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Romaria da Terra pede reformas na região mais pobre de SP

ago 5, 2004 | Geral

CPT e CUT se uniram a outros movimentos sociais na 8ª Romaria da Terra. Protesto foi realizado na cidade de Registro, no Vale do Ribeira, região de SP com menor desenvolvimento socioeconômico.
Fernanda Sucupira

São Paulo – Ampla reforma agrária, principalmente no Vale do Ribeira, demarcação das terras dos indígenas e dos quilombolas da região e impedimento da construção de barragens no rio Ribeira do Iguape foram algumas das principais reivindicações da 8ª Romaria da Terra, no domingo (25), como parte da comemoração do Dia do Trabalhador Rural. Organizada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), Central Única dos Trabalhadores de São Paulo (CUT-SP), junto a diversos movimentos sociais, a manifestação teve como tema central “Terra-água: Dom de Deus, Direito de Todos”.

O palco escolhido foi a cidade de Registro, localizada no Vale do Ribeira (SP), por conta dos atuais problemas enfrentados pela população rural da região. Uma das principais reivindicações da romaria é que seja impedida a construção de quatro barragens para usinas hidrelétricas ao longo do rio Ribeira do Iguape – Tijuco Alto, Itaoca, Funil e Batatal – que teriam implicações negativas na vida dos ribeirinhos.

Se forem construídas as quatro barragens, será inundada uma área de aproximadamente 17 mil hectares, dentro da qual se encontram diversas unidades de conservação – como o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar), o Parque Estadual da Serra do Mar, o Parque Estadual de Jacupiranga, o Parque Estadual das Lauráceas -, 51 comunidades de remanescentes de quilombolas e cidades como Iporanga, cujo centro histórico irá ficar debaixo d’água caso seja construída a barragem de Batatal.

Outra reivindicação da romaria é que o governo priorize a realização de uma verdadeira reforma agrária, especialmente na região do Vale do Ribeira, onde se encontra a maior concentração de terras devolutas do Estado, e facilite o acesso à aposentadoria do camponês e da camponesa. Além disso, os romeiros exigem que o Congresso Nacional decrete que a água, direito humano inalienável, é patrimônio público, e que as terras trabalhadas em situação de escravidão sejam confiscadas para a reforma agrária.

O ato também pediu que sejam respeitadas e preservadas as expressões culturais e religiosas das populações tradicionais, que sejam desburocratizados todos os processos de demarcação das terras dos indígenas e dos quilombolas do Vale do Ribeira, que se busquem formas alternativas da agricultura frente à prática de monocultura de banana que não dignifica a população local, mas só empobrece a natureza e a própria população e que gera tantos outros problemas sociais visíveis.

O tema central, “Terra-água: Dom de Deus, Direito de Todos”, une as lutas pela terra e pela água, por considerá-las indissociáveis. “Não dá para pensar no trabalhador rural sem pensar na água. O grande latifúndio de terra também é grande latifúndio de água”, afirma o padre Fernando Doren da coordenação da CPT de São Paulo. Segundo ele, o objetivo da romaria é levar os militantes dos movimentos sociais para conhecerem a realidade do Vale do Paraíba e unir as bandeiras do campo para fortalecer as lutas dos movimentos populares na região em defesa de indígenas, quilombos e caiçaras.

Mais de 5 mil pessoas participaram da romaria. Além da CPT e da CUT, estiveram presentes representantes do MST, do Movimento dos Atingidos por Barragens (Moab), dos remanescentes dos quilombos e dos pescadores do Vale do Ribeira, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre outros. O número foi considerado baixo em comparação com os anos anteriores. Em 2003, por exemplo, 9 mil pessoas estiveram presentes na romaria que ocorreu no Pontal do Paranapanema. O padre Doren atribui essa redução ao fato do Vale do Ribeira não ser conhecido, por não ser palco de conflitos abertos, e considera importante dar atenção a regiões muitas vezes esquecidas.

A romaria, que é tradicionalmente realizada no campo, ocorreu pela primeira vez na cidade. O plano inicial era que ela ocorresse na comunidade dos Quilombos Morro Seco. No entanto, as prefeituras dos municípios de Iguape e Juquiá, cidades vizinhas à comunidade, não alargaram a estrada de acesso nem abriram estacionamento para os romeiros, conforme haviam prometido. “Consideramos um descaso por parte da administração dessas cidades e tivemos que mudar o evento em cima da hora para Registro. A grande vantagem de realizar a romaria na cidade foi a oportunidade de conscientizar a população urbana a respeito dos problemas enfrentados no campo e da existência de movimentos ligados a essa luta”, afirma Doren.

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