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Aos 84 anos, morre Celso Furtado

nov 25, 2004 | Geral

O pensador e acadêmico Celso Furtado, guru de uma legião de economistas, morreu neste sábado (20) no Rio de Janeiro, deixando uma obra imortal de amor e esperança de que este país encontre o caminho de transformar-se um uma grande nação. O velório será na Academia Brasileira de Letras.

Leia a última entrevista

Brasília – O Brasil perdeu neste sábado (20) um de seus mais brilhantes e sensíveis pensadores. O economista Celso Furtado morreu de infarto fulminante pouco depois das 11 horas, em seu apartamento na rua Conrad Niemayer, em Copacabana, na Zona Sul do Rio. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias em homenagem ao mestre dos desenvolvimentistas brasileiros. Em nota oficial, Lula afirma que perdeu um amigo, mas que guardará os seus ideais.

“É com enorme pesar que venho a público manifestar minha tristeza com o falecimento de Celso Furtado. Mais que um economista, Furtado era um brasileiro que nos enchia de orgulho por seu compromisso com o Brasil, com a América Latina e com todos os países em desenvolvimento”, enfatiza o presidente, para quem as obras e idéias de Celso Furtado representam “um marco do pensamento econômico e social, transformando-o em um dos homens mais importantes do século XX”. O presidente lembra ainda que o reconhecimento internacional de Furtado comprovam o trabalho desenvolvido pelo economista em todo o mundo. “É impossível debater o desenvolvimento sem passar por seus textos e idéias. Intelectual rigoroso era, ao mesmo tempo, homem de ação e de Estado”, acrescenta o presidente.

Lula destaca também, na nota, que Celso Furtado participou de diferentes governos e foi o responsável pela construção da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). “Lembro-me com emoção de sua presença na cerimônia de recriação da Sudene no ano passado, em Fortaleza. Mesmo debilitado fisicamente, comemorou sua fé no nordeste e no Brasil. Perco um amigo, mas guardo seus ideais”, encerra o presidente na nota divulgada pela Presidência da República.

A notícia da morte de Celso Furtado chegou em primeiro lugar à reunião do Diretório Nacional do PT, que está sendo realizada este fim de semana, em São Paulo. “Ele foi um dos grandes pensadores da América Latina e um brasileiro marcado pela cooerência e compromisso com o desenvolvimentismo”, disse o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), ao comunicar o ocorrido à imprensa. Para o chefe da Casa Civil da Presidência da República, ministro José Dirceu, “o Brasil perde um pouco de sua alma” com a morte de Celso Furtado. “Nós, principalmente da geração de 68, perdemos o homem que sempre nos guiou, ensinou, e para todos nós é um exemplo de vida. Quero deixar bem claro que sou absolutamente fiel aos ideais de Celso Furtado, ao seu pensamento, ao seu exemplo de vida. No governo do presidente Lula eu sempre estarei ao lado daqueles que pensam e sonham como Celso Furtado”, anunciou.

Os dirigentes do PT fizeram um minuto de silêncio em homenagem ao economista, que teve como último ato político a assinatura no manifesto em defesa da manutenção de Carlos Lessa no comando do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O Diretório Nacional divulgou nota lamentando a morte de Celso Furtado, na qual considera que o país ficou mais pobre do ponto de vista intelectual, político e ético.

O presidente do PT, José Genoino, disse que a morte do economista representa uma grande perda ao país, pois a vida dele se confunde com a história brasileira na luta por um projeto nacional e na luta pelo desenvolvimento econômico. “Ele é uma referência para minha geração e para as futuras gerações que lutam por um país desenvolvido, integrado e com soberania. É uma referência para aqueles que lutam para diminuir as disparidades e as diferenças regionais do país”, reverenciou.

Segundo nota divulgada pela Academia Brasileira de Letras (ABL), onde o acadêmico ocupava há sete anos a cadeira de número 11, que pertencia anteriormente ao acadêmico Darcy Ribeiro, o corpo de Celso Furtado chegará a ABL, onde será velado, por volta das 17 horas. A ABL ficará aberta até às 23 horas e será reaberta, para a continuidade do velório, às 6 horas deste domingo. O corpo será encomendado entre 10 horas e 10h30, e logo em seguida o féretro deixará a ABL seguindo para o Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul da cidade, onde será sepultado por volta do meio-dia, no Mausoléu dos Imortais.

