Em conferência no 1º Fórum Mundial de Teologia e Libertação, em Porto Alegre, sociólogo Boaventura de Sousa Santos defendeu o papel crítico da teologia e a necessidade de se pensar a idéia de salvação neste mundo. “Hoje vivemos em espera, mas sem esperança”.
Porto Alegre – No segundo dia de debates do 1º Fórum Mundial de Teologia e Libertação, o sociólogo português Boaventura de Souza Santos defendeu a relação da teoria crítica com a teologia, em função do diagnóstico pessimista que faz sobre os rumos que as sociedades estão tomando no mundo. Para justificar essa relação, o professor apontou os resultados de uma pesquisa feita durante o 3º Fórum Social Mundial, em 2003, segundo a qual 62% dos participantes declararam ser religiosos, sendo que, dentre os delegados, esse índice chegava a 66,3%. A partir desses dados, Boaventura indagou: qual o papel da religião e da teologia, como reflexão da religiosidade, nos dias que correm mundo afora?
Esse papel foi apresentado como sendo o resultado de um diagnóstico sobre os rumos das sociedades modernas atuais. “Viver em sociedade, é viver em um conjunto de expectativas estabilizadas. As sociedades modernas comportam uma discrepância entre as experiências atuais e as expectativas de um mundo melhor”, afirmou Boaventura, para explicar que é nessa discrepância que se constituem os conceitos de progresso, desenvolvimento e de globalização. O problema fundamental com que se deparam as sociedades, hoje, reside na inversão de sentido dessa relação de discrepância, operada, por sua vez, pela mudança radical do significado de reformismo.
“Na década de 60, quando se falava em reformas, compreendíamos que algo de melhor viria. Sabíamos que uma reforma era para melhor, para o bem. Hoje, a relação de discrepância entre a experiência e a as expectativas foi invertida. Se a experiência é ruim, a expectativa é pior ainda. Isso se deve a uma mudança radical na noção de reformismo. Hoje, quando vemos uma reforma, sabemos ou temos a expectativa de que seja para pior, não para melhor”, registrou, para dizer que, em função disso, “vive-se em espera, mas sem esperança”. Mas o que deu conta dessa inversão?
Democracia política e fascismo social
Boaventura partiu da mudança que alguns “instrumentos” da discrepância entre experiências e expectativas nas sociedades sofreram, como democracia, inclusão social, contrato social e direitos humanos. “Vivemos numa sociedade de contratos, mas de contratos individuais. Temos uma democracia de baixa intensidade e os direitos humanos não estão dando conta do sofrimento, porque os direitos humanos são um problema para o Sul e não para o Norte do planeta. Estamos a criar uma sociedade “incivil”, em que poderes econômicos e sociais muito fortes têm direito a dispor da vida e morte dos indivíduos. Portanto, estamos a entrar em sociedades politicamente democráticas e socialmente fascistas”.
O que está na base desse diagnóstico forte e pessimista são, simultaneamente, as noções de presença e ausência, tratadas em consonância com as várias faces do fascismo social referido pelo professor. Dentre essas, ele distinguiu dois pontos: a divisão das cidades entre zonas civilizadas e zonas selvagens, com a diferença de atuação da mesma polícia em ambas regiões (para o sociólogo, essa distinção não é resultado de uma política fascista, mas de uma “sociabilidade política fascista”); em segundo lugar, o fascismo territorial, que não é mais produzido pelo Estado, mas pelo enfraquecimento da democracia.
“Meus colegas colombianos sabem do que estou a falar. Que há territórios soberanos onde o Estado não chega.” E acrescentou: “Esse fascismo não é produzido pelo Estado, como eram as ditaduras fascistas que muitos de nós, aqui, combatemos.” Esse colapso das expectativas, frente à atualidade da experiência, não é mais uma realidade dos indivíduos, mas ganhou nova dimensão do 11 de setembro para cá. “Desmentindo Toni Negri” esse colapso reside, hoje, no centro do império, na contingência de que, a qualquer momento, uma invasão militar seja iniciada, uma guerra possa acontecer.
Monoculturas produtoras de “ausências” e extremismo
Alguns “fatores de cidadania”, ao caducarem, abriram espaço para esse fascismo, para um contexto de extremismo, disse Boaventura. Primeiro, o trabalho hoje se tornou um “recurso global escasso”. Em segundo, o Estado Nacional, que foi um grande construtor de relações não-mercantis entre os cidadãos, foi deslegitimado nessa situação, em função das privatizações, e convertido num problema, ao adotar padrões mercantis na relação com a cidadania. Os resultados dessa conversão mercantil estão no quadro de fome, de pandemia de aids, principalmente na África – onde as expectativas de vida de populações inteiras reduziram, em alguns casos, quase 50% -, além da situação dos conflitos armados, no mundo.
