A imagem do governo Lula está melhorando bastante entre os pobres e a classe média, mas a elite do país continua desaprovando o seu governo. Essa é mais uma tendência que outras sondagens indicavam e a pesquisa CNT/Sensus, divulgada segunda-feira (14), também aponta.
Entre os mais pobres, com renda familiar de até um salário mínimo por mês (um terço do eleitorado), a aprovação do desempenho do presidente Lula no governo, que já estava acima de 50%, subiu quase três pontos percentuais, chegando a 55% no levantamento, que foi realizado semana passada – um saldo positivo de 20 pontos sobre o índice de desaprovação na mesma faixa de renda.
A melhora da avaliação do governo entre os eleitores com renda entre um e cinco salários mínimos (53,5% do eleitorado, segundo a metodologia usada pelo Instituto Sensus) foi um pouco melhor. Subiu oito pontos, encostando no índice de aprovação dos mais pobres (54,1%) e alcançando um saldo de 16 pontos sobre o percentual de desaprovação entre os eleitores com o mesmo perfil de renda.
O crescimento do índice de aprovação na faixa de renda entre cinco e dez salários mínimos (10% dos eleitores) foi o maior na comparação com a pesquisa realizada em novembro. Subiu mais de 14 pontos, chegando a 48,7% e revertendo o saldo negativo de 23 pontos registrado na pesquisa anterior, quando a desaprovação nesse perfil de eleitores atingiu 57,6%. Com a queda para 43,2% de desaprovação, o saldo positivo do desempenho do presidente Lula à frente do governo foi de 5,5 pontos percentuais nesse extrato.
No topo da pirâmide social, os pouco mais de 3% de eleitores com renda familiar superior a dez salários mínimos (R$ 3.200 por mês), a avaliação do desempenho melhorou um pouco, mas o saldo negativo ainda é elevado – cerca de 25 pontos, com 34,4% de aprovação e 59% de desaprovação no segmento. Além dos mais ricos, só no extrato dos eleitores com nível superior a desaprovação é maior que a aprovação. Mas neste caso, a diferença é de pouco menos de cinco pontos – 48,8% contra 44,1%.
A rejeição da maioria da elite ao governo Lula também ficou demonstrada na pesquisa Ibope de janeiro. Naquela ocasião, os eleitores com renda superior a dez salários mínimos (que o Instituto calcula em cerca de 5% do eleitorado total) foram os únicos que não mudaram de opinião sobre o governo. Pelo contrário a diferença entre a desaprovação (67%) e a aprovação (39%) aumentou de 25 para 38 pontos na comparação com a pesquisa feita pelo Ibope em dezembro para a Confederação Nacional da Indústria.
Na pesquisa do Instituto Datafolha realizada no início deste mês, a avaliação negativa (ruim e péssimo) do governo superava a positiva (ótimo e bom) em mais de 20 pontos percentuais no extrato superior da pirâmide social (estimado em mais de 6% na metodologia utilizada). Nesse segmento, dois em cada três eleitores votariam em um dos candidatos tucanos em eventual segundo turno contra o presidente Lula, que teria pouco menos de 25% dos votos da elite.
No levantamento feito pelo Ibope, em janeiro, 40% dos eleitores mais ricos citaram o PSDB como um dos três partidos pelos quais tem maior simpatia ou preferência, enquanto 22% mencionaram o PT, 22% o PFL e 20% o PMDB. Segundo o Ibope, nessa faixa de renda também está concentrado o maior índice de antipatia ao PT, 45%, e de rejeição ao presidente Lula, 38% (no Datafolha sobe para 53% nessa faixa).
A explicação para esse comportamento do eleitorado mais rico não se resume à frustração com o comportamento ético do PT, segundo o professor de Ciência Política da USP Celso Roma. Com base nos estudos que vem desenvolvendo sobre as diferenças entre o PT e o PSDB, a partir de suas origens e estruturas, ele avalia que a prática de governo do presidente Lula não combinou inteiramente com o que a elite espera de um governante.
De acordo com Celso Roma, a elite gosta de estabilidade econômica, consenso na sociedade e previsibilidade política, e o governo do PT só teria confirmado o primeiro dos requisitos. As disputas internas do partido, a coalizão partidária instável e a proximidade com entidades e movimentos sociais identificadas com o conflito de classes, como a CUT e o MST, teriam incomodado os mais ricos, fazendo-os restabelecer a identidade com o PSDB, abalada na eleição de 2002.
“A elite vê com maus olhos o modo como o PT se relaciona internamente e com os outros partidos de sua coalizão, e considera pecado capital acirrar o conflito social no Brasil, a luta entre ricos e pobres”, explica Celso Roma. Para ele, os brasileiros mais ricos esperavam que a moderação no discurso do PT e do presidente também resultasse na moderação na prática, simbolizada, talvez, por uma aliança mais forte com o PMDB e aproximação eventual com o PSDB, o que deixaria o governo independente de apoios eventuais e de pequenos partidos. “Mas o PT optou por coligações frágeis e tenta legitimar o governo só com os índices de popularidade de Lula e discurso inflamado de palanque. Isso irrita a elite”.
Celso Roma acredita que nas próximas eleições a elite tende a escolher o candidato do PSDB para consolidar o projeto representado pelo discurso programático e a prática do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele lembra que, desde 1989, o programa de governo tucano mantém como objetivos centrais a resolução dos problemas da crise do Estado, da crise fiscal e da estabilidade da moeda. “Tal discurso convence muito mais a elite, porque não interfere no status quo”, observa, afirmando que o extrato mais rico analisa o desempenho dos partidos no governo e aprova a gestão FHC. “Exageros à parte, foi quase um governo parlamentarista. A coligação com o PFL e a coalisão de governo que incluiu especialmente o PMDB (também o PPB e o PTB) foi mais estável e previsível politicamente, buscando acalmar os conflitos sociais e valorizando instâncias representativas, como o Congresso Nacional”.
Por outro lado, segundo Celso Roma, a população mais carente tende a apoiar o PT, pois aceita melhor o discurso da igualdade, da distribuição de renda, e vincula ao partido aos resultados concretos ou anunciados das políticas sociais, sejam elas afirmativas, de inclusão social e até assistencialistas.
Considerando que o apoio da elite ao PT não faz sentido em momento algum, pois ela sempre esteve ao lado do PFL, do PSDB e de parte do PMDB, outro pesquisador, o cientista político Fernando Limongi, do Cebrap, acha que o surpreendente foi o PSDB ter perdido o apoio dos mais ricos em 2002. Na avaliação dele, isso ocorreu pelo modo “desastrado” do atual prefeito de São Paulo, José Serra, ter imposto sua candidatura, forçando o rompimento com o PFL (o que teria aniquilado seus palanques no Nordeste) e fazendo críticas ao governo FHC.
Fernando Limongi acredita que a possível recomposição da aliança do PSDB com o PFL será um fator decisivo para que a campanha seja muito disputada este ano. “Com a reconstituição da aliança, PSDB e PFL ficam tão fortes como nas campanhas de 94 e 98. Mas, desta vez, o PT é quem tem o governo na mão, o que deixará a campanha emparelhada e muito complicada”, prevê o pesquisador.
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