Obra é referência histórica

Talvez o nome mais expressivo das ciências econômicas no Brasil, Celso Monteiro Furtado publicou uma obra com relevante conteúdo histórico que faz parte da bibliografia fundamental para economistas e interessados no assunto até hoje. Autor do clássico Formação econômica do Brasil, que descreve a economia brasileira desde o período da colonização até a sua industrialização, esse paraibano atuou intensamente na vida pública do país e realizou importantes estudos relacionados à situação econômica nordestina.

Furtado foi adepto da linha estruturalista e destacou-se por enxergar a economia de uma maneira social, mais humanista. Autor da “dialética do desenvolvimento”, na qual explica que o desenvolvimento dos países ricos significa o subdesenvolvimento das nações mais pobres, ele recebeu o título de “economista emérito do Brasil”, conferido pelo Conselho Federal de Economia, em dezembro de 2001, por reconhecimento ao seu trabalho.

Nascido a 26 de julho de 1920, em Pombal, sertão da Paraíba, Furtado não “colava” nos exames do liceu paraibano pois não queria se submeter ao que considerava uma humilhação. Seu pai, o juiz Maurício Medeiros Furtado, tinha uma vasta biblioteca, fundamental para despertar no autodidata Celso o interesse pelos livros.

Participou da Força Expedicionária Brasileira, na última fase da Segunda Guerra Mundial e, após concluir seus estudos em direito, passou a se dedicar às ciências econômicas. Para o economista e professor da Universidade Estadual de Campinas, André Tosi Furtado, filho mais novo de Celso, ele distinguiu-se dos outros analistas econômicos por dois motivos: o notável conhecimento de história e o extenso conteúdo teórico. “Seus livros têm um embasamento histórico fundamental e seus estudos, relevantes até hoje, serão recomendados por muitos anos.”

Um dos primeiros a integrar a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), importante escola de pensamento econômico da região sediada no Chile, Furtado, que nunca prestou serviços para uma empresa privada, participou de importantes momentos da política brasileira. Fundou e dirigiu, por exemplo, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). No entanto, esbarrou nos interesses de políticos nordestinos ligados a setores que não admitiam perder suas posições e privilégios com a atuação da instituição.

Furtado foi membro da Academia Brasileira de Letras e revezava sua morada entre o apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, e Paris. Aos 84 anos, dizia que continuava a fazer a mesma coisa de sempre: ler e escrever. Além de apaixonado pelos livros, o economista foi fã de uma boa partida de tênis. “Foi o esporte que pratiquei por mais tempo em minha vida”, afirmou em entrevista à revista Ciência Hoje on-line, há dois anos.

A gênese da economia brasileira

Dos mais de 30 livros escritos por Celso Furtado, Formação econômica do Brasil é, de fato, a mais importante publicação do economista. A partir da coleta de dados do início do século 16 até o final dos anos 50, o paraibano analisou a evolução da economia do país, desde a colonização portuguesa até a industrialização. Ele explica, por exemplo, o atraso industrial brasileiro e sua especial recuperação econômica após a crise de 29.

“Ao lermos esse livro podemos perceber que meu pai é um economista histórico-estruturalista”, rotulava André Furtado, ressaltando a importância da obra para as outras áreas, além do campo econômico. “O estudo é tão importante para a economia quanto para a história do país.”

Escrito de maneira simples e bem elucidativa, a obra contém muitas informações sociais e políticas. Dividido em cinco partes, ela analisa a economia açucareira, o surgimento da pecuária e da expansão territorial, o ciclo do ouro, a estrutura do café, a transição da mão-de-obra escrava para o trabalho assalariado e o processo de industrialização por substituição de importações.

O livro explica como — e por quê — a economia brasileira é tão dependente do mercado externo e das tecnologias estrangeiras. Enquanto os países desenvolvidos já tinham vivido sua revolução industrial, o sistema econômico brasileiro permanecia idêntico à sua criação, no início do século 16. No livro, Furtado mostra que “o Brasil do século 19 não diferia muito do que fora nos três séculos anteriores. A estrutura econômica, baseada principalmente no trabalho escravo, se mantivera imutável nas etapas de expansão e decadência. A ausência de tensões internas, resultante dessa imutabilidade, é responsável pelo atraso relativo da industrialização.”

Ao comparar os dados do período de 1925 a 1929 com o de 1945 a 1949, o estudo aponta que a economia brasileira se recuperou da crise de 29 muito antes da norte-americana. Furtado chegou à conclusão que a “grande crise” provocou o deslocamento do centro dinâmico da economia brasileira, que cresceu por conta própria nos primeiros anos da década de 1930.

