder a minhas perguntas – a
fome é grande. Após o almoço, é hora de assembléia. São divididos os
setores, respeitando a organização já existente no acampamento Dom Pedro
Casaldáliga: infra-estrutura, alimentação, farmácia, segurança. E muita
atenção: cuidado com a imprensa, mais ainda do que com a polícia. Os
companheiros que irão embora hoje podem se aprontar, os ônibus devem estar
chegando.
É o meu caso. Reúno minha pouca bagagem e desço para esperar o
ônibus. Mas ainda dá tempo de fazer uma amiga: Isabel, de 10 anos, que
carrega Daniela, de 2 meses, sua sobrinha.
– A minha mãe está ali, sabe? Ela está arrumando as coisas para
levar tudo lá pra cima. Que a gente vai ficar lá, né? O meu irmão que trouxe
a Daniela pra cá, porque a minha irmã, a mãe dela, não estava cuidando
direito. Ela gosta de pirulito, você viu? Vamos lá comigo buscar água? Olha
lá! A gente vai virar celebridade! – diz, rindo e apontando para o
cinegrafista da Rede Globo.
O ônibus demora, mas Isabel me faz companhia. Anoitece. Para
mim, é o fim de uma reportagem. Para os sem-terra, é o começo de uma longa
espera. Espera pelo parecer do INCRA ou por um possível pedido de
reintegração de posse por parte dos atuais proprietários. Lembro da
assembléia, em que um dirigente estadual do movimento declarou, sob
aplausos: “Essa terra é nossa!” É mesmo.
Pra Cá da Cerca – Natalia Viana
A fazenda Desejo e Azurara foi escolhida a dedo pela direção
estadual fluminense do MST. “Ela demonstra bem o poder de dominação que o
latifúndio exerce em uma região”, explica Marina dos Santos, dirigente do
Rio de Janeiro. O arrendatário, Leonardo Terra de Almeida, c hamou a polícia
e deixou alguns de seus homens vigiando dia e noite o pessoal do MST.
Moradores da vizinhança avisavam: “Cuidado com ele”.
Canavial, noite fechada. Uma estrada de terra corta essa
imensidão verde e preta estrelada. A bordo de uma Ranger, Marina dos Santos,
dirigente nacional do MST no Rio de Janeiro, me conta que a fazenda a ser
ocupada fica perto de Campos dos Goitacazes, norte fluminense. Em abril de
2001, um decreto presidencial declarou a terra de “interesse social para
fins de reforma agrária”, com base em um laudo do INCRA que atestava
improdutividade. O INCRA pediu a posse provisória e depositou os títulos da
dívida agrária, mas o proprietário, Nicodemus Pessanha, conseguiu liminar em
primeira instância impedindo a posse. Sub judice na Justiça Federal, o
processo está emperrado.
Decidida a ocupação, há poucos dias, apenas três ou quatro
pessoas ficaram sabendo. Marina é uma delas. Integrante do Movimento há
muitos anos, já perdeu a conta das ocupações que ajudou a organizar. Hoje
com 29 anos, a paranaense entrou no MST quando, noviça, foi ajudar um padre
a rezar missa em um acampamento.
– Não era nem meio-dia quando decidi: não volto mais.
Tinha 15 anos, e a experiência a encantou.
– Era um domingo, um acampamento com mais de trezentas famílias,
fiquei impressionada com a solidariedade que as pessoas tinham. Aquilo me
tocou muito e continua me tocando até hoje.
Enfim, às 2 horas da manhã, chegamos ao local da concentração, o
Cambaíba – um pequeno assentamento com cerca de 25 famílias. Rodas de
conversa na escuridão tratam do passado e do que está por vir. São
trabalhadores da cana acostumados à lida exaustiva do nascer do sol até a
noite, em troca de diárias de 10 a 15 reais. Jossiel Azevedo, de 44 anos,
faz parte de uma turma de cortadores que, tendo trabalhado na última safra
da fazenda Sapucaia, a poucos quilômetros, não receberam parte do pagamento.
– Emprego em usina não tá valendo a pena, que o dinheiro da
gente eles tão pegando pra eles, aí a gente tamo aqui pra tomar um pedacinho
de terra, que coragem pra trabalhá a gente tem.