“Há atualmente 300 mil crianças envolvidas em conflitos armados. Em 80% desses conflitos, há jovens com menos de 15 anos e em 18% deles, com menos de 12”, afirmou o professor, que sustentou como causa do grau de extremismo nas sociedades modelos de nacionalidade muito autoritários, o que chamou de monoculturas.
“Elas são processos através dos quais desacreditamos os progressos sociais, em que a experiência é desperdiçada pela monocultura e nos quais o que é ausente foi ativamente produzido para ser excluído.” As cinco monoculturas são:
1 – Monocultura do saber: onde o rigor científico implicaria um suposto “epistemicismo”: o conhecimento não reconhecido, segundo as regras estabelecidas pelo padrão dominante de rigor científico, não é considerado conhecimento;
2 – Monocultura do tempo linear: “Aqui, os teólogos têm algo a dizer”, sustentou. A monocultura do tempo linear baseia-se na idéia de que a história tem uma seta linear, regida pelo progresso. “Isso significa que, na frente da seta estão os países desenvolvidos, seus interesses e suas instituições. Assim se produz uma assimetria na linha do tempo”. Nessa assimetria reside a aparente explicação de que há culturas “ultrapassadas, atrasadas, etc.”, onde a sua “não-existência” constitui uma “ausência produzida pela própria linearidade do tempo”;
3 – Monocultura da neutralização das hierarquias: “as hierarquias, em vez de serem diagnosticadas como causa, são postas como conseqüência”, de modo que o problema do racismo, por exemplo, não é apresentado como tendo causa numa relação de poder mas, inversamente, como sendo o poder a conseqüência de uma hierarquia nas raças;
4 – Monocultura do universal sobre o local, onde o global adquire preferência sobre o local, e cujo resultado é a “ausência produzida” da particularidade;
5 – Monocultura da produtividade: é preciso produzir, ser produtivo; quem não consegue isso, está desempregado, é tido como preguiçoso e indolente.
Teologia das “ausências” e pluralismo despolarizado
“Toda teologia da libertação deveria ser uma ecologia”. Esse foi o contraponto apresentado pelo professor para disputar os rumos do mundo com as monoculturas citadas acima. Nessa disputa, o que a teologia deve ter por tarefa é a reflexão sobre a colonização. Assim, segundo ele, teria lugar uma “teologia das ausências” produzidas ativamente pelo modelo dessas monoculturas. É assim, também, que se abrem os caminhos para a reflexão sobre o fundamentalismo, fantasma que já assombrou a teologia no passado. “O discurso de Condoleeza Rice, na sua posse, dizendo que sua missão era levar a verdade a todos, é muito próximo ao que se passou aqui, com as Missões, no século XVIII. A teologia contribuiu muito com o falso universalismo dessas monoculturas”.
O papel “ecológico” da teologia, hoje, passa pela radicalização da prática de traduzir os nomes de Deus, como o faz a cristandade, de modo que a reflexão sobre a religião dê conta de uma pluralidade, de uma pluralidade, como chamou Boaventura, “despolarizada”. Outro tema importante para a teologia, sustentou, é a reflexão sobre terrorismo e martírio. “A teologia sempre teve algo a dizer sobre isso”, disse o professor, comentando o diagnóstico de um psicólogo de Gaza, que analisou as “ambições” da juventude, da região, pelo martírio, hoje. “Temos visto ‘bombistas’ crianças, cuja ambição pela morte é o substituto da falta total de possibilidade de ambição pela vida”.
E essa reflexão tem de ser feita seguindo as regras do pluralismo, por meio de “heresias cumulativas, para tentar criar uma bricolage”. Diante de uma platéia majoritariamente composta por cristãos, o professor acrescentou: “Não sei se isso é bom ou mau. Vivemos à beira do caos e, pior que isso, só podemos pensar no caos. Mas o fato é que do jeito que está, os dois mundos estão muito próximos.” Se o diagnóstico do professor sobre a proximidade dos “dois mundos” está correto, então a reflexão sobre a religião tem tarefas pela frente.
Tarefas tanto maiores, quando se leva em conta que a maioria dentre os milhares que marcham e participam ativamente do Fórum Social Mundial se declaram religiosos ou quando se leva em conta, por outro lado, quem é mesmo que se reivindica portador da verdade “a ser levada a todos”. A saída está, segundo o professor, na “prática da transcendência”. Pois é nela, disse, que “faz sentido a salvação”. E concluiu: “Faz todo sentido que a salvação exista num outro mundo; o que não faz nenhum sentido é que ela não exista neste”.
Teologia da Libertação quer enfrentar recuo ideológico
0 comentários