Funcionários da universidade inventam soluções para sobreviver com pouco dinheiro e superar deficiências de infra-estrutura
ALEXANDRE RODRIGUES
RIO – Ameaçada de ter a luz cortada por falta de pagamento, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) expõe a crise financeira crônica da maior instituição federal de ensino do País. Com despesas anuais estimadas em R$ 87 milhões, a universidade só terá R$ 58 milhões este ano.
Mesmo rolando dívidas e dependendo de verba suplementar há pelo menos uma década, a UFRJ ainda reúne boa parte dos principais centros de pesquisa do País, além de cursos e projetos de fama internacional. A explicação do pró-reitor de Planejamento, Joel Teodósio, para o milagre, resume-se em uma palavra: criatividade.
A oficina de hialotecnia do Instituto de Química nunca foi tão usada. Com recursos cada vez mais escassos, a direção da unidade produz na faculdade a maior parte da vidraria utilizada pelos alunos. Um exemplo de como soluções individuais podem até superar expectativas. Os técnicos são capazes de criar peças conforme a necessidade dos pesquisadores, melhorando o desempenho dos projetos.
“Quando um instrumento se quebra num laboratório comum, vai para o lixo.
Aqui, não podemos nos dar esse luxo. Conseguimos consertá-los. Não dá nem para estimar quanto esse trabalho representa em economia”, diz o diretor Angelo da Cunha Pinto, que conta com R$ 5 mil mensais para manter as aulas de graduação para 2.400 alunos. “Isso quando o dinheiro chega”, ressalta.
Soluções para sobreviver com pouco dinheiro e superar deficiências de infra-estrutura são comuns, principalmente nas unidades do campus da Ilha do Fundão. De acordo com um levantamento encaminhado pela reitoria ao Ministério da Educação, a falta de manutenção levou a maioria dos prédios a um processo de degradação física, o que impede o pleno funcionamento de pelo menos 60 unidades acadêmicas. São necessários R$ 30 milhões para obras de emergência.
Parcerias – No Laboratório de Hidrogênio da Coordenadoria de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe/UFRJ), a falta de segurança levou os pesquisadores a evitar sair do Fundão à noite.
“Temos mudado a nossa rotina por causa da violência. Uma estagiária já foi assaltada. Voltei de férias e, no primeiro dia, a primeira coisa que vi foi um cadáver num terreno baldio. Para não sair tarde, a gente combina de chegar mais cedo”, conta o pesquisador Gilmar Clemente.
Mas os pesquisadores não deixam os problemas passar pela porta do laboratório, trancada e dotada de um interfone. Lá dentro, uma equipe de professores, doutorandos, mestrandos e alunos de graduação, como Ingrid Veloso, de 22 anos, trabalha na pesquisa de materiais capazes de armazenar o hidrogênio, que poderia ser usado em automóveis. Uma experiência situada na fronteira do conhecimento mundial sobre o tema.
Equipamentos de ponta como um microscópio eletroquímico de varredura não estariam à disposição deles se não buscassem parcerias com a iniciativa privada, saída que a maioria dos pesquisadores da Coppe achou. “Eu imaginava encontrar as dificuldades, mas conseguimos superá-las”, diz Ingrid, no último ano de Engenharia de Materiais.
“A sorte da UFRJ é ter professores bem formados e conscientes. Para isso não precisamos de luz, temos idéias para iluminar a cabeça. Estamos habituados a buscar investimentos, mas é um absurdo que tenhamos de lutar por infra-estrutura, que é obrigação do MEC”, protesta Angela Uller, diretora da Coppe, que conta com uma fundação para organizar, fiscalizar e socializar os recursos de parcerias. “Embora pague salários, o que sobra da verba federal não dá para nada. É revoltante ter de usar recursos da pesquisa para pagar segurança e material; até casa de marimbondo já retiramos dos laboratórios.”
No Instituto de Química, a professora Eliane D’Elia passou dez anos idealizando um laboratório de eletroquímica. Só conseguiu agora, depois de orientar a linha de pesquisa para a área de petróleo e conseguir apoio da indústria. “Tive de pensar em algo aplicado. Se ficasse esperando um investimento da universidade, estaria só na sala, dando aulas teóricas”, diz Eliane, que, como os outros pesquisadores do instituto, deixa para a unidade de 3 a 10% de suas receitas. É com esse dinheiro e cada centavo de verba suplementar que a direção conseguiu impermeabilizar o teto do bloco e acabar com as “cachoeiras” que se viam nas salas em dias de chuva.
“Aqui, cada dinheiro que entra tem um destino. Aos poucos estamos mudando a cara dos laboratórios e salas, que nem tinham pintura”, conta Cássia Turci, vice-diretora do instituto, que ouve comentários de professores visitantes.
“A reação é sempre de espanto, devido aos contrastes. Há laboratórios de primeiro mundo, mas o banheiro ao lado não funciona.”
Outra saída achada pelos pesquisadores é a venda de serviços. Foi revertendo cada real arrecadado trabalhando para fora em equipamentos que o grupo liderado pelo professor Francisco Radler consolidou o Laboratório de Controle de Dopagem, o primeiro na América Latina a ser credenciado pelo Comitê Olímpico Internacional para realizar exames antidoping.
Radler explica que os exames não são o fim, mas o meio encontrado pelo laboratório para formar profissionais raros no mercado. “Foi tudo feito tijolinho por tijolinho. Se esperar chover na sua horta, não acontece nada”, brinca.
Publicado em 31.05.2004
0 comentários