Conselho Internacional do Fórum Social Mundial discute proposta de realizar o FSM de 2006 em três ou quatro países simultaneamente. Objetivo é desonerar participantes e organizadores, e aprofundar as articulações macro-regionais. Em 2007, Fórum será unificado na África.
Porto Alegre – Reunido durante os dois dias que antecedem a abertura oficial do Fórum Social Mundial (FSM) 2005, o Conselho Internacional (CI), instituição composta por 129 entidades e organizações do mundo todo, responsável pelo “gerenciamento” do processo FSM, definiu um esboço do que serão os FSM 2006 e 2007.
Em função da idéia de transformar o encontro mundial do FSM em bienal, defendida reiteradamente por várias organizações e movimentos nas últimas reuniões do CI – sob o argumento de que o custo de deslocamento e organização de encontros anuais estava ficando pesado para muitos participantes -, o Secretariado Internacional do Fórum (as oito entidades brasileiras que iniciaram o processo em 2001) propôs uma solução híbrida, visto que “seria temerário e desmobilizador não realizar, no período de dois anos entre Porto Alegre-2005 e África-2007 [região já definida como sede do encontro de 2007], nenhum Fórum Social Mundial”: realizar simultaneamente, se possível na mesma data do Fórum Econômico Mundial de Davos, um Fórum Social Mundial descentralizado em três ou quatro países, “o que evitará que muitas organizações sejam obrigadas, durante três anos consecutivos, a um deslocamento intercontinental”.
A idéia, segundo o secretariado, seria permitir a países interessados que apresentem “candidaturas” até março deste ano, quando o CI se reúne novamente em Paris para definir a questão. Os critérios, ainda não totalmente estabelecidos, levariam em conta as condições infra-estruturais do país sede, sua conjuntura política, a facilidade de acesso de estrangeiros, e a organização dos movimentos e entidades locais.
“O fato de se realizar [o FSM] ao mesmo tempo em diversas partes do mundo emitirá um sinal político poderoso. Indicará que não recuamos em nossa disposição de nos encontrar todos os anos para levar adiante a luta contra a globalização neoliberal; e que avançamos em nossa capacidade de articulação”, afirma documento do secretariado.
Candidatos
Segundo vários membros do CI, algumas pré-candidaturas para a sede do FSM 2006 já foram apresentadas, como o Marrocos (praticamente consensual) na África, a Venezuela e o México (este último ainda em discussão) na América Latina, e o Paquistão na Ásia. Sobre as últimas, pesam prós e contras que exigirão um debate bastante aprofundado para que se chegue a um consenso.
Por um lado, o processo político venezuelano, por exemplo, é considerado por grande parte dos participantes do FSM como um avanço no projeto de “outro mundo possível”, principalmente em função das políticas sociais em prática no país. Ou seja, a chamada “revolução bolivariana” não apenas seria um exemplo, como mereceria apoio frente a constantes ataques dos EUA e de setores mais conservadores. Por outro lado, porém, há a preocupação com um possível “aparelhamento” do Fórum pelo governo venezuelano, muito em função de uma debilidade organizativa da sociedade civil.
Já na Ásia há discordâncias internas sobre a viabilidade o Paquistão. Segundo Prabir Purkayastha, membro do comitê indiano do FSM, o Paquistão, além de não ter representantes no CI, é um país sob ditadura de um governo sectário. “Não sei como os fundamentalistas iram reagir a um Fórum no Paquistão, isto é uma questão importante a ser levada em conta. Por que não as Filipinas, ou Bangladesh?”, questiona Purkayastha.
“Em todo caso, isto só vai ser decidido em março, e até lá teremos tempo de amadurecer as atuais e possíveis novas candidaturas. O que acho é que temos que aprofundar, antes de tudo, as articulações internas nos continentes, principalmente na África e na Ásia. Muitos de nós ainda têm como referências os países europeus que nos colonizaram, nos relacionamos preferencialmente com entidades da Europa, e isto ainda vejo como o maior problema”.
África 2007
A definição de que a sede do FSM 2007 será um país africano já foi acordada na reunião pós FSM 2004, em Mumbai, na Índia, como parte da política de mundialização do Fórum. Adicionalmente, há também um consenso no CI de que a realidade africana é um desafio para o processo FSM. Segundo o Secretariado Internacional do Fórum, realizá-lo na África “precisa ser encarado, em nosso meio, como um desafio coletivo – não apenas como responsabilidade do país africano que vier a ser escolhido para sediá-lo. Este compromisso terá, naturalmente, implicações materiais e financeiras, mas seu sentido essencial é político. O mundo dos Fóruns Sociais precisa anunciar, ainda em Porto Alegre, que assumiu a tarefa de apontar a dívida do planeta em relação ao “continente esquecido” e de lutar pelo seu resgate. Nos próximos dois anos, um pouco de nossas energias, em cada organização e cada país, deve ser dedicado a compreender – e a difundir – o que é esta dívida, que mecanismos a engendraram, quais as formas de saldá-la”.
Neste sentido, o secretariado também propôs que as organizações e movimentos participantes do FSM começassem a trabalhar localmente alguns temas-chave relacionados à África, como a aids, a dificuldade de acesso à água potável, a dívida externa dos países africanos, etc.
“É fácil perceber que este esforço tem enorme poder de enriquecer nosso diálogo com nossas próprias sociedades. Os dramas da África são resultado de políticas que estão sendo ensaiadas em muitas outras partes do mundo. Ao debater a luta contra a aids, chamaremos atenção para os riscos implícitos nas políticas de mercantilização da saúde e outros serviços públicos; ao falar em acesso de todos à água, estabeleceremos a diferença concreta entre tratá-la como um direito e enxergá-la mercadoria; ao abordar as relações globais de comércio e as políticas de ajuste estrutural, falaremos de problemas que todos os nossos países também vivem”, afirma o documento do secretariado.
Por enquanto, as candidaturas já aventadas de países sedes para o FSM 2007 são Marrocos (se não sediar o FSM 2006), Tanzânia e Quênia.
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