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Preconceito contra o Brasil é recorrente no NYT

maio 20, 2004 | Geral

 

A maneira como o Brasil é retratado por um dos maiores jornais do mundo, o norte-americano The New York Times, reflete uma abordagem preconceituosa centrada na associação do Brasil a temas prevalentes sobre a violência, miséria, meninos de rua, misticismo e trabalho escravo, além de textos negativos recorrentes. A análise faz parte da dissertação de mestrado em lingüística defendida pela pesquisadora e tradutora Regina Vieira Martins, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Formada em Letras e Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo, especialista em tradução pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a pesquisadora é hoje doutoranda na Unicamp em lingüística. Pelo período de 1985 a 2001, ela analisou artigos compilados na biblioteca de Washington (EUA) e, em sua avaliação, o tratamento dado ao Brasil pelo jornal enfoca prioritariamente problemas sociais sob uma percepção tendenciosa.

“Há uma grande diferença, por exemplo, em como a miséria é retratada no Brasil e como é retratada nos Estados Unidos. Nos artigos sobre a miséria norte-americana, a linguagem é científica, com dados, fatos, com fonte dos fatos. Sobre o Brasil todos os artigos têm a percepção e enfatizam que a miséria e pobreza são frutos da má administração pública”, disse.

Ao longo do trabalho, disse a pesquisadora, foram encontrados textos com afirmações sem equivalência com a realidade, mas apresentadas como verídicas. “Eles dizem, por exemplo, que nunca acabou a escravidão no Brasil, que ela continua e que a abolição foi fictícia”, cita.

Para a pesquisadora, o jornal adota ainda um tom de reverência em relação aos países europeus quando trata do Brasil. “Na conclusão final da minha tese mostro que há dois Brasis na concepção deles; o Brasil do Sul, onde a boa administração capitalista acontece, e o resto do Brasil. Eles demonstram inclusive uma reverência à Europa e chegam a destacar o fato de os estados do Sul são desenvolvidos apenas porque colonizados por europeus. Há discurso semelhante no Brasil, mas nesse caso é um olhar de outra cultura”, disse.

A apresentação da dissertação traz um trecho de artigo publicado em 1999 pelo correspondente Larry Rohter, cujo texto recente sobre a suposta “preocupação nacional” sobre o hábito de “bebericar” do presidente Lula provocou o cancelamento de seu visto de permanência no país.

No trecho, Rohter afirma que o Brasil considera a si mesmo como um arco-íris racial, com mais de 60 termos para designar variações de cor de pele. “Que vão de preto, para alguém preto como Pelé, até `brancarão´, para uma pessoa que tenha pele extremamente clara, mas de raça mista. Falar em raça mista é algo preconceituoso, porque pressupõe alguém de raça pura”, afirma a pesquisadora.

“É uma prática deles. Há uma atitude com olhar preconceituoso. Não cabe ficar enfatizando e apresentar situações como um selo de identificação do país, não cabe localizar geograficamente, porque miséria e problemas sociais ocorrem em todo o mundo. É uma forma de construir e criar uma identidade negativa para o país. Isso é sério, porque têm repercussões em todas as áreas”, conclui.

admin
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