Acordo com faculdades prevê de 10% a 20% das vagas para alunos
oriundos da rede pública
Brasília – Depois de uma maratona de encontros com reitores e
dirigentes do ensino superior privado no País, o ministro da Educação, Tarso
Genro, anunciou ontem ao Estado um acordo entre o governo, as faculdades
particulares e o Congresso para mudanças no projeto que institui o programa
Universidade para Todos. O ministério admite fazer concessões, inclusive nas
cotas de alunos pobres e no porcentual de bolsas integrais, para permitir a
implementação do projeto.
A proposta, que será enviada hoje ao Congresso, prevê que as
faculdades mantidas por entidades religiosas ou filantrópicas, como as
Pontifícias Universidades Católicas (PUCs), destinarão 20% das vagas para
estudantes oriundos da rede pública. As faculdades pertencentes a
instituições privadas destinarão 10% das vagas. Para que o projeto seja
aprovado sem resistências, os empresários e dirigentes das filantrópicas
fizeram uma série de exigências, que serão negociadas durante a tramitação
do texto no Congresso.
O governo, conforme o ministro, se dispõe a mudar os critérios
de avaliação dessas faculdades, a fim de traduzir na nota o esforço da
instituição para educar alunos oriundos de escolas públicas fracas. Concorda
ainda em reduzir o porcentual de bolsa integral, permitindo uma gradação de
valores de 20% até 100% da mensalidade, conforme o poder aquisitivo do
aluno, além de estabelecer critérios mais confiáveis de aferição da pobreza
para concessão dos benefícios.
Para obter o benefício integral, o parâmetro é um salário
mínimo. Segundo os dirigentes das faculdades, muitos alunos burlam a renda,
sobretudo aqueles que exploram atividades informais. Outros pontos da pauta
serão negociados durante a discussão no Congresso. “O objetivo é garantir
acesso ao ensino superior ao maior número possível de alunos carentes. Se
isso for alcançado, todos os pontos apresentados são passíveis de
negociação”, disse Tarso. Reuniões – Ele se reuniu na sexta-feira, em Porto
Alegre, com os representantes das universidades pertencentes a instituições
religiosas e filantrópicas. No sábado, em São Paulo, o encontro foi com os
representantes das instituições particulares. Pela manhã, o ministro
conversou com os dirigentes do Grupo Facamp, dos empresários João Manoel
Cardoso de Mello e Luiz Gonzaga Belluzzo. À tarde, uma reunião ampliada com
dirigentes dos sindicatos das entidades mantenedoras e das empresas de
ensino fechou os pontos mais sensíveis do acordo.
Os dirigentes reclamaram da remuneração irrisória que receberão
da União por aluno carente, representada por isenções no Imposto de Renda e
na Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins). A
compensação corresponde a um porcentual entre 15% e 20% do que as faculdades
recebem por aluno do Fies (o crédito educativo), fundo que empresta dinheiro
aos estudantes para ressarcimento depois que estão inseridos no mercado de
trabalho. Eles pediram critérios mais precisos na definição de pobreza e
ampliação do Fies.
O programa Universidade para Todos se propõe a criar de 350 mil
a 400 mil vagas nessas instituições em cinco anos, 70 mil já no segundo
semestre deste ano. Por lei, as filantrópicas são obrigadas a aplicar 20% do
faturamento em benefícios sociais, mas não necessariamente em bolsa para
alunos carentes, como queria o governo. “Há muita distorção. Vale desde
atividades de extensão até obturação de dente. Muito pouco é traduzido em
gratuidade para alunos carentes”, disse o ministro.
Convênios – Como a tramitação deve demorar alguns meses, mesmo
que seja tranqüila, o projeto só deve entrar em vigor no próximo ano. Serão
assinados convênios experimentais entre o ministério e as faculdades
filantrópicas e privadas, para que o programa comece a funcionar no segundo
semestre. “Os encontros foram de alto nível e abriram o caminho para o
entendimento”, afirmou.
(Vannildo Mendes)
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