Após analisar fotos, comissão concluiu que eles não podem declarar-se negros nem indígenas
LISANDRA PARAGUASSÚ
BRASÍLIA – Entre 4.385 inscritos, o sistema de cotas para negros e indígenas adotado pela Universidade de Brasília descartou 212 jovens.
Baseada em fotos dos candidatos tiradas na hora da inscrição, uma comissão decidiu quem podia ou não declarar-se negro.
Foi a foto que tirou Ricardo Zanchet, 19 anos, do sistema. Ricardo foi entrevistado pelo Estado há seis semanas, no primeiro dia da inscrição para o vestibular. Com pele clara, cabelo liso e castanho, o estudante nem de longe lembra um negro, mas alegou que tinha um avô e uma bisavó negros, o que lhe daria o direito de concorrer. No entanto, não convenceu os integrantes da comissão.
Os demais estudantes entrevistados no mesmo dia que Ricardo – Anderson Rosa Nascimento, Edimárcia Ramos Araújo, Júlia Mello e Viviane Ramos de Souza – foram aprovados na triagem para o sistema de cotas. Ricardo e os demais que ficaram fora da lista estão automaticamente concorrendo às demais vagas do sistema universal, que correspondem a 80% das 1.994 oferecidas pela universidade neste ano.
Podem, no entanto, recorrer da decisão amanhã e na sexta-feira, quando serão entrevistados pela comissão. Os estudantes que se sentirem injustiçados poderão levar um documento em que conste oficialmente sua cor como preta ou parda e também passar por uma entrevista, que será analisada pela comissão.
Ricardo já decidiu recorrer. “Vou levar a certidão de nascimento do meu avô e mostrar a eles”, disse. O estudante não tem certeza de que na certidão esteja escrito que o avô é negro, mas acredita que sim. E defende sua tentativa: “Se meu avô e minha bisavó eram negros, eu sou fruto de miscigenação e tenho direito”, afirmou. Se a comissão não concordar com seu ponto de vista, Ricardo disse que ainda pensa em entrar na Justiça contra a decisão, mas precisará consultar sua família, porque “advogado custa caro”.
O professor Mauro Rabelo, diretor do Centro de Promoção e Seleção (Cespe) da UnB, explica que a tentativa de Ricardo não deverá funcionar. Isso porque o sistema da UnB não é para afrodescendentes, mas para brasileiros que tenham o genótipo dos negros – ou seja, aparentem fisicamente ser negros. “Nosso edital deixa isso bem claro”, afirmou.
Ao todo, a UnB recebeu 27,4 mil inscrições para o vestibular deste ano. Dos inscritos, 4.173 concorrerão às 392 vagas do sistema de cotas. Ricardo diz que se inscreveu no sistema de cotas como uma forma de protesto, mas confessa que também o fez por acreditar que seria mais fácil ser aprovado, depois de tentar e falhar duas vezes na seleção para a faculdade de química.
No sistema de cotas existem, agora, 10,6 candidatos por vaga. No geral são 14,5.
A UnB foi a primeira universidade federal do País a adotar o sistema de cotas raciais, antes mesmo de o Ministério da Educação (MEC) definir como seria o processo. Com isso, terminou por adotar critérios diferentes do que pretende o MEC. Um deles é não ter levado em conta a renda do candidato ou o fato de ter ou não estudado em escolas públicas.
Segundo o reitor da universidade, Timothy Mulholland, os negros estão principalmente entre a camada mais pobre da população. Por isso, as cotas raciais automaticamente beneficiariam quem mais precisa.
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