Na mesma semana em que foi acusada de ter causado a cassação e o ostracismo político de um de seus principais dirigentes, publicação é usada pelo PMDB do RS para acusar governo Lula de promover “escalada de autoritarismo” no país.
Porto Alegre – A revista Veja teve um papel destacado no primeiro dia da propaganda eleitoral gratuita de rádio e televisão na capital gaúcha. E justamente na semana em que a publicação foi acusada de ter patrocinado uma acusação sem fundamento contra o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro (PMDB). Acusação que valeu a cassação do mandato e o ostracismo político de uma das principais lideranças do PMDB gaúcho. Por incrível que pareça, foi o próprio PMDB que recorreu à última edição da revista, não para criticar o que foi feito com Ibsen, mas para desferir um duro ataque ao governo Lula, acusando-o de flertar com o autoritarismo.
A capa de Veja, com a manchete “Tentação Autoritária”, abriu o primeiro programa eleitoral do PMDB em Porto Alegre, ocupando o espaço que deveria ser dedicado aos seus candidatos a vereador. As polêmicas em torno da proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo, da Agência Nacional de Audiovisual e da Lei da Mordaça foram as primeiras armas usadas pelos peemedebistas, chamando o PT para a guerra.
O senador Pedro Simon (PMDB-RS) valeu-se da matéria da Veja e de editoriais e artigos publicados na Folha de S. Paulo, Zero Hora e outros jornais para denunciar a existência do que chamou de “escalada autoritária” no país, que estaria sendo patrocinada pelo PT e pelo governo Lula. Chamando o PT de antigo aliado da luta pela redemocratização, que teria traído esse ideal, Simon disse que o “velho MDB de guerra” não vai permitir que o autoritarismo retorne ao país. Repetindo o mesmo programa no rádio e na televisão, o PMDB optou por uma mudança radical em relação ao discurso que elegeu o governador Germano Rigotto, nas eleições estaduais de 2002.
Na última campanha, o PMDB navegou na linha “paz e amor” e defendeu a necessidade de “pacificar” o Estado, polarizado justamente entre seu ex-governador, Antônio Britto (que migrou para o PPS), e o candidato do PT, Tarso Genro. Enquanto as campanhas de Tarso e Britto brigavam entre si, Rigotto correu por fora com seu programa de amor e pacificação, ganhando a disputa.
Inversão de papéis entre PMDB e PPS
Dois anos depois, o “velho MDB de guerra”, como disse o senador Simon, está de volta, deixando de lado o ideário pacifista da campanha de Rigotto e chamando o PT mais uma vez para a guerra. Configura-se, assim, uma curiosa inversão. A julgar pelo primeiro programa, o candidato do PMDB, Mendes Ribeiro Filho, vai encarnar a figura de Antônio Britto, até 2002 o principal adversário do PT no Estado. E quem está fazendo o papel do candidato pacificador, em 2004, é o ex-senador José Fogaça, do PPS, partido pelo qual Britto concorreu nas últimas eleições estaduais. Em seu programa, Fogaça fez das belas paisagens de Porto Alegre a principal arma para afirmar sua candidatura. Fez um programa de apresentação sem ataques, tentando explorar a figura do senador e radialista Ségio Zambiasi, muito popular na capital gaúcha.
A inversão de papéis entre PMDB e PPS mostra, aliás, que a suposta pacificação que teria sido praticada pelo governador Germano Rigotto não passa de uma ficção. As duas principais forças políticas do Estado permanecem, com dois projetos claramente distintos, disputando corações e mentes da população gaúcha. Essa inversão também não chega a ser surpreendente uma vez que o PPS gaúcho hoje é controlado por ex-peemedebistas ligados ao ex-governador Antônio Britto. A linguagem agressiva usada no primeiro programa do PMDB reavivou a memória dos gaúchos para a disputa em curso no Estado, e que havia sido colocada na sombra pela retórica pacifista de Rigotto.
Novos discursos e sombras do passado
Colabora para isso também a progressiva tendência do atual governo estadual em retomar teses que foram implementadas, com uma inflexão mais agressiva, na gestão anterior do PMDB (governo Antônio Britto). A recente proposta de terceirização da administração do setor penitenciário rompeu com uma lógica discursiva que dizia que não havia mais espaço político para falar em privatizações. Sem dinheiro para investir e cumprir promessas de campanha e penando para pagar a folha salarial mensal do funcionalismo, o setor privado volta a ser convocado para assumir tarefas que hoje são do Estado. Com um cuidado discursivo particular: não se trata de privatizar, mas sim de terceirizar.
Na tentativa de afastar-se do estigma do neoliberalismo praticado em passado recente, os autores dessa proposta apóiam-se na idéia das parcerias público-privadas, patrocinada pelo Governo Lula. Além disso, assumem um discurso neocomunitarista que, ao invés de falar em privatizações, faz a apologia do voluntariado e de ações não-governamentais como forma de enfrentar os problemas sociais. Com variações próprias a cada um desses discursos, o papel do Estado e da esfera pública permanece sendo visto como um entrave a ser superado.
Uma isca para o PT?
Neste cenário, o PT e os partidos que integram a Frente Popular em Porto Alegre (PCdoB, PCB, PL, PSL, PTN e PMN) apresentaram, na estréia da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, um programa afirmativo de algumas das conquistas dos 16 anos de Administração Popular na capital, começando a apresentar sua nominata de candidatos a vereador. Líder em todas as pesquisas realizadas até aqui, o candidato Raul Pont vem procurando realizar uma campanha afirmativa do que já foi feito e de suas propostas para o futuro da cidade. Nos primeiros debates, como era de se esperar, foi o alvo privilegiado dos demais candidatos que elegeram temas como segurança, saúde e educação para bater firme na administração petista.
Exceção feita ao candidato José Fogaça que parece apostar na estratégia vitoriosa de Rigotto em 2002. Naquele ano, o candidato do PPS (Britto) fez o papel de cão de briga e o PT acabou mordendo a isca, gastando mais tempo de seu programa eleitoral nesta disputa do que na afirmação do governo que representava. Bem comportado, o candidato do PMDB (Rigotto) passou ao largo da briga e chegou ao Palácio Piratini. Agora, em 2004, é o PMDB que mostra os dentes no início da campanha, enquanto o PPS aposta na rejeição do público às brigas na campanha eleitoral. Resta saber, se o PT e a Frente Popular morderão a isca.
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