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FSM: Organizadores querem participação de excluídos

set 2, 2004 | Geral

Organizadores do FSM 2005, que ocorrerá em Porto Alegre, anunciam democratização do processo de escolha dos temas e da gestão dos eventos. Prometem também mudar a cara do público, facilitando presença do excluído geográfico e econômico, como o indígena, o morador de periferia e o quilombola.

São Paulo – A experiência indiana do Fórum Social Mundial (FSM), em janeiro deste ano, trouxe algumas mudanças bastante significativas para a organização e gestão do evento de 2005, que acontecerá em Porto Alegre. A abertura para uma maior intervenção das entidades participantes nos processos decisórios e executivos das atividades do FSM 2004, e a presença massiva de grupos “excluídos” no Fórum de Mumbai levou o corpo gestor do processo FSM – a dizer, o Conselho Internacional (CI), coletivo de organizações internacionais, e a Secretaria-executiva, grupo de oito entidades brasileiras que participaram da criação do FSM, em 2001 – a fazer opção por democratizar o FSM 2005 tanto no tangente às responsabilidades políticas sobre a metodologia, quanto no tocante ao público participante. Como encaminhar na prática essa nova forma de fazer e pensar o FSM foi tema de várias reuniões durante a semana passada, que versaram desde metodologia até estratégias de mobilização.

Em termos de novidade, a primeira grande decisão política, a definição dos temas do FSM 2005 – até então a cargo do CI – foi feita através de uma consulta pública aberta a todas as organizações interessadas. Deste processo, resultou a definição de 11 “estações temáticas” que devem nortear os debates do evento:

1) Afirmando e defendendo os bens comuns da terra e dos povos como alternativa à mercantilização e ao controle das transnacionais;

2) Economias soberanas por e para os povos, contra o capitalismo neoliberal;

3) Paz e desmilitarização: luta contra a guerra, o livre comércio e a dívida;

4) Pensamento próprio, reapropriação e socialização dos saberes, conhecimentos e tecnologias;

5) Defendendo as diversidades, a pluralidade e as identidades;

6) Lutas sociais e alternativas democráticas: contra a dominação neoliberal;

7) Ética, cosmovisão e espiritualidade: resistências e desafios para um novo mundo;

8) Comunicação: praticas contra-hegemônicas, direitos e alternativas;

9) Artes e criação: construindo as culturas de resistência dos povos;

10) Direitos Humanos e dignidade para um mundo justo e igualitário;

11) Rumo à construção de uma ordem democrática internacional e à integração dos povos.

Todas as atividades relacionadas a cada uma das “estações” e seus subtemas (que ainda estão em discussão) devem acontecer de forma centralizada em um único local, para facilitar as articulações políticas e a localização pelo público.

A segunda mudança diz respeito à forma de organização e gestão das atividades. Até então, CI e Secretaria Executiva definiam e organizavam, de certa forma, muitos dos eventos dos FSMs, não apenas estipulando seu caráter mas também convidando – e bancando a vinda – de palestrantes e “grandes estrelas”.

“Isso acabou. Agora, o que temos são apenas grupos facilitadores por estação temática, responsáveis por encaixar as atividades física e temporalmente, e por propor eventuais fusões. Fora a abertura, possíveis marchas e o encerramento, o CI não deve interferir na organização da grade do FSM. Isso quer dizer que cada entidade que propuser uma atividade define também seu caráter – se é oficina, seminário, conferência, painel, mesa de diálogo e controvérsia etc. Também se responsabiliza pelos palestrantes. Quer dizer, não haverá mais convites especiais para as grandes estrelas. Se uma entidade quiser trazer um “grande nome”, deverá bancar os custos”, explica Salete Gamba, membro do Comitê Organizador Brasileiro (COB, coletivo responsável por facilitar a organização do evento e por eventuais definições políticas, tomadas conjuntamente com o CI e a Secretaria-executiva). Neste sentido, também não deve haver espaços muito grandes, já que todo o FSM 2005 acontecerá em instalações construídas (ou já existentes) na orla do Rio Guaíba e em alguns espaços da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Terceira mudança: haverá apenas uma categoria de participantes do FSM 2005 (antes, havia os “delegados” – membros de organizações, que tinham acesso a atividades restritas – e os ouvintes – militantes individuais). Será fixado um custo de inscrição – valor a ser definido – para as organizações que desejam realizar atividades, e valores diferenciados de inscrição para os participantes (brasileiro, latino-americano, africano ou asiático devem pagar cerca de 15% do valor pago por originários de “países ricos”).

E por falar em valores, a quarta e talvez mais importante inovação do FSM 2005 é o investimento na mudança do perfil dos participantes do evento, cuja origem, nos últimos Fóruns de Porto Alegre, era majoritariamente do que se conhece como terceiro setor. Ou seja, os assim chamados “excluídos”, em muitos casos centro dos debates do FSM, pouca representação tiveram nos eventos passados; muito em função da falta de recursos, mas também por conta do pouco envolvimento nos debates sobre o processo FSM.

Para corrigir esta falha, o COB deve investir pesado num processo de mobilização de grupos indígenas, quilombolas, povos das florestas, sertanejos, moradores das periferias do país de dos grandes centros urbanos, no sentido não apenas de “viabilizar uma maior presença popular por parte dos setores oprimidos da população”, como também “tornar o Fórum mais amigável para as atividades dos grupos representativos destas populações” (documento da Proposta de Mobilização do FSM 2005).

Para isso, as organizações do COB devem fazer, inicialmente, um mapeamento do perfil dos participantes dos Fóruns anteriores, para avaliar quais segmentos necessitam de mais envolvimento, ao mesmo tempo em que se buscará incluir a agenda de atividades dos diversos movimentos em um grande calendário de mobilização pré-FSM. Posteriormente, cada Estado deve definir uma agenda de trabalho junto aos grupos-alvo em sua região e, onde for possível, formar Comitês Estaduais de Mobilização. A Secretaria-executiva se comprometerá, paralelamente, a produzir uma série de materiais de divulgação.

“Desde o ano passado, quando começamos a discutir a problemática da não-participação de movimentos e grupos geograficamente distantes e economicamente desfavorecidos, trabalhou-se na idéia da criação de um Fundo de Solidariedade nacional, para o subsídio da viagem e da participação de organizações brasileiras, e um Fundo Internacional, coordenado pelo CI, para facilitar a vinda de participantes asiáticos e africanos. Os critérios para a distribuição dos recursos seriam distância, região, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) comprometido, além de grupos-alvo como os já citados, de estudantes, movimentos sociais e mulheres”, explica Salete. Segundo ela, tanto o COB quanto o CI estão buscando financiamentos para a constituição desses fundos.

Política

Apesar de manter o princípio de que, em sendo um espaço de convergência de múltiplas idéias e correntes sociais e políticas, o FSM não define ações, o evento de 2005 deve facilitar a articulação de lutas e movimentos, no sentido de se ter uma agenda ampla de ações políticas encabeçadas por coletivos de organizações e socializadas para todos os participantes. Para isso, foi reservado um período em cada um dos quatro dias de trabalho do FSM 2005 para as reuniões e articulações dos movimentos e organizações.

Segundo Salete, essa foi uma forma de conciliar a demanda de grande parte dos movimentos sociais, que queriam um FSM mais político e atuante, com a sua carta de princípios. Ou seja, o Fórum continua não produzindo uma declaração final, mas todas as articulações e bandeiras de luta devem ser apresentadas por seus idealizadores ao coletivo de participantes no final do evento, para integrar a agenda altermundista proposta no FSM 2005.

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