A 5ª edição do Fórum Social Mundial, que ocorrerá de 26 a 31 de janeiro de 2005, na capital gaúcha, pretende ser um espaço de práticas e iniciativas exemplares do mundo pós-neoliberal que o movimento altermundista quer construir.
Porto Alegre – O novo desenho da quinta edição do Fórum Social Mundial, que será realizado pela quarta vez na capital gaúcha, de 26 a 31 de janeiro de 2005, pretende criar na cidade um território especial, um espaço para implementar práticas que sejam demonstrativas de todo o ideário do Fórum acumulado até hoje. Instalado neste território, com uma estrutura radicalmente horizontalizada, o Fórum terá sua própria base material de funcionamento alterada. Economia solidária, software livre, consumo ético, moeda social, sustentabilidade ambiental – esses serão alguns dos princípios que devem se materializar no funcionamento diário desse território durante o Fórum. A cerca de seis meses do início do FSM 2005, esse novo desenho, com muitas novidades, está em fase final de planejamento.
Em entrevista à Agência Carta Maior, Jeferson Miola, coordenador do recém-instalado escritório executivo do FSM em Porto Alegre, fala dos desafios para tornar esse modelo realidade. A idéia fundamental, segundo Miola, é de que sejam implementadas, neste território, um conjunto de iniciativas que sejam demonstrativas, que tenham um caráter de exemplaridade em relação ao mundo pós-neoliberal que o Fórum preconiza. Outra característica importante do novo modelo será envolver ao máximo a população da cidade na organização e na realização do Fórum. E o esforço da população de Porto Alegre deverá ser recompensado. A idéia é viabilizar na cidade um conjunto de investimentos e obras que possam se tornar aquisições permanentes, úteis e funcionais, melhorando a infra-estrutura de espaços e equipamentos públicos, revitalizando regiões como a orla do Guaíba e o Cais do Porto. Assim, destaca Miola, o Fórum poderá contribuir também para a geração de novos investimentos e melhorias permanentes para a cidade e sua população.
Agência Carta Maior: Qual o estágio atual de construção do Fórum Social Mundial 2005?
Jeferson Miola: Temos, por um lado, no plano institucional das instâncias de construção do processo do Fórum, um dinamismo político muito intenso refletido especialmente no trabalho que vem sendo feito pelo Comitê Internacional através de suas comissões, em particular a comissão de metodologia, que terá um seminário em São Paulo na próxima semana (terça e quarta-feira). Esse seminário será o primeiro momento de sistematização de todo o esforço que o Fórum fez, e que constitui um valor democrático novo, de discutir internacionalmente a agenda e as estratégias que serão desenvolvidas durante sua etapa mundial aqui em Porto Alegre. Neste encontro teremos o resultado do trabalho dessa comissão de metodologia que vem se esforçando no sentido de sistematizar a consulta da qual participaram mais de duas mil organizações do mundo inteiro, com uma boa presença brasileira. Essas duas mil consultas vão conformar o programa do Fórum, os seus eixos temáticos. Por outro lado, temos o Comitê Organizador, que passa a ser uma instância mais ampliada de coordenação e direção do Fórum no Brasil, trabalhando de forma integrada com o secretariado internacional, que é composto pelas oito organizações que originalmente compunham esse comitê organizador. E nós aqui em Porto Alegre estamos constituindo esse escritório que vai fazer a coordenação executiva do Fórum.
CM: E quais serão os próximos passos desse trabalho?
JM: Nós avançamos muito na definição de um conceito e da arquitetura que o Fórum terá aqui em Porto Alegre. A partir da reunião que tivemos aqui em maio passado, quando discutimos hipóteses para a realização do Fórum, convergimos para uma idéia prioritária. A idéia é de que o Fórum seja realizado em um espaço da cidade que vem do pórtico do Cais do Porto, passando pelos armazéns do Cais, pela Usina do Gasômetro, pelo Parque da Harmonia e indo, através da orla do Guaíba, até o Parque Marinha do Brasil. Além disso, um outro eixo convergirá para o campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e para o Parque da Redenção, onde temos uma importante capacidade instalada. Mais do que isso, valoriza imensamente um espaço que guarda uma grande identidade com a cidade. A idéia que estamos constituindo é que essa área que será utilizada pelo Fórum seja caracterizada como território do Fórum, um território social mundial em Porto Alegre, um espaço que se aproxima enormemente dos elementos simbólicos que fazem parte do imaginário da população de Porto Alegre e da própria cidade, como é o caso da Usina do Gasômetro, do Cais do Porto, do pôr do sol, da Redenção, do Araújo Viana, etc. De outra parte, esse modelo permite que o Fórum estabeleça uma profunda integração dos seus participantes com o conjunto da comunidade de Porto Alegre. Portanto, a idéia é fazer um Fórum que tenha a forte marca de utilizar o espaço público e envolver o conjunto da cidade de Porto Alegre no seu dinamismo.
