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Escola brasileira ensina menos que o mínimo

jun 24, 2004 | Geral

Escola brasileira ensina menos que o mínimo
Avaliação do ensino médio revela leve melhora, mas aprendizagem está abaixo do nível esperado

Depois de três anos em queda progressiva, os resultados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), divulgados ontem, mostraram uma pequena tendência de melhora nas provas feitas pelos estudantes. Comemorada pelo Ministério da Educação (MEC), a mudança revela, na verdade, que a escola brasileira ainda não consegue ensinar além do mínimo. Nem mesmo os alunos de colégios particulares chegam, na maior parte dos Estados, a atingir a média considerada adequada para as séries avaliadas. Os resultados mostraram, por exemplo, que apenas 6% dos estudantes terminam os 11 anos de escola com conhecimentos adequados em português para a série em que estão. Em matemática, são 7%. Na 4.ª série do ensino fundamental, 55,4% dos alunos que fizeram a prova conseguem entender frases simples, mas não textos completos. Na última prova, em 2001, a quantidade de estudantes nessa situação era um pouco maior, 59%. Em matemática, 51,6% dos alunos estão dentro do que o MEC qualifica como nível muito crítico ou crítico de aprendizado – estão longe de saber o que deveriam. Foi em português, na 4.ª série, que a pequena melhora na média dos estudantes levou o MEC a ver sinais positivos no horizonte. Em 2001, os alunos dessa série fizeram 165,1 pontos. Na prova de 2003, chegaram a 169,4 pontos. Apesar da diferença positiva, os resultados ainda são 19 pontos inferiores aos de 1995, quando foi feito o primeiro Saeb, e quase 30 abaixo do que o MEC considera adequado para a série – 200 pontos. Nas demais séries, também há uma melhoria nas médias – com exceção de português na 8.ª série -, mas são tão pequenas que o próprio MEC as considera como estabilização. Mera estatística – “Claro que ainda está muito longe do que deveria, mas as médias mostram uma inversão da tendência de queda, o que é positivo”, avaliou Eliezer Pacheco, presidente do Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas em Educação (Inep). As causas dessa reversão seriam, segundo ele, fruto da adequação das redes de ensino que Estados e municípios estão fazendo e também pelo fato de a inclusão de novos alunos, muito forte nos anos anteriores, ter se reduzido. Na análise do educador Carlos Luiz Gonçalves, do Departamento de Educação da PUC-SP, o indicador, muito pequeno, não revela nenhuma mudança na qualidade do ensino. “É uma diferença pequena, quase que podemos dizer que é meramente estatística, pois não houve nos últimos anos nenhuma grande ação ou mudança que pudesse dar outros resultados”, afirma. Particular – Este ano, pela primeira vez, o Inep divulgou os resultados por tipo de escola – particular, municipal e estadual. Descobriu-se que, se o ensino público é ruim, o privado também está longe do ideal. Tanto em português quanto em matemática, a média nacional desses escolas no 3.º ano do ensino médio fica abaixo dos 350 pontos definidos como o adequado para a série pelo MEC. Em português, a média é de 314,2 pontos. Em matemática, 340,5. Ou seja, os alunos estão deixando a escola sabendo menos do que deveriam. Na 8.ª série, em português, a média é de 276,2 – ainda abaixo dos 300 adequados. Nas demais, fica acima do adequado, mas, em boa parte dos Estados, as médias também são ruins. “A provável causa disso é que a formação dos professores não é adequada, o que acaba influenciando também no ensino privado, apesar de os recursos disponíveis serem muito superiores”, disse Pacheco. Para Vera Masagão, especialista em analfabetismo funcional e diretora da ONG Ação Educativa, o quadro pode ser explicado por um conjunto de fatores, formado por investimentos insuficientes, condições precárias de ensino, baixos salários para o professor e falta de estrutura familiar do aluno. “É uma multiplicidade de fatores, que pede também uma intervenção integrada, para manter o aluno na escola, investir no professor e no vínculo dele com o aluno, além de aumentar o gasto do governo na área, hoje muito baixo.”

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