O PT foi campeão de votos no país, mas dos 20 parlamentares do partido que disputaram as eleições, só 2 foram eleitos. Para petistas, a questão financeira pesou em várias candidaturas: para muitas faltou dinheiro; para outras, os recursos foram destinados a campanhas de marketing equivocadas.
Brasília – Campeão na soma de votos por todo o Brasil, o Partido dos Trabalhadores (PT) viu sua bancada federal do Congresso “patinar” na disputa pelas prefeituras. Concorreram às eleições municipais 20 deputados e deputadas federais e uma senadora petista. Apenas dois foram eleitos e cinco seguem para o segundo turno, marcado para o próximo dia 31 de outubro.
Dois terços dos concorrentes petistas – mais precisamente 14 parlamentares – já foram derrotados nas urnas. Foram eleitos Antônio Nogueira, em Santana-AP, e Ary Vanazzi, em São Leopoldo-RS. Disputam o segundo turno a senadora Ana Júlia Carepa em Belém (contra o também senador Duciomar Costa, do PTB), a deputada Telma de Souza em Santos-SP (contra João Paulo Tavares Papa, do PMDB, atual vice-prefeito), e os deputados Lindberg Farias em Nova Iguaçu-RJ (contra Mario Marques, do PMDB) e Rubens Otoni em Anápolis-GO (contra Pedro Sahium, do PSB). Maria do Rosário, candidata a vice na chapa encabeçada por Raul Pont em Porto Alegre-RS, completa a lista dos parlamentares do PT que estão se preparando para a campanha de segundo turno.
Em termos de porcentagem, o índice de derrotados do PT não supera a média geral dos parlamentares que se lançaram candidaturas nos seus respectivos municípios. Levantamento geral entre os congressistas aponta que 65 dos 92 parlamentares (ou seja, 70,65% deles) que disputaram as eleições do último domingo foram derrotados logo na primeira fase do pleito. Entre os petistas, esse mesmo índice que afere o tamanho comparativo do fracasso nas urnas chegou a um terço (ou 66,6%). Os parlamentares petistas perderam em Joinville-SC (Carlito Merss), Natal-RN (Fátima Bezerra), Uberlândia-MG (Gilmar Machado), Cruzeiro do Sul-AC (Henrique Afonso), Ipatinga-MG (João Magno), Rio de Janeiro-RJ (Jorge Bittar), Campinas-SP (Luciano Zica), Betim-MG (Maria do Carmo Lara), Salvador-BA (Nelson Pellegrino), Jaboatão dos Guararapes-PE (Paulo Rubem Santiago), Novo Hamburgo-RS (Tarcísio Zimmermann), Campo Grande-MS (Vander Loubet), São Bernardo do Campo-SP (Vicentinho) e Chapecó-SC (Vignatti).
Não se pode negar que a conjuntura foi um fator favorável à candidatura dos petistas. Ainda embalados pelo rescaldo da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 e favorecidos pelos (ainda frágeis, mas alentadores) sinais de crescimento da economia, o PT se expandiu como partido de porte nacional (leia “PT se firma como sigla nacional e PSDB, como anti-PT” e “Resultado do 1º turno sinaliza ameaça à reeleição de Lula”). Essa expansão, porém, não foi regular nem retumbante como demonstram as derrotas municipais de seus representantes no Congresso.
A reportagem da Agência Carta Maior entrevistou alguns parlamentares petistas que não lograram êxito, para encontrar características comuns que marcaram não só as derrotas, mas também o desempenho do PT em geral. A influência do poder econômico nas eleições vem pressionando os petistas por dois lados. Em municípios de menor visibilidade, os candidatos ainda carecem de recursos financeiros para fazer frente aos representantes tradicionalmente ligados às elites econômicas. Em muitos desses casos, as candidaturas não conseguiram se diferenciar das demais e ganhar “competitividade”.
“Fiz campanha à pé”, destaca o deputado Paulo Rubem Santiago, derrotado nas eleições para a Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes. Ele se queixou também da ausência do tempo de tevê (horário eleitoral gratuito) para mostrar as suas propostas e do escasso apoio do PT nacional.
Em outros casos, porém, nem o apoio da cúpula do partido garantiu um bom desempenho. Vicentinho, que disputou a prefeitura de São Bernardo do Campo com o apoio pessoal do presidente Lula, não tem queixas a respeito da estrutura de campanha. Para ele, a boa avaliação do atual prefeito William Dib, do PSB, foi determinante para o resultado das eleições. “A boa administração do meu adversário definiu as eleições”.
O caso de Vicentinho remete à outra face que a influência da pressão econômica exerceu sobre os candidatos petistas. Notadamente em cidades de médio e grande porte, o PT teve dificuldade em emplacar seus candidatos justamente por ter optado por campanhas políticas guiadas por pesquisas de opinião encomendadas e pela monumental influência das estratégias de marketing. Ambas, por sinal, custam muito caro.
Para Gilmar Machado, que também reclamou da escassez de recursos, a introdução de instrumentos de campanha, como a contratação dos chamados “militantes pagos”, e do abuso do poder econômico na determinação do voto cresceu enormemente nas eleições que estão em curso. “E o problema é que isso não se restringe apenas aos políticos de direita. A esquerda também adotou essa prática. Não acredito em militância ”paga” e vou questionar isso dentro do partido”.
Na opinião de Machado, o emprego desses artifícios colabora ainda mais para a consolidação de uma “geléia-geral” político-ideológica oferecida ao eleitor. Para efeito de ilustração, alguns parlamentares chegaram a ressaltar inclusive que o partido já vem sofrendo dificuldade em circular nas universidades, principalmente por causa da Reforma da Previdência já concluída, e da anunciada Reforma Universitária. “O pragmatismo vem minando o sonho”, dizem.
E o PTB aproveita
Enquanto o PT “patina”, o PTB cresce com o apoio do governo e ganha espaço na confusão da “geléia-geral”. Dos dez parlamentares do PTB que concorreram, três deputados foram eleitos – José Carlos Elias (em Linhares-ES), Rommel Feijó (em Barbalha-ES) e Ronaldo Vasconcellos (vice de Fernando Pimentel, do PT, em Belo Horizonte-MG), e dois foram para o segundo turno.
Sandro Matos enfrenta Uzias Mocotó (PMDB) e ainda pode ser prefeito de São João do Meriti-RJ. Em Belém, no entanto, as duas forças vão se enfrentar com dois “pesos pesados”. Apenas um vencedor sobrará do enfrentamento entre o senador Duciomar Costa (PTB) e a senadora Ana Júlia Carepa (PT).
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