Além de informações econômicas relevantes, detalhes históricos não passam desapercebidos na obra, como a maneira que os ingleses encontraram para solucionar o problema da mão-de-obra nas suas colônias da região do Caribe. “É sabido, por exemplo, que grande parte dos africanos apreendidos nos navios que traficavam para o Brasil eram reexportados para as Antilhas como trabalhadores ‘livres‘.”

Apesar de ter passado por dezenas de edições, a obra correu o risco de nunca ter chegado às livrarias. Os textos originais do livro, concluído na Inglaterra, foram extraviados quando Furtado os enviou para seu editor no Brasil. O pior só não aconteceu porque um amigo seu o havia convencido a microfilmar os textos.

Uma vida dedicada ao País

Por duas vezes, o economista de maior renome do Brasil quase interrompeu sua vida de maneira precoce. A primeira ocorreu durante a infância, quando o pequeno Celso lançou uma bola sobre uma panela de feijão que estava em cima do fogão. O enorme artefato caiu sobre o corpo do menino, que sofreu sérias queimaduras. “Até hoje tenho a marca nas minhas costas”, conta Furtado.

A segunda, mais grave, ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando Furtado compunha a Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Itália. Um bombardeio destruiu uma estrada momentos antes de passar o jipe em que ele se encontrava, no banco traseiro. O carro, sem capota, perdeu o controle e ele foi lançado em um barranco, onde bateu com a cabeça em uma pedra.

“O motorista se agarrou ao volante, enquanto eu, pego de surpresa, fui atirado para fora do veículo, despenquei colina abaixo e perdi os sentidos”, lembrava. “Só voltei a mim no hospital de campanha norte-americano, onde fiquei vários dias até me recuperar das fortes pancadas na cabeça e nas pernas.”

Da infância no sertão, Furtado se recordava da família patriarcal, dos cangaceiros e do governador João Pessoa, assassinado no dia em que ele completava dez anos. “Depois disso, não houve mais festa no dia do meu aniversário lá em casa”, lamentava. “Não podíamos festejar para não confundir a alegria da celebração familiar com uma atitude de desafio ao sentimento enlutado da população.”

Aos 19 anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde começou a estudar direito e trabalhar como jornalista na Revista da Semana. Após a conclusão do curso, em 1944, foi convocado para integrar a FEB. Depois de sofrer o acidente na Itália, retornou ao Brasil e publicou sua primeira obra: De Nápoles a Paris – contos da vida expedicionária, seu único livro de ficção.

Doutor em economia pela Universidade de Paris, em 1948, Furtado se esforçou para estudar a situação econômica brasileira. Sua atuação possibilitou a criação da Sudene, que ele administrou nos primeiros anos. Com o golpe militar de 1964, o economista teve seus direitos políticos cassados pelo Ato Institucional 1 e se exilou na França, onde lecionou em Paris.

A anistia decretada em 1979 facilitou o retorno de Furtado ao Brasil. Envolvido em atividades políticas, ele assumiu em 1986 o Ministério da Cultura do primeiro governo civil após o regime militar. No cargo, apoiou a decisão do presidente José Sarney de proibir a exibição do filme Je vous salue, Marie, do franco-suíço Jean-Luc Godard. O ato gerou protestos de artistas e jornais. Ele ainda criou instituições, como a Fundação Pró-leitura, que aumentaram a burocratização da atividade de editores e escritores. Sob duras críticas, entregou o posto em 1988.

Longe do governo, o economista voltou a se dedicar à literatura e às atividades acadêmicas. Em agosto de 1997, os imortais elegeram-no para a cadeira nº 11 da Academia Brasileira de Letras, vaga após a morte do antropólogo e educador Darcy Ribeiro.

“O subdesenvolvimento é um processo histórico autônomo, e não uma etapa pela qual tenham, necessariamente, passado as economias que já alcançaram um grau superior de desenvolvimento.” Essa é uma das teses que Celso Furtado desenvolveu ao longo de seus anos de estudos sobre a economia latino-americana. Pai de dois filhos e casado pela segunda vez, com a jornalista e tradutora Rosa Freire d‘Aguiar, o paraibano tem um estilo humanista de pensar as ciências econômicas.