CM: Em que consiste exatamente essa idéia de um território social mundial?
JM: A idéia fundamental é de que constituamos, neste território, um conjunto de iniciativas que sejam demonstrativas, que tenham um caráter de exemplaridade em relação ao mundo pós-neoliberal que o Fórum preconiza. A idéia, na organização do Fórum e na concretização desse território, é que possamos adotar um conjunto de diretrizes organizativas, políticas, culturais e estéticas que guardem essa identidade com os valores que o Fórum defende na direção da construção de um outro mundo possível.
CM: E como essa idéia se materializa na prática, no cotidiano do Fórum?
JM: Isso representa, por exemplo, ter uma clara prioridade para a economia solidária na ocupação dos espaços comerciais desse território, estabelecendo práticas de consumo ético, de educação, de auto-gestão e de comércio justo. Outro exemplo: viabilizar todas as soluções tecnológicas através de tecnologias não-proprietárias como é o caso do software livre. Além disso, pensamos em incrementar fortemente os dispositivos de comunicação, criando um território que tenha no acesso à comunicação um direito fundamental para que todos os participantes possam se apropriar do que está acontecendo. Queremos que o Fórum seja uma fonte de informação importante, com a transmissão da sua produção intelectual para o mundo inteiro, durante o evento, de forma on-line. Outra idéia é a adoção de uma moeda social, em troca das moedas de valor puramente comercial. Ou então a adoção de medidas que garantam a sustentabilidade ambiental e a integração com a paisagem natural da cidade. Portanto, a idéia desse território não é apenas uma categoria geográfica. Ele é, na verdade, um elemento concretizador e tradutor do espírito do Fórum, das idéias que ele porta sobre a possibilidade de construirmos um outro mundo, que não seja o mundo orientado pela pasteurização que o mercado impõe, inclusive nas soluções técnicas adotadas pela sociedade em escala mundial.
CM: A idéia, então, é introduzir inovações na própria base material de funcionamento do Fórum?
JM: Exatamente. Há uma idéia de Milton Santos que nos ajuda muito neste sentido. Ela diz que a humanidade foi adotando tantos sistemas técnicos quantos fossem necessários para a sua reprodução e para a garantia de uma vida digna. O capitalismo, quando começa a operar em escala, pasteuriza essas soluções e adota modelos técnicos únicos, impondo um mesmo padrão técnico e técnológico para o conjunto da humanidade, independentemente das particularidades de cada população. O neoliberalismo levou esse processo a uma escala planetária, globalizando esse modelo tecnológico como se fosse uma panacéia, independentemente de questões étnicas, culturais, etc. Portanto, o Fórum é a antítese ao neoliberalismo inclusive na sua base material de funcionamento, onde a cultura passará a ter um papel essencial, enquanto uma dimensão integradora e politizadora da relação dos participantes do Fórum entre si e da própria participação de outras pessoas que, muitas vezes, se integram aos processos de mobilização contra o neoliberalismo mas preferem outras formas de expressão que não necessariamente a presença em debates teóricos e políticos, ou a participação em redes e campanhas. Esses são os conceitos que organizam o trabalho que estamos fazendo para construir a quinta edição do Fórum Social Mundial.
CM: E como essas idéias vão se refletir na organização do Fórum?
JM: Do ponto de vista organizativo, estamos pensando em constituir, no perímetro desse território, espaços aglutinadores dos eixos temáticos que estão sendo levantados através da consulta mencionada anteriormente. Queremos constituir estações temáticas, que seriam espaços aglutinadores de temas, de campanhas, de movimentos e estratégias comuns entre os participantes que se identificam com esses temas em particular. A idéia é que essas estações, portanto, conformem um espaço físico adequado para que os participantes possam realizar suas várias iniciativas, sejam elas debates, expressões culturais ou outras tantas iniciativas que serão promovidas de maneira autogestionada. Essas estações também conformariam o que estamos chamando de pólos de multi-serviços, um sistema de atendimento composto por serviços de segurança, de telefonia, de internet, serviços bancários, informação, infra-estrutura sanitária, etc. Por outro lado, também teremos nestas estações espaços de alimentação que serão ocupados prioritariamente pela economia solidária. Elas, as estações, seriam equivalentes aos bairros de uma cidade. Não são pontos onde as pessoas ficam “guetizadas”, mas espaços de passagem e de integração à dinâmica geral do Fórum. Por isso o nome “estações”, inclusive, que dá sentido ao espírito de um Fórum horizontalizado que preserva as singularidades, mas tem dinâmicas combinadas que permitem momentos de grande convergência de massas.
CM: E quanto aos locais das grandes conferências?
