“Com o início da construção do muro em torno dos territórios palestinos pelo governo israelense, a política adotada pelo primeiro ministro Ariel Sharon em relação à Palestina caracterizou-se definitivamente como um apartheid semelhante ao praticado na África do Sul”. Esta avaliação, que se popularizou largamente entre organizações e movimentos de solidariedade e defesa do povo palestino, está sendo apresentada no Fórum Social Mundial como a base de uma grande campanha global de “desinvestimentos”, sanções e boicotes contra empresas e o governo israelenses, lançada neste sábado (29) na intenção de usar os mesmos instrumentos que ajudaram a derrubar o regime segregacionista sul-africano como mecanismo de luta pela desocupação dos territórios palestinos por Israel.
Em outras palavras, segundo organizações internacionais como a OPGAI (Occupied Palestine and Syrian Golan Heights Advocacy Initiative) e a Palestinian Anti-Apartheid Wall Campaign, a ameaça ao equilíbrio financeiro do setor produtivo de Israel pode ser uma arma eficiente para pressionar o governo a rever sua posição quanto às políticas de ocupação e repressão nos territórios palestinos.
As práticas propostas pelos ativistas, explica o coordenador da Palestinian Anti-Apartheid Wall Campaign, Jamal Juma, são basicamente três: sanções, boicotes e o chamado desinvestimento.
“As sanções, como os bloqueios econômicos e políticos praticados contra o Iraque de Saddam Hussein pelas Nações Unidas, ou os de Cuba pelos Estados Unidos, seriam adotadas por Estados através de pressões de movimentos, ONGs, universidades, igrejas e outros setores importantes da comunidade nacional. Os boicotes seriam feitos por toda a sociedade civil e visariam aos produtos israelenses em geral. E o desinvestimento é um mecanismo pelo qual os cidadãos podem pressionar empresas que investem em Israel, no sentido de desmoralizá-las publicamente enquanto financiadoras de um sistema político opressor e ilegal. Quer dizer, nenhuma empresa gosta de ver seu nome ligado publicamente a violações de direitos humanos, e isto é um forte motivo para que procurem investir em países menos críticos para a sua imagem”, explica Juma.
Apesar de não ser nova, a idéia de “sanção, boicote e desinvestimento” ainda carece de amadurecimento, reconhecem os ativistas que propuseram o debate no FSM. “O objetivo é exatamente coletivizar a proposta e as discussões sobre formas de implementação, para uma adoção massiva enquanto campanha global contra a ocupação israelense”, diz o palestino.
A adoção destas estratégias punitivas contra Israel deveriam, em teoria, surtir o mesmo efeito que tiveram sobre o regime segregacionista da Africa do Sul. O primeiro grande problema, pondera o sociólogo filipino Walden Bello, coordenador da ONG Focus on the Global South, é que a conjuntura política e econômica hoje é bastante diversa daquela vivida à época do Apartheid sul-africano.
“Vejo alguns problemas básicos aqui. Nesta época de economia globalizada, por um lado, é difícil identificar os produtos de origem israelense no mercado mundial. Por outro, muitas das empresas que têm capital israelense são multinacionais de peso, e, pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), não se permitem sanções econômicas por motivos não econômicos sobre o fluxo de bens e capital. Isto não pode ser subestimado. Outro problema também é a concepção, muito difundida entre intelectuais e grandes ONGs, de que boicotes e sanções penalizam mais os trabalhadores e a população civil do país em questão do que suas empresas, seus investidores e seu governo. Isto nem sempre é verdade, mas é uma pedra no caminho desta campanha”, explica Bello.
Outro a ponderar sobre a praticidade de um boicote generalizado a Israel é o ex-sargento das Forças Armadas israelenses Zohar Shapira, um dos mais importantes integrantes do movimento Refusnik (militares que se recusam a lutar nos territórios ocupados) do país.
“Creio que a solidariedade internacional aos palestinos deveria se concentrar na luta contra o governo de ocupação, não contra o país de Israel. Quer dizer, o povo judeu tem essa característica de, ao se sentir ameaçado por outros povos, fechar-se em uma união ferrenha. Acredito que a luta pelo fim da ocupação da Palestina tem que contar com o apoio dos israelenses que já entenderam a barbárie que isso significa. Se a campanha de boicote visasse apenas aos produtos dos assentamentos israelenses em território palestino, de empresas que se beneficiam com a ocupação, acho que contaríamos com um bom número de colaboradores em nosso próprio país”, explica Shapira.
O problema, rebate o coordenador do Comitê de Solidariedade com a Palestina da África do Sul, Salim Vally, é que a “situação não permite que se debata para sempre. Estamos cansados de declarações da ONU desrespeitadas por Israel, precisamos fazer a mudança pela força dos movimentos sociais que já demonstrara o que é possível alcançar quando derrubaram o regime sul-africano. O movimento de boicote contra a África do Sul demorou 20 anos para “pegar” no mundo, mas foi capaz de efetivar a mudança desejada. Existem na internet uma série de páginas com listas de produtos e empresas israelenses que devem ser boicotados. Temos que começar por aí, temos que começar de algum lugar, e o mais rápido possível”.
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