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Saci se tornar arma brasileira no combate às bruxas dos EUA

fev 19, 2004 | Geral

 

São Paulo – Um menino negro de uma perna só anda aparecendo por São Paulo num redemoinho de vento. Mas ele não pede fogo para seu cachimbo, o que realmente quer é pouso certo na cidade grande. Saído da floresta, o saci reivindica uma clareira na imaginação dos brasileiros. A Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci) organiza eventos de valorização do folclore brasileiro no interior de São Paulo. Agora, a entidade quer que a mesma data em que uma festa americana vem se infiltrando nas grandes cidades brasileiras sirva para celebrar esse ícone da cultura popular brasileira.

A Sosaci já conta com 114 sócios, entre jornalistas, antropólogos e músicos. A entidade nasceu em São Luiz do Paraitinga, cidade a 180 km de São Paulo, conhecida por sua intensa atividade cultural e musical, em julho do ano passado. São Luiz já festeja o Dia do Saci, exatamente em 31 de outubro, data em que se comemora o Halloween (ou “ráloin”, como dizem os saciólogos), o dia das bruxas dos Estados Unidos.

Daí surgiu a idéia de um abaixo-assinado solicitando ao Ministro da Cultura, Gilberto Gil, a instituição do dia 31 de outubro como Dia do Saci e seus Amigos, em âmbito nacional. “Nós, brasileiros, temos nossos próprios mitos, que não ficam nada a dever a esses importados, comerciais, usados para anestesiar a auto-estima do nosso povo. Respeitamos os mitos dos outros, mas não queremos que eles sejam usados pela indústria cultural como predadores dos nossos”, é o que alega parte do texto do abaixo-assinado disponível no sítio da Sosaci.org .

Projetos de Lei

A mobilização em torno do saci já chegou às instâncias públicas de poder. Dois projetos de lei sobre o Dia do Saci aguardam votação. Um deles é do deputado federal Aldo Rebelo, do PCdoB, que adere ao Manifesto do Saci da Sosaci, uma espécie de paródia do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels. O saci é retratado como “força da resistência cultural”, em contraposição aos “x-men, os pokemon, os ráloins e os jogos de guerra, como esbarravam ontem patos assexuados e ratos com orelhas de canguru”.

Outro projeto de lei, da vereadora Tita Dias, do PT paulistano, também se alinha ao manifesto e procura instituir o dia 31 de outubro como Dia do Saci em São Paulo. A justificativa do projeto municipal é a de que, além do Halloween, “diversos outros estrangeirismos alheios ao Brasil ganham espaço entre a população, principalmente jovens, em detrimento das nossas raízes culturais legítimas”. A vereadora diz que “o projeto está na ordem do dia e tem parecer favorável das comissões para aprovação”.

Defensores e divulgadores do folclore brasileiro também encontram adeptos em Botucatu, cidade do interior de São Paulo. Lá é realizado anualmente o Festival Nacional do Saci, que terá em agosto sua quarta edição. Organizado pela Secretaria de Cultura de Botucatu e pela Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCS), o festival, ao mesmo tempo em que celebra o dia do folclore, 22 de agosto, gera renda com suas barracas de comidas típicas e artesanato local.
“O importante é isso, recuperar essas personagens”, diz Wilson Nakamoto, Secretário de Cultura de Botucatu. E acrescenta: “A tentativa é que as crianças voltem a imaginar o saci”, o que, considera ele, é essencial para o mito não morrer. Quanto à criação de sacis em fazendas da região, Nakamoto diz que é nada mais que “um jogo de palavras”.

História do saci

Jô Amado, jornalista e um dos fundadores da Sosaci, diz que o perneta é “dentre todos os mitos e lendas do nosso folclore, a essência da brasilidade”. Isso porque ele integra as diversas raízes do povo brasileiro – a indígena, africana e européia. “O mito do saci nasceu entre os indígenas da região de Missões. Era, então, um curumim meio endiabrado, mas tinha duas pernas e um rabo. Era de cor morena, como os indígenas”, diz Amado.

“Quando o mito entrou em contato com a mitologia africana, ele virou um negrinho que perdeu uma perna lutando capoeira e herdou também dos costumes africanos o inseparável pito”, disserta. E, finalmente ele encontra a mitologia européia, quando herda o gorrinho vermelho chamado píleo, que os romanos davam aos escravos libertos. “Portanto, o saci também é símbolo do Homem Livre, o que tem tudo a ver com resistência cultural”, afirma Amado.

Não é de hoje que se utiliza o folclore brasileiro como parte da afirmação de identidade nacional. No dia 28 de janeiro de 1917, Monteiro Lobato abriu um inquérito na edição vespertina do jornal O Estado de S. Paulo. Três perguntas eram feitas aos leitores: “sua concepção pessoal de saci”, “a forma atual da crendice na zona em que reside” e “histórias e casos interessantes” a seu respeito.

A história dessa investigação é contada no livro Monteiro Lobato – Furacão na Botocúndia, Prêmio Jabuti de 1998 na categoria ensaio e biografia e eleito Livro do Ano de 1998 pela Câmara Brasileira do Livro. Monteiro Lobato, por meio da divulgação e valorização da figura do saci, põe à prova a elite brasileira que, em sua concepção, macaqueava a cultura francesa, como a Sosaci diz que se faz agora com o Halloween.
(Elisa Andrade Buzzo)

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