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Aliança entre PMDB e PT esbarra em regionalidades

dez 2, 2004 | Geral

Enquanto o governo Lula e a direção do PT tentam ampliar presença do PMDB no Executivo, no sul do país petistas e peemedebistas vivem clima de forte disputa. Diferenças regionais e programáticas impedem aproximação entre os dois partidos.

Porto Alegre – Se, em nível nacional, o governo Lula e o PT vêm tentando fortalecer os laços políticos com o PMDB, na região Sul do país, a relação entre os dois partidos é marcada por um progressivo afastamento. Esse quadro é mais acentuado no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, onde petistas e peemedebistas afiam as armas para as próximas batalhas. Parlamentares e lideranças regionais do PMDB do Rio Grande do Sul reuniram-se nesta segunda-feira (29) para definir a posição do partido em relação ao governo Lula. Há várias semanas, os peemedebistas gaúchos vêm defendendo a saída do partido da base de apoio do governo e a entrega de todos os cargos federais, incluindo ministérios. Na base das divergências, diferenças regionais e também programáticas. No final da reunião, o diretório estadual do partido decidiu pedir o rompimento com o governo federal, a entrega de todos os cargos e a definição de uma candidatura própria nas eleições presidenciais de 2006.

O governador Germano Rigotto é um dos principais defensores dessa posição e vem participando de uma articulação nacional com os outros governadores do PMDB, de olho na disputa presidencial de 2006. O senador Pedro Simon, presidente estadual do PMDB, é outro defensor desta tese, alegando que, embora o partido tenha hoje dois ministros – Amir Lando, na Previdência, e Eunício Oliveira, nas Comunicações -, “não tem influência nenhuma nas decisões e políticas públicas do governo”. A perspectiva de disputar as eleições de 2006, fazendo oposição ao PT em nível federal, fica clara também na fala de Simon, para quem o PMDB precisa unificar o discurso para disputar a presidência daqui a dois anos.

Genoino descarta intervenção

Do lado do PT, o discurso em relação ao PMDB é de forte oposição, particularmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Neste final de semana, as direções petistas dos dois estados anunciaram a intensificação da oposição aos governos de Germano Rigotto e Luiz Henrique, ambos do PMDB. A decisão do PT catarinense provocou a contrariedade do presidente nacional do partido, José Genoino, que chegou a telefonar para o governador Luiz Henrique para dizer que não apoiava a posição dos petistas no Estado. Segundo Genoino, daqui em diante, os contatos entre o partido e o governador serão feitos diretamente pela direção nacional do PT.

Nesta segunda, Genoino voltou a falar da decisão do PT catarinense, descartando a possibilidade de uma intervenção da direção nacional no Estado. Dizendo que as divergências regionais fazem parte da política, o presidente nacional do PT diz que vai trabalhar para “atenuar as decisões” do diretório estadual. Outra petista que trabalha na mesma direção é a senadora Ideli Salvatti que defende que as diferenças entre os dois partidos no Estado devem ficar em segundo lugar para viabilizar a proposta do governo Lula de constituir um governo de coalizão. Por outro lado, o secretário nacional da Pesca, José Fristch, defende o rompimento do PT com o governo Luis Henrique.

No RS, rivalidade é total

No Rio Grande do Sul, a reunião do diretório estadual do PT anunciou que a oposição a Rigotto vai aumentar em 2005. Os petistas gaúchos prometem bater no governo do Estado, denunciando o corte de verbas para a Saúde, o desmantelamento de programas sociais como o Primeiro Emprego e o Família Cidadã e a retomada da política de concessão de incentivos fiscais para algumas grandes empresas. Uma aproximação entre PT e PMDB no RS é algo tão improvável quanto uma relação amigável entre colorados e gremistas, as duas maiores torcidas do Estado. A vida política do estado há mais de uma década é marcada por uma profunda divisão entre os dois partidos. Apesar de, nas últimas eleições estaduais, Germano Rigotto ter feito uma campanha baseada no discurso da pacificação e do fim da polarização ela continua mais forte do nunca.

Na verdade, essa polarização está baseada em diferenças programáticas concretas. Desde o governo Antônio Britto (1995-1998), o PMDB gaúcho aposta numa política de desenvolvimento baseada na concessão de incentivos fiscais para a atração de grandes indústrias. Ao retomar essa política, o governador Germano Rigotto reavivou as divergências com o PT gaúcho que defende uma política de desenvolvimento que valorize os sistemas locais de produção e incentive os pequenos e médios empresários. Petistas e peemedebistas têm efetivamente visões distintas no Estado. O governo Olívio Dutra (1999-2002) apostou na implementação do Orçamento Participativo estadual como forma de revigorar o sistema representativo e introduzir um outro padrão de gestão pública. Logo ao assumir, Rigotto extinguiu o OP estadual e introduziu no seu lugar a Consulta Popular, que substituiu a participação direta da população em assembléias por um sistema de consultas e votações.

“Aqui não, Sebastião!”

A lista de diferenças é longa e afetou diretamente a recente disputa eleitoral municipal, quando o PMDB apoiou a candidatura de José Fogaça, em Porto Alegre. Na verdade, PT e PMDB são os dois principais partidos no Estado e disputam a hegemonia política do mesmo a ferro e fogo. Durante o governo Olívio Dutra, o PMDB liderou uma dura oposição que não deu trégua do primeiro ao último dia. Essa disputa permanece diária e sua intensidade pode ser medida nos discursos de ambas as partes.

Na semana passada, o deputado federal Eliseu Padilha, ex-ministro dos Transportes do governo Fernando Henrique Cardoso, descartou qualquer possibilidade de aliança com o governo federal, dizendo que isso não irá acontecer pelo simples fato de que “não existe governo”. Ou seja, se depender dos petistas e peemedebistas gaúchos, a coalizão nacional desejada pelo governo Lula não florescerá no Estado. A terra que já foi dividida entre farrapos e legalistas, entre maragatos e chimangos, sempre tratou suas diferenças políticas, interna e externamente, como um valor a ser preservado. E nada indica que esse quadro vai mudar. Uma gíria popular parece exprimir bem o sentimento da maioria dos militantes e dirigentes dos dois partidos no Estado: “aqui não, Sebastião!”.

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