ONGs e instituições realizam cursos e outras atividades para ajudá-los a entrar no mercado
Aos 17 anos, Lilian Freire Fiel tem duas preocupações a curto prazo: achar um emprego e entrar numa faculdade. Filha de uma cozinheira e de um pedreiro, ela sonha em chegar muito além do ponto onde seus pais conseguiram alcançar até agora. Mas enfrenta um contexto adverso de desemprego geral. “Preciso começar a trabalhar para ter dinheiro para começar a faculdade. Com o que os meus pais ganham não dá para pagar mensalidade.”
Para dar uma reposta a anseios de jovens como Lilian, organizações não-governamentais (ONGs) e instituições que lidam com juventude estão apostando cada vez mais em receitas que os ajude a entrar no mercado de trabalho. A preocupação – não só com emprego, mas também com educação – se transformou numa tônica entre garotos a partir de 14, 15 anos.
“Todos eles pensam: ‘Não quero ser como as pessoas da minha casa, tanto no que diz respeito a cultura, quanto a trabalho'”, avalia a coordenadora da ONG Associação para Proteção das Crianças e Adolescentes (Cepac), Elizabeth Prado Lopes – que atende 320 jovens numa casa no Parque Imperial, bairro pobre de Barueri, região metropolitana de São Paulo. “Os pais de 80% dos garotos que vêm aqui estão desempregados.”
O Cepac oferece cursos de auxiliar administrativo, informática, português e matemática. Nove garotos estão como aprendizes na multinacional Du Pont.
Outros 100 esperam uma chance.
Na ONG onde Lilian assiste a aulas e desenvolve projetos desde o ano passado, a Gotas de Flor com Amor, no Brooklyn, zona sul da capital, a atenção também tem se voltado para o trabalho.
Até financiadores da instituição entram no jogo. Profissionais da área de recursos humanos do banco francês Societé Générale, por exemplo, passaram a fazer palestras sobre tendências do mercado de trabalho e primeiro emprego aos jovens da instituição. “Não queremos parceiros que nos ajudem com dinheiro e vão embora. A participação deles nas palestras é fundamental”, diz a educadora Célia Marçola, de 37 anos, coordenadora de projetos de comunicação da ONG.
Cerca de 90 adolescentes vêm participando das últimas palestras e oficinas, que tratam desde dicas sobre como se comportar numa empresa, como montar um currículo até simulações de entrevistas de emprego. O Gotas atende a 250 crianças e jovens, dos 5 aos 18 anos.
Para estudante do 3º. ano do ensino médio de Sobradinho, cidade-satélite de Brasília, Karolynne Alves Pereira, a meta mais próxima não é o vestibular, mas um concurso público que a permita ajudar a sustentar a família. Aos 17 anos, ela é estagiária da Caixa Econômica Federal e, assim como Lilian, e faz parte do contingente de jovens brasileiros para quem o maior desafio no momento é ter um emprego.
Perfil – Uma pesquisa divulgada ontem dá bem a medida dessa preocupação. Segundo o levantamento, encomendado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o emprego é o assunto mais importante para 37% dos jovens de 15 a 24 anos em todo o País, atrás apenas da educação, citada por 38% dos entrevistados.
“Tenho muita preocupação em ajudar minha família”, diz a estudante de Sobradinho. Os dois irmãos mais velhos dela estão desempregados. O pai trabalha como caseiro e a mãe é costureira.
Karolynne recebe R$ 390,00 por mês. Para fazer o estágio, passou a estudar à noite. Ela admite que, em termos de qualidade do ensino e preparação para o vestibular, aprende-se mais na turma da manhã. Mas agora só pensa nos concursos públicos.
Em São Paulo, Lilian busca se encaixar nas áreas de vendas, de promoção e marketing. Mas está disposta a agarrar outras chances que aparecerem.
A pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, que ouviu 3.501 jovens em dezembro, mostra que 40% da população de 15 a 24 anos estava desempregada.
Entre os que trabalhavam, 64% estavam no mercado informal.
Segundo o Ministério do Trabalho, há 3,5 milhões de desempregados na faixa dos 16 aos 24 anos, o que equivale a quase metade dos 7,7 milhões sem emprego no País.
Dados do Ministério da Educação apontam que entre os jovens de 15 a 17 anos, 83% estão estudando. O índice cai para 50% na faixa de 18 e 19 anos e para para cerca de 30% entre os com 20 a 24 anos.
Para o ministro da Educação, Tarso Genro, a importância atribuída pelos jovens à carreira profissional, como mostrou a pesquisa, “é agravada pelo atual nível de desemprego”. “Mas a pesquisa registra o óbvio, porque isso sempre foi uma preocupação do jovem no Brasil.”
(Marcos de Moura e Souza e Demétrio Weber)
Publicado em 30.04.2004
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