O novo secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, assume com o propósito de dar uma nova dinâmica às questões da sua área dentro do próprio partido. Em entrevista ao Portal do PT, ele afirmou que espera maior participação da direção e da militância nos temas que dizem respeito à esquerda mundial.
“A grande mudança que espero conseguir implementar diz respeito a ampliar o envolvimento do conjunto do partido, em particular de sua direção nacional, no debate e na execução da política de relações internacionais”, diz.
Autor da proposta de que o PT apoiasse os protestos contra o presidente norte-americano George Bush, durante sua visita ao Brasil, Pomar reafirma a solidariedade petista a governos de esquerda – como os de Cuba, Venezuela e Uruguai – e a oposição ao neoliberalismo norte-americano.
“Nossa preocupação é fortalecer todos aqueles – governos, partidos e movimentos sociais – que querem construir um mundo baseado em outras premissas”, explica.
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
A partir de uma proposta de sua autoria, o Diretório Nacional do PT decidiu apoiar as manifestações contra George Bush no Brasil. Há quem veja nisso motivo de constrangimento para o governo brasileiro, que mantém boas relações com o norte-americano, e para o próprio PT, por ser o partido do presidente Lula. Você concorda com isso?
Não concordo. Constrangidos ficaríamos se o Partido dos Trabalhadores não apoiasse as manifestações convocadas pelos movimentos sociais, em particular a CUT, a UNE e o MST. Afinal, o PT sempre se opôs ao neoliberalismo armado implementado pelo governo norte-americano. Quem vê na decisão do Diretório Nacional algum tipo de antagonismo com a posição do governo, é porque não percebe que partido e governo cumprem papéis diferenciados, nos marcos de uma mesma política externa. O governo não pode dizer e fazer coisas que os partidos de esquerda e os movimentos sociais podem dizer e fazer.
Neste momento, ocorrem na Argentina a Cúpula das Américas, com a presença dos chefes de Estado, e a Cúpula dos Povos, que reúne movimentos sociais e se contrapõe ao evento oficial. O PT, por ser um partido de esquerda no governo, acaba participando das duas. Até que ponto isso pode colaborar para o diálogo entre as posições antagônicas?
Nossa preocupação, enquanto Partido, não é colaborar para o “diálogo” entre opositores e defensores do governo Bush. Nossa preocupação é fortalecer todos aqueles, governos, partidos e movimentos sociais, que querem construir um mundo baseado em outras premissas, que não as do neoliberalismo. É por isso, por exemplo, que devemos ser solidários com Cuba, Venezuela, Uruguai.
O presidente Hugo Chávez, da Venezuela, promete levar a proposta da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) ao encontro de cúpula. Na outra ponta, Bush pretende colher adesões à Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Quais as principais diferenças entre as duas e qual a posição do PT neste debate?
Achamos importante que o presidente venezuelano detalhe a proposta da Alba, pois assim poderemos tomar conhecimento e debatê-la no interior do Partido. Quanto à Alca, a posição do Partido é pública: da forma como ela é proposta pelo governo norte-americano, prejudicará ainda mais a soberania dos países latino-americanos. Como alguns governos, entre os quais o brasileiro, têm se oposto a este modelo de integração, os Estados Unidos estão forçando vários países a realizar acordos bilaterais.
Quais bandeiras o PT tem em comum com os demais partidos de esquerda da América Latina? Nesses pontos, a SRI pensa em realizar ações conjuntas?
O PT tem uma tradição muita intensa de cooperação internacional, especialmente com os partidos de esquerda da América Latina. Uma prova disso foi a criação do Foro de São Paulo. O que temos de fazer é dar continuidade a este trabalho, lembrando que em 2006 a esquerda e a centro-esquerda disputarão, com chances de vitória, eleições em todo o continente. Chile e Bolívia terão eleições já no mês que vem, dezembro de 2005. No ano que vem, países como Nicarágua, Colômbia e México – nos quais os Estados Unidos têm fortíssimos interesses e ingerência – também vão viver eleições. Cabe a nós acompanharmos estes processos, colaborando com o possível para uma vitória das forças de esquerda. E, é claro, fazer dura oposição às movimentações do governo norte-americano, não apenas na área comercial, mas também na política de segurança. A instalação de uma base militar no Paraguai, por exemplo, é uma enorme ameaça para a paz em nosso continente.
Ainda na América Latina, governos de esquerda têm sofrido uma forte contra-ofensiva da direita, muitas vezes de inclinação golpista. Você acredita que o mesmo acontece no Brasil?
A direita latino-americana é conhecida por sua tradição golpista. Nos anos 60, 70 e 80 do século passado, houve um ciclo de ditaduras militares, apoiadas pelos Estados Unidos. Agora, entre os que ameaçam a democracia, precisamos incluir os monopólios de comunicação e os mercados financeiros.
O PT se relaciona com partidos de todo o mundo. Qual o espectro ideológico destes partidos? A relação envolve quais tipos de intercâmbio? Haverá mudanças na sua gestão?
O PT busca manter relações estáveis com todos os setores da esquerda. Naturalmente, o grau de identidade e a profundidade do intercâmbio é muito variada. O mais importante é definir com quais objetivos buscamos manter relações internacionais: tanto os problemas quanto as soluções para os grandes problemas do Brasil e de toda a humanidade passam pelo estabelecimento de uma nova ordem mundial. A grande mudança que espero conseguir implementar diz respeito a ampliar o envolvimento do conjunto do Partido, em particular de sua direção nacional, no debate e na execução da política de relações internacionais.
Os partidos progressistas da Itália fizeram uma prévia conjunta e conseguiram levar mais de 4 milhões de italianos às urnas. No Brasil, mais de 300 mil filiados petistas participaram do PED (Processo de Eleições Diretas), escolhendo seus dirigentes pelo voto direto. O que os dois fenômenos têm em comum?
O que há em comum, nesses dois fenômenos, é que os partidos políticos continuam sendo uma forma organizativa inescapável, para quem luta pelo socialismo.
A história do PT tem sido classificada como uma experiência única no mundo. Tal avaliação procede? O que diferencia o PT do Partido Trabalhista inglês e do PDS alemão, por exemplo?
Eu acho que o PT tem muitas características originais, como, aliás, toda e qualquer experiência histórica. Mas não acho que contribua, para superar nossos próprios limites e problemas, ficar exaltando esta originalidade. Até porque o que incomoda muitos de nós é exatamente o fato de – apesar das originalidades – estarmos enfrentando problemas que outros partidos de esquerda, noutras épocas e noutras paragens, também enfrentaram. Assim, os últimos acontecimentos recomendam bastante modéstia e vontade de aprender com a experiência dos outros.
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