Manifestantes do Centro de Mídia Independente rebatizam a Avenida Roberto Marinho, em São Paulo, com o nome do jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura militar em 1975. O ato simboliza a luta contra o oligopólio da mídia, que tem nas Organizações Globo seu maior expoente no país.
São Paulo – No último domingo, o jornal Correio Brasiliense publicou uma série de fotos de Vladimir Herzog numa cela do DOI-Codi, em São Paulo, tiradas pouco antes da morte do jornalista pelo aparato de repressão da ditadura militar. As imagens, que retratam um homem humilhado, nu, contradizem a falaciosa versão oficial de 1975 que dizia que Herzog havia se enforcado na prisão – em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu que Herzog foi assassinado nas dependências da instituição. Nesta segunda-feira (18), o nome de Vladimir Herzog foi homenageado num ato de rebatismo da Avenida Jornalista Roberto Marinho, localizada na zona sul da capital paulista. Cerca de 50 pessoas, na sua maioria estudantes, promoveram uma “solenidade popular” de mudança de placas. Sobre o nome do fundador das Organizações Globo, os manifestantes colaram adesivos com o nome do jornalista assassinado.
O ato, que aconteceu durante a Segunda Semana Nacional pela Democratização da Comunicação, que termina no próximo domingo (24), não foi conseqüência direta da recente publicação das fotos de Herzog. O rebatismo já estava planejado como um ato simbólico contra o oligopólio da mídia no país, que tem na Rede Globo seu maior expoente. Mas foi uma “feliz” coincidência, que reforça a importância do Brasil reavaliar a sua história e mostra como qualquer tipo de omissão ou distorção dos fatos – atitudes complexas de serem combatidas quando os meios de comunicação se encontram sob o poder de somente nove famílias – pode ser prejudicial à democracia do país.
Quando decidiram protestar contra a homenagem a Roberto Marinho, que passou a nomear a antiga Avenida Água Espraiada em novembro do ano passado, os membros do Centro de Mídia Independente (CMI), entidade que organizou o ato nesta segunda, procuraram alguém que simbolizasse exatamente o oposto do poderoso dono da Rede Globo. O jornalista Vladimir Herzog, que militou na defesa de um jornalismo com responsabilidade social, que não fosse servil ao Estado e que, mais do que educativo ou cultural, fosse público, foi o escolhido.
“Nossa idéia era fazer um contraponto. Colocar o nome de alguém que lutou por uma mídia comprometida e pública no lugar de um jornalista que tem um histórico de manipulação da mídia, que apoiou e foi apoiado pelo regime militar e que foi contra a redemocratização do Brasil. Médici dizia que tinha orgulho de assistir ao noticiário da Globo. Nos anos 80, a rede tentou abafar o movimento das Diretas”, lembra Pablo Ortellado, do CMI. Ele conta que, na época em que a Prefeitura de São Paulo enviou à Câmara Municipal o projeto de lei propondo a homenagem a Marinho, logo após a sua morte, diversas entidades protestaram contra a mudança do nome da avenida. “Mas o projeto passou com folga. O protesto de hoje é uma reação ao que aconteceu no ano passado, contra essa mudança absurda do ponto de vista legal”, explica.
Ortellado se refere à Lei 8776, de 1978, que regulamenta a nomenclatura de logradouros. Ela proíbe a mudança de nomes exceto quando existem nomenclaturas homônimas, quando não são homônimas mas similares de forma que possibilitem ambigüidade, ou quando trata-se de nomes que exponham os moradores ao ridículo. Como o projeto de lei não se enquadrava em nenhum desses casos, teoricamente não poderia ter sido aprovado. Mas um dispositivo no projeto revogava disposições em contrário e permitiu sua tramitação e aprovação pelos vereadores (leia matéria: “Roberto Marinho vira nome de avenida em São Paulo”).
O Centro de Mídia Independente iniciou, em outubro do ano passado, uma campanha contra a mudança, discutindo, além da sua legalidade, questões éticas no cenário da democratização da comunicação. A Organizações Globo é uma das empresas que mais concentra mídia no país, controlando redes de TV por assinatura (Globosat, Sky e Net), rádios (CBN, Rádio Globo), jornais (O Globo, Valor Econômico, Extra, Diário de S.Paulo), revistas (Época, Quem, Marie Claire, Galileu, Globo Rural…), Internet (Globo.com), editora de livros (Editora Globo), gravadora (Som Livre) e uma produtora de filmes (Globo Filme). Somente a Rede Globo tem em média metade da audiência da TV aberta e 74% das verbas publicitárias para o setor. No protesto, estudantes fizeram referência a essa concentração carregando a faixa “A Globo controla o que você vê, ouve, lê”.
Truculência
Falta democracia nos meios de comunicação, falta democracia na polícia militar de São Paulo – o que, digamos, não é nenhuma novidade. Acionados para interromper a manifestação política dos estudantes, cerca de quinze policiais agiram de forma agressiva sem que houvesse contra o que reagir. Sob a alegação de que a ordem pública estava sendo perturbada com a intervenção nas placas de sinalização, eles interromperam o ato usando spray de pimenta – que provoca irritação nos olhos e nas vias respiratórias – contra os presentes. O estudante Pablo Ortellado foi detido e levado até o 96o Departamento de Polícia, onde foi indiciado por desobediência à ordem legal e liberado para responder ao processo em liberdade.
Segundo o Tenente Dutra, que comandou a operação antes da chegada do 2o PM Tenente Gavira e deteve Ortellado, o estudante estaria perturbando a ordem pública porque a alteração das placas poderia confundir a população que trafega na região. “Há muitas ambulâncias que passam por aqui e que poderiam ter seu trajeto prejudicado com isso”, alegou o policial.
Já na delegacia, o 2o Sg PM Azevedo, o outro responsável pela prisão do manifestante, fez questão de esclarecer à Agência Carta Maior que a polícia não tinha sido agressiva com Ortellado. “Você foi testemunha de que nós não o agredimos, porque ele não é bandido”, disse. Se fosse, portanto, a ação truculenda da PM estaria justificada…
Para saber mais, visite a página do CMI: www.midiaindependente.org.
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