Reitor da Universidade das Nações Unidas afirma que Estado não
pode sustentar sozinho instituições de ensino superior
CUIABÁ (MT) – Reitor da Universidade de Ultrecht (Holanda) por 11 anos, Hans Van Ginkel dedica-se a estudar a situação da universidade no restante do mundo desde o início da década de 1990. Atualmente ele é reitor da Universidade das Nações Unidas (UNU), sediada em Tókio (Japão). Palestrante da mesa Repensando a Universidade para o Século XXI, pela 56ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – realizada na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) -, Ginkel tocou em ponto delicado: o financiamento das universidades públicas. Para ele, o Estado não tem condições de sustentar essas instituições. “Os alunos devem pagar taxas”, defende.
Embora não tenha especificificado se essa taxa seria mensalidade ou anuidade, o especialista considera um absurdo esperar que o ensino superior tenha no Estado sua única fonte de investimentos. Projetando um cenário futuro para as instituições, aposta em uma redução no número de cursos por universidade e acredita que cada uma delas deve investir em potencializar seus pontos mais fortes, conceito adaptado da economia. “Cada instituição deve escolher seu perfil, não é lógico investir em diversas áreas. Aplicando o que têm em focos específicos, fica mais fácil obter apoios e parcerias”, ensina.
NOVAS FONTES – Para ele, o perfil da universidade do futuro é mais empreendedor, capaz de estabelecer parcerias com o setor público e o privado (instituições, fundações…). “Seria uma espécie de negócio baseado no bem público e com finalidade pública”, explica. Ginkel mostra que até um terço do orçamento das universidades pode e deve vir de parcerias com instituições privadas. Para ele, o caminho é depender cada vez menos dos investimentos públicos e atrair novas fontes de recursos.
Mas, ao mesmo tempo em que defende isso, afirma que o caráter da educação deve realmente ser público: “O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) defendem, desde a década de 1980, redução do papel do Estado no ensino superior para favorecer a educação básica. Isso é um erro de concepção porque precisa haver equilíbrio entre os dois”. Para ele, nenhum governo pode perder o controle sobre o ensino superior (seja ele público ou privado), muito menos sobre cursos estratégicos para o país, como Medicina, Educação, Engenharia e outras áreas de Tecnologia.
PAPÉIS GLOBAIS – Ginkel explica que cabe à universidade criar um espaço global de aprendizado para o desenvolvimento sustentável. Ele acredita que a cada vez mais rápida evolução tecnológica criou uma situação de constante mudança e interconexão. “As universidades não podem isolar-se desse contexto e precisam preparar seus estudantes para executarem papéis globais já durante a graduação”, aposta.
Para ele, a quantidade de conhecimento disponível é duplicada a cada cinco anos. Assim, quando se forma, o graduado já sai da universidade com sabedoria obsoleta. “A vida útil do conhecimento é cada vez mais curta”, afirma. Por isso, a graduação do futuro envolveria um curso com fase inicial bem geral e a parte especializada durando a vida inteira dos estudantes, indica o reitor da UNU. “A produção de conhecimento pesquisa deve ser constantemente reavaliada”, destaca.
A 56ª Reunião Anual da SBPC segue na UFMT, em Cuiabá, até 23 de julho.
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