JM: Entramos aí na terceira questão organizativa fundamental. A idéia é ter, no perímetro desse território, grandes arenas públicas que permitam aos participantes, no seu conjunto, promover iniciativas comuns, atividades convergentes. Por exemplo, grandes temas estratégicos do debate contemporâneo, com a presença de uma grande referência intelectual mundial. Quais são esses grandes espaços que estamos pensando: Anfiteatro Pôr do Sol, Auditório Araújo Viana, Largo Zumbi dos Palmares e, talvez, o Gigantinho. A idéia é que tenhamos na estrutura do programa uma concepção que combine, por um lado, essa horizontalidade radicalizada que o Fórum vai permitir, e, por outro, uma convergência dos participantes do Fórum em seu conjunto. Portanto, essas duas dinâmicas precisam ser profundamente combinadas, de tal maneira que o Fórum possa ter também como saldo positivo uma combinação das lutas particulares com as lutas globais contra o neoliberalismo, aprofundando a internacionalização desse movimento.
CM: Como vai se dar a articulação desses espaços na cidade e no Fórum?
JM: Estamos pensando na Usina do Gasômetro como centro organizativo e centro geral de comando dessas operações, como um espaço que garante a infra-estrutura fundamental do Fórum: as centrais de imprensa, de informação, de credenciamento para estrangeiros, o comando das operações de tradução e apoio, segurança, internet, assistência, etc. A idéia é fazer da Usina o centro nervoso do Fórum. Uma segunda área importante será o Parque da Harmonia, onde ficará o Acampamento Intercontinental da Juventude, com capacidade para algo em torno de 30, 35 mil jovens acampados. O Anfiteatro Pôr do Sol, que já referi como uma das grandes arenas públicas que vamos ter, juntamente com o Araújo Viana e o Largo Zumbi dos Palmares. Estamos ainda discutindo o aproveitamento ou não do Gigantinho. O Parque da Redenção deve funcionar como um espaço de uma forte interação do Fórum com a cidade, recebendo uma multiplicidade de agendas culturais. A idéia é concentrar ali uma expressão mais internacionalizada da cultura planetária. Além disso, nas estações também deveremos ter espaços para expressão cultural. Também estamos pensando no Ginásio Tesourinha como sede residencial alternativa e na Praça Seca, ao lado da Usina do Gasômetro, como espaço para música, teatro e outras manifestações culturais. E um dos armazéns do Cais do Porto deve ser transformado em espaço de cinema e vídeo.
CM: Há um trabalho gigantesco a se fazer, portanto, para tudo isso estar pronto no final de janeiro?
JM: Estamos agora numa etapa de planejamento, determinando um cronograma, uma linha de tempo e de espaço, com o conjunto de tarefas que precisamos cumprir para viabilizar esse desenho que é inteiramente distinto das experiências anteriores que tivemos no Fórum. Ele exige, inclusive, manobras muito mais complexas, em condições distintas do ponto de vista do comprometimento institucional. Estamos concluindo essa primeira etapa de planejamento e estamos concluindo também uma série de estudos de viabilidade para podemos apreender melhor qual é a capacidade que temos de concretizar esse conceito dentro desse espaço territorial da cidade. A Prefeitura ficou de nos apresentar esses levantamentos prévios nos próximos dias e, a partir daí, estaremos nos debruçando inteiramente na formulação de um anteprojeto arquitetônico que possa nos dar uma visualização mais clara desse território que queremos construir.
CM: E qual a avaliação sobre a recepção da população da cidade a esse desenho do Fórum?
JM: Há uma coisa que esqueci de dizer, que é muito importante para a cidade, para o Estado e para o povo de Porto Alegre. É uma das prioridades que o Fórum vem discutindo e que politicamente já decidiu. É a idéia de que a organização do Fórum aproveite muito a capacidade instalada da cidade. Mas também haverá um grande esforço de construir edificações temporárias. A idéia é que possamos viabilizar na cidade um conjunto de investimentos e obras que possam se tornar aquisições permanentes, úteis e funcionais para a cidade, melhorando a infra-estrutura de espaços e equipamentos públicos, revitalizando a região da orla do Guaíba, recuperando a região do Cais do Porto. Deste modo, o Fórum, a partir do seu esforço construtivo, poderá contribuir para a geração de novos investimentos e melhorias permanentes para a cidade e sua população. Tudo isso, evidentemente, pressupõe de nossa parte uma relação de trabalho muito voltada para o diálogo com o conjunto das representações da sociedade, com o conselho do Orçamento Participativo, todos os agentes econômicos da cidade, associações de bairros (especialmente as mais próximas do entorno do Fórum e também com as esferas governamentais. Queremos construir, portanto, um padrão de interlocução muito amplo e qualificado para fazer com que o Fórum seja apropriado pelo conjunto da sociedade. Como ele já pertence ao imaginário da cidade, creio que será muito bem recebido por toda a nossa população.
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