Em resposta ao “abril vermelho” promovido pelo MST, ruralistas gaúchos organizam a Cruzada da Produção do Maio Verde com o objetivo de garantir “invasão zero” no Estado. Postos de vigilância monitoram movimentos do MST.
Porto Alegre – Assim como pagaram royalties a Monsanto pelo uso de sementes de soja transgênica contrabandeadas da Argentina, os ruralistas gaúchos bem que poderiam pagar uma taxa aos sem terra pelo uso de táticas de mobilização e de organização inspiradas – e provocadas – pela atuação do MST. O “maio verde” anunciado por um grupo de produtores rurais do Rio Grande do Sul é declaradamente um contraponto ao “abril vermelho” do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
Mas o ideário conservador que anima o movimento não é exatamente inspirado nas ações do MST, chegando às raias do anti-comunismo, como declarou o presidente do Sindicato Rural de São Gabriel, Tarso Teixeira, ao jornal Zero Hora: “eles queriam transformar o Rio Grande no abril vermelho, e o vermelho é o perigo. Nós queremos produzir com tranqüilidade, com o verde das lavouras”.
Nascido na região da Fronteira Oeste, uma área cuja estrutura fundiária é marcada pela existência de grandes propriedades de terra, o movimento dos ruralistas deve ao MST o reconhecimento de que a organização política coletiva é uma condição para o enfrentamento de problemas sociais. Antes da atuação do MST na região, a ação coletiva dos ruralistas limitava-se, o mais das vezes, a encontros em torno de um churrasco ou de uma festa em algum Centro de Tradições Gaúchas, costumes típicos da região.
A entrada do MST em cena mudou completamente esse cenário e o dia 18 de maio de 2004 pode ser apontado como um marco histórico dessa nova fase. Nesse dia, um grupo de ruralistas gaúchos inicia uma caravana motorizada pelo Estado em protesto contra a atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
Os organizadores anunciaram que cerca de 2.500 produtores rurais de diversas regiões do Estado confirmaram presença no lançamento da Cruzada da Produção do Maio Verde, no município de São Gabriel, onde o governo federal tentou sem sucesso – por decisão do Supremo Tribunal Federal – desapropriar 13,2 mil hectares de um complexo de cinco fazendas de Alfredo Southall. Duas mil bandeiras, faixas, fitas e balões verdes foram distribuídos na cidade que, em 2003, constituiu-se em um dos principais focos de tensão no campo no país em virtude de uma marcha organizada pelos sem terra.
Prefeito do PDT apóia ruralistas
Durante a marcha do MST a São Gabriel, em 2003, milhares de panfletos foram distribuídos na cidade conclamando a população a “exterminar” os sem terra. O panfleto apócrifo sugeria que a população colocasse veneno de rato na comida e a oferecesse aos agricultores. A polícia abriu investigação para tentar identificar os autores do texto, o que, até hoje, não ocorreu. A caravana dos ruralistas passará por uma estrada próxima ao acampamento que os sem-terra montaram em dezembro passado, situado a 26 quilômetros de São Gabriel e próximo das terras de Southall.
De olho nas eleições de 2006, o prefeito de São Gabriel, Rossano Gonçalves (PDT), é um dos principais apoiadores da iniciativa, o que constituiu um fato político ilustrativo acerca dos novos tempos na política brasileira. O trabalhismo, em um passado recente, foi um articulador das lutas sociais no campo, estando ligado ao movimento das Ligas Camponeses e aos primórdios das primeiras mobilizações de agricultores sem terra. Hoje, está perfilado com os ruralistas.
Caravana motorizada e postos de vigilância
Se a inspiração vem das ações do MST, os instrumentos da mobilização indicam as diferenças sociais que caracterizam o problema agrário no Brasil. Enquanto os veículos dos sem terra, em suas marchas, são, na maior parte das vezes, os próprios pés ou chinelos carcomidos pelo tempo e pela poeira das estradas, os ruralistas utilizam carros, caminhonetes e caminhões em sua caravana, que pretende passar por 29 municípios até chegar a Porto Alegre no dia 25 de maio, quando será realizado um ato público na sede da Federação da Agricultura, o templo do agro-negócio no Estado.
O vocabulário dos ruralistas também é inspirado no “marketing político” do MST e da esquerda em geral. Em resposta ao “abril vermelho” surge o “maio verde”. Contra as ações dos sem terra e apropriando-se da idéia do programa Fome Zero do governo Lula, os produtores rurais anunciam a “invasão zero” no Estado. O motivo central da mobilização: o agronegócio estaria ameaçado pela atuação do MST. O lema do movimento é inspirado no ideal positivista que marca a bandeira brasileira: ordem, progresso e produção. A linha estratégia de propaganda: convencer a opinião pública que os sem terra constituem um bando de baderneiros, inimigos da ordem, do progresso e da produção.
Para garantir a vigência da ordem e do progresso no Estado, os ruralistas anunciaram a instalação de “postos de vigilância” em várias regiões do RS, com o objetivo de “monitorar” possíveis ações do MST. Os sem terra, por sua vez, anunciaram que vão só observar o movimento e acusaram os ruralistas de terem disparado contra um acampamento de sem-terra, semana passada, no município de Alegrete.
Ofensiva na mídia
Os ruralistas apostam na repercussão midiática para obter sucesso em sua mobilização. No dia de lançamento da caravana, os dois principais jornais do Estado deram destaque de capa à iniciativa. O Correio do Povo anuncia o começo da “Cruzada da Produção”, com uma foto que mostra máquinas e tratores decorados com balões verdes e um painel ao fundo onde o mapa do Brasil aparece com a inscrição “maio verde”.
Já o jornal Zero Hora aborda o tema com um conjunto de três matérias. A manchete celebra a força do agronegócio no Estado e anuncia que produtores gaúchos estão colhendo a maior safra de arroz da história (com uma foto do governador Germano Rigotto na abertura da Fenarroz). Ao lado da manchete, um box colorido noticia o início da caravana contra o MST. E, para arrematar, na página 30, uma matéria fala da existência de irregularidades em assentamentos de sem terra no RS (agricultores teriam comprado ilegalmente lotes em assentamentos rurais).
A superintendência regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) determinou um prazo a todas as pessoas instaladas irregularmente em lotes da reforma agrária para que apresentem declaração sobre a sua situação e o motivo da irregularidade. Neste clima, os ruralistas gaúchos deram início à sua “cruzada” por ordem, progresso e produção.
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