Às 5 horas partimos, cerca de cem pessoas divididas em dois
ônibus, um caminhão e três carros. Amanhece o sábado, 17 de abril – Dia
Internacional de Luta pela Reforma Agrária. Falante, o motorista Marcelo
Gomes conta que veio “quebrar o galho” do amigo, dono do ônibus. Nem
imaginava que ia viver essa aventura.
– Eu não sabia que o MST era assim tão organizado. Na televisão
parece uma bagunça.
Em quinze minutos dá para ver a fazenda de 507 hectares. Já são
6 horas da manhã quando entramos. Nesse exato momento, em algum lugar da
cidade do Rio de Janeiro, a assessora de imprensa Thaís Peyneau envia os
releases preparados na véspera para a imprensa local. A terra se estende a
perder de vista. Um enorme vazio. Apenas um casebre e uma capela recebem o
pessoal. Os integrantes do MST vão fincando bandeiras. A rápida assembléia
decide que o acampamento vai se chamar Josué de Castro, homenagem ao médico
que mapeou a fome no Brasil. Começa a subir a vila de plástico preto.
O movimento é interrompido pela chegada de três carros, por
volta das 10 horas da manhã.
– É o homem!
Firmes, os meninos que fazem a segurança da porteira não se
intimidam:
– Só entra com mandado judicial.
Do outro lado, nada do proprietário. Quem vem cobrar a fazenda é
o arrendatário Leonardo Terra, do PFL, presidente da Câmara de Vereadores de
São Francisco de Itabapoana , município vizinho. Mais uma porção de homens,
incluindo seu advogado, Antônio Maurício Costa, que, cheio de ironia, me
responde:
– O que vocês pretendem fazer?
– Vamos esperar as ordens. O MST agora é o quinto poder, não é?
Então vamos obedecer.
Irritado, o vereador do PFL diz que a terra produz, além de
gado, abacaxi, mandioca e feijão. Marina explica que o problema é outro. O
dono arrendou a fazenda após o decreto de desapropriação.
– Legalmente, ele não tem qualquer poder sobre a terra.
Em vinte minutos chegam três viaturas da polícia. O pessoal do
MST já avisara: “Ligamos para o comandante da PM Mário Pinto para avisar que
estamos aqui”. A frase gerou um rebuliço do lado de lá da porteira. Ao
celular, Leonardo Terra, grande empresário do couro, usa a sua influência
para dar a sua versão ao coronel Mário Pinto:
– Eles estão falando que o senhor autorizou a invasão, tem
sentido isso?
E mente:
– Meus homens foram conversar com o pessoal do MST e eles
estavam armados, botaram os meus homens para correr.
Durante todo o tempo em que lá estive, não vi arma nenhuma.
Enquanto isso, os dirigentes do MST fazem ligações estratégicas:
para a O uvidoria Agrária Nacional, o INCRA estadual, a OAB federal e o
Centro de Justiça Global.
– O coronel agora deve estar recebendo um monte de ligações! –
comemora Marina.
Mas o clima só fica mais calmo quando chega o coronel Mário
Pinto. Tem de se entender com um revoltado Leonardo Terra, mas garante:
– O policiamento vai ficar aqui para dar segurança e manter a
integridade física de ambos os lados. Só haverá a remoção dessas pessoas com
ordem judicial.
A essa altura chega um antigo morador da fazenda. Hoje com 60
anos, seu Amarildo veio trabalhar na antiga usina aos 15.
– Quando o meu “madrasto” morreu, vim pra essa fazenda, fui
trabalhando na lavoura, que eu não tenho leitura, o estudo era pouco. Aí, o
proprietário vendeu para a Companhia Usina de Outeiro, a usina faliu e
mandou embora o pessoal.
Nos catorze anos em que morou ali, ele criou os nove filhos.
Agora, volta para conquistar um pedaço da terra.
– Se tiver que morrer, morro em qualquer lugar. Vou ficar quanto
tempo for preciso.
Do lado de dentro, as barracas já estão prontas. No alto da
colina, quatro homens a cavalo observam o pessoal. Há notícias de que homens
de moto vigiam as demais porteiras. À noite, a sensação é de estarmos cada
vez mais isolados. Sob o céu estrelado me despeço dos acampados, que até o
fechamento desta edição já somavam 150 famílias. Na estrada, silêncio.
( Mariana Pires e Sofia Amaral são estudantes; Patrícia Dourado e
Natalia Viana são jornalistas).
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