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Stédile fala na conferência por uma educação no campo

ago 5, 2004 | Geral

Avaliação de João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foi endossada pelo ministro da Educação, Tarso Genro. Para ambos, só a mobilização social gerada por uma formação mais qualificada mudará o país.

Brasília – Se tivesse que ser resumida em um único adjetivo, a II Conferência Nacional por uma Educação do Campo que começou nesta segunda-feira (2) seria chamada apenas de “estratégica” pelos quase mil participantes que estão reunidos em Luziânia, município goiano que compõe a região do entorno do Distrito Federal.

Para os movimentos sociais e sindicais rurais, o encontro marca a mobilização por um novo patamar da educação para a população que vive no campo, onde uma criança tem oito vezes menos chance de ser alfabetizada de acordo com dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A importância “estratégica” ficou transparente nas palavras de João Pedro Stédile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), durante a cerimônia de abertura. Na opinião dele, a questão ganha mais relevância porque vem em um momento chave em que o Brasil vive uma crise de projeto. “O país está numa encruzilhada”, resumiu, lembrando um discurso de Fidel Castro, presidente de Cuba em que o comandante disse que hoje a libertação do povo não se faz com fuzis, mas com “lápis e caneta”.

À platéia que lotava o auditório, Stédile explicou que desde que o modelo de industrialismo “dependente” (que vigorou da década de 30 até os anos 80) estagnou, a elite vem tentando emplacar o modelo neoliberal no país. “Derrotamos o neoliberalismo nas eleições, mas ainda não foi suficiente”, disse o líder do MST, para o qual o modelo ainda está presente na imprensa, no governo, nas administrações estaduais e municipais, nas universidades e chega até às escolas. Para ele, a educação do campo é “descartável” e acaba no rol de políticas do Ministério do Transporte porque requer apenas automóveis do tipo perua para tirar o povo do campo.

A tese apresentada por Stédile foi inteiramente endossada pelo ministro da Educação, Tarso Genro. Foi o ministro aliás quem afirmou que o modelo de desenvolvimento do Estado brasileiro ainda não conseguiu de desvencilhar do capital financeiro especulativo que usa e abusa da chantagem relativa à dívida pública. “Não haverá nenhuma mudança e nenhuma transição se não houver um movimento de fora para dentro”, afirmou categoricamente o ex-prefeito de Porto Alegre, reforçando ainda mais concepção “estratégica” da Conferência.

“As grandes mudanças sociais que se dão dentro da democracia só existem quando a cidadania participa ativamente colocando as suas propostas e pressionando democraticamente. Não existe nenhum paradigma de mudanças – a não ser em ditadura – que não tenha vindo também de fora do governo”, complementou. “Uma sociedade que não tem movimentos sociais ativos é uma sociedade doente. É uma sociedade que tem déficit democrático. A participação e indução dos movimentos sociais é chave para que as mudanças se dêem dentro da cidadania”. Mudanças essas que o ministro disse acreditar que ganharão mais espaço na agenda nacional em breve: “Nós já retomamos o crescimento e agora temos que ter políticas fortes de transição para um modelo de desenvolvimento que implique em geração e distribuição de renda e aumento das taxas de crescimento”.

O sinal do governo, segundo o ministro, já foi dado na edição do último sábado (31). “A partir de agora nós temos uma Secretaria Especial da Alfabetização e da Diversidade e uma coordenação especial para a educação no campo que vai tratar especificamente dessa questão incorporando contribuições magníficas como as que vêm dessa conferência”. Para completar, Tarso Genro reclamou da “lógica selvagem das privatizações” e fez uma defesa veemente da vinculação das verbas da sua pasta. “Educação não é política pública secundária que possa ser contingenciada”.

Retomando Paulo Freire

Especialista em educação popular, o professor Miguel González Arroyo, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explicou que as experiências que vem sendo realizadas com os movimentos sociais camponeses são uma prova do potencial que a educação campo pode desempenhar como vértrice da transformação social.

“Às vezes se fala muito mal da educação do campo e rural. Há motivos. Realmente, há muito descaso, muito abandono. O jovem do campo não tem perspectivas. Não tem condições de estudar mais do que até a 4a série [do ensino fundamental]. Isso tudo precisa ser falado. Mas você tem que falar também de uma outra realidade, que é o trabalho que vem sendo pela diverisdade de movimentos do campo e pelo movimento sindical”, sublinhou Arroyo. “Se a educação pública do campo está abandonada, a educação dos movimentos sociais hoje é uma das fronteiras mais avançadas do movimento pedagógico brasileiro”, afirmou o ex-secretário municipal de educação de Belo Horizonte.

Para o especialista, o que há de mais interessante na educação do campo dos movimentos sociais e sindicais é que eles estão recolhendo tudo que havia de mais progressista na concepção pedagógica, didática, de currículo e de formação de professores. “Quem está retomando toda pedagogia de Paulo Freire, todo o movimento de educação popular dos anos 60 e 70 no Brasil são eles. Isso traz muita esperança”.

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