Entre os milhões de desempregados brasileiros, começa a crescer um contingente de profissionais superqualificados que não consegue colocação ou tem de se contentar com ocupações para as quais a sua formação é irrelevante. Eles acabam seu doutorado e encontram as portas do mercado de trabalho fechadas. São cerca 6 mil jovens que se doutoram todos os anos e a meta do governo é chegar a 10 mil.
Ao contrário do que pode parecer, não estão sobrando doutores no Brasil. “Na verdade, o País tem um número pequeno deles, em relação à sua população ou ao Produto Nacional Bruto (PNB), se tomarmos como referência países em estágio de desenvolvimento comparável”, diz Adalberto Fazzio, presidente da Sociedade Brasileira de Física. “O problema é a falta de estímulo para criação de posições para esses jovens.”
Desequilíbrio – Num trabalho intitulado A Regionalização da Pesquisa e da Pós-graduação – o Desafio Amazônico, o pesquisador Adalberto Luís Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), mostrou essa situação em números. Entre 2000 e 2002 formaram-se 16.130 novos doutores no Brasil, dos quais menos da metade, 7.758, foram fixados, isto é, conseguiram emprego na área de sua formação.
A má distribuição dos doutores pelo País é outro complicador. Dos 16.130 formados, nada menos que 13.476 fizeram seu doutorado na região Sudeste. Na hora de oferecer emprego, no entanto, essa região deixa muito a desejar. Dos 13.476 doutores formados apenas 3.186 foram fixados, um déficit de 10.290 vagas. Todas as outras regiões empregaram mais doutores do que formaram.
“Não basta formar recursos humanos”, diz Val. “É preciso ter políticas de fixação desse pessoal e para romper o desequilíbrio regional. Se não, vamos continuar com excesso de doutores no Sudeste, com muitos deles subempregados e com falta deles nas outras regiões.”
O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti, dá exemplos dessa carência. “Na maioria das universidades públicas fora do Sudeste apenas cerca de 30% dos docentes têm doutorado”, diz. “Em regiões de fronteira, como Acre e Amapá, esse índice é ainda menor.
Apenas 10% ou 20% dos professores são doutores.”
Como se vê, vagas existem. Segundo Candotti, o que falta são programas e projetos para aproveitar os doutores que se formam todos os anos no Brasil.
Uma boa saída seria investir mais em pesquisa na Amazônia, por exemplo.
“Para estudar toda a biodiversidade que existe lá seriam necessários de 5 mil a 10 mil doutores”, calcula Candotti. Outra alternativa seria as universidades voltarem a contratar docentes com doutorado. Há anos, os seus quadros estão praticamente congelados.
De acordo com Fazzio, o problema é mais grave no Brasil, porque as empresas não costumam contratar doutores. “Nos países avançados isso é diferente”, diz. “Uma fração considerável de jovens com formação científica faz sua carreira fora dos laboratórios universitários, criando um vínculo essencial entre ciência, setor empresarial e agências estatais. No Brasil, este tipo de experiência é bastante limitada. Seria muito importante criar mecanismos para estimular este processo, essencial para a competitividade internacional das empresas brasileiras.”
Enquanto isso não ocorre, a opção dos jovens doutores é viver de bolsas fornecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ou pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ou então arrumar trabalho em área diferente de sua formação ou onde ela é irrelevante. É o que fez, por exemplo, Ademar de Azevedo Cardoso, de 36 anos, doutor desde 1999 em estruturas, na área de Engenharia Naval, pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). “Nunca consegui emprego na minha área”, diz. “Só existem vagas para as quais o doutorado não é um dos requisitos.”
Como precisa trabalhar, o jeito foi Cardoso se virar. “Desde que me doutorei, tenho dado consultoria para a indústria automobilística”, conta.
“Para completar o salário, também dou aula numa faculdade privada, no curso de computação e informática, que não tem nada a ver com minha especialização. Como as consultorias estão meio paradas, estou pensando em aumentar minha carga horária na faculdade. Preciso pagar minhas contas.”
Sérgio de Figueiredo, de 46 anos, doutor em Física pela USP, está nessa vida alternativa há mais tempo. “Sem vagas na minha área, quando me doutorei, em 1992, fui trabalhar como perito radiológico em consultórios odontológicos”, conta. “Depois, resolvi abrir uma empresa de plotagem (impressão de projetos de engenharia), que tenho até hoje.”
Desperdício – Segundo Fazzio, os dois são exemplos de profissionais superqualificados que o Brasil está desperdiçando.
“O País precisa criar programas que estimulem as empresas a absorver estes jovens”, diz. “Isso produziria uma mudança de cultura, levando-as a uma melhor absorção de avanços científicos e conseqüente ganhos de produtividade. Programas estratégicos, tais como as atividades espaciais, as nanociências, os novos materiais, problemas de segurança, questões associadas à biodiversidade, alternativas energéticas, tudo poderia gerar oportunidades para esses jovens.”
(Evanildo da Silveira)
Publicado em 09.02.2004
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