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Escravidão é levada à Justiça nos EUA

abr 1, 2004 | Geral

NOVA YORK – Dez descendentes de escravos entraram com uma ação na Justiça de Nova York, ontem, denunciando por genocídio três grandes empresas às quais reclamam pelo menos US$ 2 bilhões em indenizações. As companhias são a seguradora britânica Lloyds, o banco Fleet Boston e a fabricante de cigarros R.J Reynolds.

Segundo os autores da ação – americanos com origens em Serra Leoa, Níger e Gana, entre outros – a Lloyds segurava os barcos encarregados do transporte de escravos da África à América, o Fleet Boston financiava as operações e a Reynolds comprava a mercadoria para usar em suas lavouras.

– Nos últimos 8 anos, todos os grupos de vítimas do mundo, menos um, teve seu dia na corte. O único grupo que resta são os africanos ou afro-americanos – explica o advogado Edward Fagan, que em 1998 conseguiu que vários bancos suíços pagassem ao Congresso Judaico Mundial US$ 1,25 bilhão no caso dos fundos depositados por vítimas do Holocausto.

Esta não é a primeira vez que a questão do tráfico negreiro com destino aos Estados Unidos, praticado em grande escala até que o país aboliu a escravidão, em 1860, chega à Justiça. A diferença, segundo o advogado, é que o processo é movido por descendentes que podem traçar a árvore genealógica até os ancestrais africanos.

– Agora existe o DNA. E cada um destes indivíduos pode dizer especificamente de onde vem na África, o barco que foi segurado pela Lloyds, o barco que foi financiado pelo Fleet Boston e o que foi (enviado) para a Reynolds – continuou Fagan.

Uma das clientes dele, Antoinette Harrell-Miller, disse que os crimes, cometidos nos séculos XVII, XVIII e XIX, não prescreveram.

– Falo das minhas feridas. Nunca deixei de me perguntar de onde venho, quem é meu povo. Assim, só porque algo aconteceu há muito tempo, não significa que a ferida tenha deixado de afligir os que ficaram feridos – disse Harrell-Miller.

– As companhias (processadas), junto com o governo dos EUA, destruíram nossa identidade. Os denunciamos por genocídio porque tentaram destruir as comunidades, o povo, a língua e a cultura das pessoas que iam se tornar escravos – completa outra cliente de Fagan.

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