Pesquisa divide em duas categorias quem sabe escrever e ler de forma precária
Nascida na zona rural de Vitória da Conquista, Bahia, numa família com mais dez irmãos, Alcione Brito Almeida, de 32 anos, cursou apenas até a 2.ª série do ensino básico. “Fui trabalhar na roça com meu pai e meus irmãos.”
Alcione mudou para São Paulo aos 17 anos. “Só consegui trabalho em casa de família.” Hoje, passados 15 anos, continua trabalhando como doméstica e sabe a falta que faz o domínio da escrita e da leitura. Ela consegue escrever o próprio nome e ler algumas palavras, mas não é capaz de entender um texto de jornal, por exemplo. “Me confundo com as letras e as palavras”, diz. “Consigo entender apenas algumas partes, outras tenho de pular. Queria ler livros, saber mais, mas não dá.”
Só 25% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são capazes de ler, entender totalmente o que está escrito e escrever corretamente, enquanto 8% são analfabetos. Outros dois grupos, nos níveis 1 e 2 de alfabetização, são analfabetos funcionais. Embora saibam ler e escrever como Alcione, não têm como usar esse conhecimento para entender mais de uma frase. Representam, respectivamente, 30% e 37% da população.
Os dados constam de uma pesquisa realizada com 2 mil pessoas em todo o País pelo Instituto Paulo Montenegro/Ibope em parceria com a organização não-governamental Ação Educativa. Os números são diferentes dos do IBGE, para o qual 12,9% da população é analfabeta e 31,2%, analfabeta funcional.
Um dos destaques do trabalho do Ibope, divulgado ontem, é o aumento, entre 2001 e 2003, da diferença entre homens e mulheres no nível 3, o dos plenamente alfabetizados. Fazem parte do grupo 29% das mulheres e 21% de homens, ante, respectivamente, 28% e 24% em 2001.
Ainda em relação a 2001, o índice de analfabetos caiu de 9% para 8% e o de analfabetos funcionais do nível 1, de 31% para 30%. O porcentual de alfabetizados de nível 3 sofreu redução de 26% para 25%, variação que permanece dentro da margem de erro da pesquisa.
“O que explica esses números é o nosso brutal déficit educacional. Cerca de 60% da população não teve oito anos de estudo”, explica a secretária-executiva da Ação Educativa, Vera Masagão. Para reduzir o analfabetismo funcional, que causa queda de U$S 6 bilhões anuais na produtividade dos brasileiros, ela sugere dar maior ênfase no ensino à leitura e à escrita.
O Brasil reduziu consideravelmente os níveis de analfabetismo nos anos 90. Em 1991, o índice era de 19,7%. Em 2000, 12,8% – uma queda de aproximadamente 35 milhões de analfabetos para 17,5 milhões.
Segundo José Eustáquio Romão, diretor da ONG Instituto Paulo Freire, a redução de investimentos nos projetos de educação de jovens e adultos nos últimos anos pode ter elevado o total de analfabetos para 20 milhões, cálculo que serviu de base para o Brasil Alfabetizado. A ONG considera analfabetos funcionais 60 milhões de brasileiros.
(Moacir Assunção, Evanildo da Silveira e Marcos de Moura e Souza)
Fonte: O Estado de São Paulo
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