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Brasil é 4.º em homicídio no ranking da Unesco

jun 10, 2004 | Geral


Jovens negros são as principais vítimas; risco é maior no Rio, Espírito Santo e Pernambuco

LISANDRA PARAGUASSÚ

Um jovem de 22 anos, que deixou quatro filhos. Um adolescente de 16, morto com um tiro na cabeça. Uma moça de 17, cujo corpo foi queimado. A líder comunitária Vânia Aparecida Bonifácio vai enumerando as últimas “baixas” em duas favelas da zona sul de São Paulo. É a triste realidade por trás dos índices mostrados no Mapa da Violência 4, divulgado ontem: o Brasil é o 5.º na morte de jovens, num grupo de 67 países. E o 4.º no número geral de assassinatos.

Nos últimos 24 anos, o número de homicídios entre a parcela mais jovem da população brasileira – dos 15 aos 24 anos – passou de 30 para 54,5 em cada grupo de 100 mil habitantes, segundo a pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Só morrem mais jovens na Colômbia, nas Ilhas Virgens, em El Salvador e na Venezuela.

O número de mortes violentas no País vem subindo aproximadamente 5,5% ao ano desde 1993. “É de uma regularidade impressionante. Poderíamos prever quantos vão morrer no ano que vem a partir dos números que temos hoje”, disse o sociólogo da Unesco Júlio Jacobo Waiselfisz, responsável pelo mapa. No ranking geral, o Brasil só fica atrás da Colômbia, de El Salvador e da Rússia.

O estudo mostra que o maior número de mortes ocorre com pessoas de 20 anos, negras (65,3%), do sexo masculino (92,2%). A maioria, 64%, morre nos fins de semana, principalmente por armas de fogo.

Um terço dos jovens mortos em 2002 foi assassinado com armas. Se forem contados apenas os homicídios, são 75% dos casos. E o índice vem subindo. Em 1998, eram 66% das ocorrências. Em 2000, 74%. Entre 24 países, o Brasil é o primeiro em casos de assassinatos e acidentes causados por armas de fogo.

“Vamos ter de decidir que tipo de sociedade queremos, uma sociedade da paz ou se vamos alimentar essa cultura de violência”, disse o secretário-adjunto de Direitos Humanos, Mário Mamede, ao defender o fim da venda de armas no país, que será decidida em um plebiscito marcado para outubro deste ano.

O custo dessa violência é alto, não só para a sociedade mas para a própria economia brasileira. Os números variam de 7,5% a 10% do Produto Interno Bruto o que se gasta hoje no país com os resultados da violência, seja em segurança ou saúde. Mas podem ser mais altos. “Se calcularmos o que é investido pelo país, mesmo sendo pouco, na educação e saúde desses jovens que morrem tão cedo vamos ver o quanto é absurdo o custo da violência”, disse o representante da Unesco no Brasil, Jorge Werthein.

Estados – No Rio, em Pernambuco e no Espírito Santo viver é ainda mais perigoso. São esses os estados em que as taxas de assassinatos ultrapassam 50 por 100 mil habitantes entre a população geral e chegam a passar de 100 por 100 mil habitantes entre os jovens.

As capitais mais perigosas para os jovens são Vitória, Recife e o Rio de Janeiro.

Na população geral, Porto Velho toma o lugar do Rio. São Paulo aparece em 5.º na população jovem e 7.º na população geral.

No entanto, a pesquisa traz um dado mais assustador: a violência, pela primeira vez, passou a crescer mais no interior do país do que nas capitais e nas regiões metropolitanas. Entre 1999, o número de assassinatos cresceu 8% no interior, enquanto nas capitais o aumento foi de 1,6% e nas regiões metropolitanas, 2,4%. “A expansão econômica de alguns municípios do interior atraiu pessoas em busca de emprego, mas também a violência. Em muitos estados o município que lidera a taxa de violência não é a capital”, explicou Waiselfisz.

O sociólogo explica, também, que a ampliação dos sistemas de segurança das capitais e regiões metropolitanas ajudou a empurrar a violência para o interior.

Mais escolas, mais espaços de lazer e menos unidades da Febem é a receita básica apresentada pela Unesco para começar a melhorar essa situação. “Uma bolsa para manter esses jovens na escola custa muito mais barato do que mantê-los na Febem. E mais jovens no ensino médio são menos jovens morrendo”, concluiu Werthein. (Colaborou Carla Miranda)

Publicado em 08.06.2004

admin
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