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Brasil perdoa 95% da dívida de Moçambique

set 2, 2004 | Geral

Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva , e de Moçambique, Joaquim Alberto Chissano, assinaram na terça-feira (31) em Brasília um acordo em que o Brasil perdoa 95% da dívida do país africano – no valor de US$ 315 milhões. Lula acompanhou o gesto de um comentário dirigido elipticamente às metrópoles desenvolvidas: “Eu penso que isso pode servir de exemplo para que outros países da mesma magnitude do Brasil tenham o mesmo gesto com outros países pobres do mundo, que muitas vezes têm uma dívida que todo mundo sabe que é praticamente impagável, mas que funciona como uma espécie de espada na cabeça dos devedores”, afirmou.

A iniciativa brasileira em relação a Moçambique foi adotada no ano 2000, mas só ontem se efetivou, com a assinatura do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Lula, em tom de brincadeira, disse esperar que “o nosso querido Palocci” “já não esteja arrependido de ter assinado”. E lembrou que o mesmo gesto fora adotado em relação à Bolívia.

A escravidão, “dívida histórica”

Lula justificou o cancelamento da dívida devido porque “o Brasil e os outros países têm uma dívida histórica com os países africanos” – um fato histórico que a diplomacia brasileira reconhece com naturalidade, ao contrário de outros países que praticaram o escravismo, como os Estados Unidos. “Por mais que fizermos, ainda não conseguiremos pagar o que significou o trabalho de homens e mulheres livres na África que se tornariam escravos dentro do nosso país”, afirmou.

Num improviso emocionado, o presidente brasileiro disse que “nós haveremos de avançar a cada ano um pouco, até que a nossa relação não seja apenas uma relação diplomática ou uma relação virtual, mas que seja uma coisa muito forte, de sangue, de um país que se reencontrou com o povo africano que fez esse país ser a maravilha que é”. E agregou: “Não sei se o senhor percebeu que a mistura entre os negros africanos, os portugueses e os índios brasileiros, fez com que essa miscigenação criasse esse povo tão bonito, que é o povo brasileiro. E isso é impagável. E, portanto, nós vamos passar muitos séculos devendo aos países africanos”.

Mais viagens à África

“Nós, no Brasil, não iremos medir esforços para que a gente cumpra não apenas os acordos assinados aqui, mas acordos que firmamos em Moçambique no campo da educação, no campo do combate à Sida, no campo da agricultura, sobretudo. O Brasil pode, e deve, ajudar muito Moçambique”, ressaltou ainda.

Lula também elogiou Moçambique por realizar, em dezembro deste ano, as suas terceiras eleições multipartidárias (polarizadas entre a Frelimo, oriunda da guerrilha anticolonialista de esquerda, e a Renamo, anticomunista). E, como Chissano não se candidatará à reeleição, insinuou que este poderia assumir outra função pública, por sua “liderança e a representatividade junto aos países africanos”.

O gesto do Planalto faz parte de uma política que encontra oposição em setores brasileiros, mas estes não desencorajaram Lula, que reafirmou a decisão de continuar ajudando os países mais pobres. Ele também prometeu manter, “cada vez mais, uma política mais ousada, uma política mais positiva com relação aos países da África”. E, diante dos que o criticam por ter estado duas vezes no continente africano, visitando dez países, disse que pretende retornar à África uma vez por ano, passando pela maioria dos seus países até o fim de seu mandato.

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