“Ele mostra que a economia não se faz apenas por modelos formais, característicos dos monetaristas da Escola de Chicago”, sustenta André Furtado. “Minha formação em direito me permitiu ver a economia como um sistema social e não simplesmente como um sistema de produção”, justificava Celso, que teve três influências fundamentais na sua carreira: o positivismo, o marxismo e a sociologia norte-americana – teoria antropológica da cultura, da qual tomou conhecimento pela primeira vez, aos 17 anos, quando leu Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre.

Quando retornou ao Brasil, em 1948, após ter concluído sua tese “L‘économie coloniale brésilienne”, na qual estudou a economia brasileira no período de sua colonização, em seu doutorado pela Universidade de Paris, Furtado foi trabalhar na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Lá, conheceu o economista austríaco Richard Lewinsohn, a quem atribuiu o aprendizado no levantamento e análise de dados econômicos do Brasil. “Lewinsohn me aconselhou a estudar os dados dos mercados brasileiros, pois ninguém tinha essas informações”, lembrava.

No ano seguinte, Furtado ingressou na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), órgão de pensamento econômico regional, criado pela Organização das Nações Unidas. Essa experiência fez o economista ampliar seu conhecimento sobre a economia latino-americana e adotar o estruturalismo, que dá ênfase às mudanças estruturais da sociedade.

Furtado ainda participou de um grupo que estudaria formas de estimular o desenvolvimento do Nordeste brasileiro. Para colocar em prática as conclusões alcançadas pelo grupo, o presidente Juscelino Kubitschek criou o Conselho de Desenvolvimento do Nordeste, que mais tarde foi transformado em uma estrutura maior: a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), cujo cargo principal foi ocupado pelo economista até o golpe militar. No entanto, por causa de suspeitas de corrupção e de desvio de verbas, a instituição foi extinta em 2001, quando já havia sido profundamente modificada e transformada num órgão de execução de projetos.

Defensor da reforma agrária e da não-adesão brasileira à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), Furtado sonhava em ver o órgão que fundou reformado. “A Sudene correspondeu à problemática de um certo momento histórico e deve ser recriada no contexto de hoje”, explicava. “Talvez o problema mais difícil para os futuros administradores da organização seja a relação com os governadores da região, que não ocorria na minha época, pois o superintendente tinha estatuto de ministro de Estado.”

A última recomendação ao governo Lula

No início de agosto, já com a saúde debilitada, ele não pode aceitar um convite da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Economico e Social para participar de uma Mesa Redonda que discutiu os desafios para o desenvolvimento do país. Mas deixou sua contribuição na forma de uma entrevista com o ministro Jaques Wagner, cuja gravação foi apresentada aos conselheiros e recebida com muito entusiasmo. Nela, ele dizia que os economistas e tecnocratas costumam fazer uma grande confusão entre crescimento e desenvolvimento. A diferença entre os dois conceitos é que o crescimento da economia de um país é medido essencialmente pelos indicadores econômicos, enquanto o desenvolvimento pressupõe o avanço dos indicadores sociais. “É preciso distinguir crescimento de desenvolvimento. Crescer sem desenvolvimento produz concentração de renda. E concentração de renda é anti-social por definição”, sustentou.

Furtado enfatizava a necessidade de se pensar o Brasil politicamente, pois a tendência dos técnicos é evitar os riscos para não confrontar o mercado. Ele recomendou que o governo apostasse em metas mais ambiciosas de crescimento, calcadas no planejamento estatal, que alavanca o desenvolvimento ao abrir possibilidades de equilíbrio dinâmico da economia no futuro. E reafirmou a importância de se incluir a questão social na abordagem dos problemas, reconhecendo que na época em que foi ministro do Planejamento também estava mais preocupado com o crescimento e não com o desenvolvimento.

Para Celso Furtado, a criação de emprego tem de ser o objetivo principal de qualquer governo e a última das prioridades a serem descartadas em processo de ajuste. “Emprego é o mais importante. Se não há criação de emprego, o país está andando para trás”, sustentava o economista, acrescentando que, mesmo a criação de empregos desnecessários para o desenvolvimento, como o das frentes de trabalho, é uma alternativa melhor que o desemprego. Ele observou, na entrevista, que a mudança de governo teve grande impacto na classe empresarial brasileira e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria aproveitar a expectativa criada para propor uma política mais ousada, pois a coragem política posta a serviço de causas autênticas é bem aceita pela sociedade. “Quando se faz uma promessa política, se faz jogando tudo”, ensinou Furtado.

*Com informações do portal UOL e da Agência Brasil

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